domingo, 5 de outubro de 2008

Itamaury Teles

ITAMAURY TELES DE OLIVEIRA: O NOVO IMORTAL

O jornalista toma posse da cadeira número 4, como sucessor de Geraldo Avelar, na Academia Montes-clarense de Letras e lança seu novo livro de crônicas Noturno para o Sertão
 

POR JERÚSIA ARRUDA



A academia Montes-clarense de Letras recebe de presente em seu 40º aniversário de fundação um novo integrante: o jornalista, advogado e administrador, mineiro de Porteirinha, Itamaury Teles de Oliveira.

Autor dos livros Urubu de Gravata (2005) e Noturno para o Sertão (2006), o escritor vai ocupar a cadeira número 4, que tem como patrono Honorato Alves, antes ocupada por Geraldo Avelar, um dos 13 fundadores e primeiro secretário da Academia, cuja primeira ata é de sua lavra.


Escritor desde os 16 anos de idade, hoje, aos 52 anos, Itamaury diz que sua formação sempre foi norteada pelas Letras, numa época em que a comunicação não dispunha de recursos tecnológicos como hoje e que desde o início teve tendência para a crônica, mesmo não sabendo que era o que produzia.


Itamaury se mudou de Porteirinha para Montes Claros para estudar, onde se tornou um ativista cultural, participante assíduo de todos os movimentos estudantis e culturais na década de 1970, participando, inclusive, da fundação da Academia Juvenil de Letras de Montes Claros, única no país, hoje extinta. Em 1991 se mudou para Belo Horizonte, onde reside até hoje, apesar de manter sua casa em Montes Claros, onde diz morar seu coração.


Graduado em Administração, pela UFMG, e em Direito, pela Faculdade de Direito Milton Campos, Itamaury tem passagem significativa no setor administrativo do Banco do Brasil, em cargos de assessoria superior, em Brasília, e principal gestor em diversas agências do interior e da capital mineira, onde se aposentou.


Possui cinco cursos de pós-graduação e mestrado em Administração pela UFMG, onde defendeu a tese, em 2004, sobre estratégias para a cachaça artesanal mineira de qualidade.
No Moot Corp Latin American, competição realizada pela escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas, março de 2003, recebeu o prêmio internacional pela elaboração do melhor Plano de Negócios (Outstanding Business Plan).
Também participou de curso de verão na Alemanha, na universidade de Schmalkalden, em 2004, onde proferiu palestra sobre o Mercosul.
Como professor atuou em cursos de graduação e pós-graduação várias universidades mineiras e foi instrutor por mais de uma década em cursos de formação e de desenvolvimento gerencial no Banco do Brasil.
Atualmente é conselheiro em empresas de capital aberto e escreve crônicas para jornais da capital e do interior mineiro.


Fundada em 13 de setembro de 1966, e uma das mais importantes do país, a Academia Montes-Clarense de Letras está há 40 anos em atividade ininterrupta e já deu dois imortais pra a Academia Brasileira de Letras - Cyro dos Anjos, o quarto ocupante da cadeira 24, eleito em 1º de abril de 1969, na sucessão de Manoel Bandeira e recebido pelo acadêmico Aurélio Buarque de Holanda em 21 de outubro de 1969, onde permaneceu até 1994, e Darcy Ribeiro, que foi eleito em 8 de outubro de 1992 para a Cadeira nº 11, sucedendo a Deolindo Couto, recebido em 15 de abril de 1993, pelo acadêmico Cândido Mendes de Almeida.


Com aprovação unânime dos acadêmicos, Itamaury Teles tomou posse da cadeira 4 da academia, na última terça-feira, 19 de dezembro, quando também lançou oficialmente o livro de crônicas Noturno para o Sertão.


Em entrevista exclusiva à jornalista Jerúsia Arruda, Itamaury fala da sua emoção em se tornar o mais novo membro da academia e conta um pouco de sua trajetória pelo caminho das Letras.

Como começou seu namoro com as Letras?
Comecei ainda muito novo, aos dezesseis anos, quando comecei fazer o jornal estudantil da Escola Normal, chamado O Caveira, eu e Luis Carlos Novaes, que hoje é editor do Jornal de Notícias. Antes já havia feito um jornal no Sesc, junto com Manoel Oliveira. Isso foi em 1970/71. Em junho de 1971 o Jornal de Montes Claros publicou um anúncio convocando os estudantes do segundo grau (hoje Ensino Médio) a participar de uma seleção porque estava precisando de novos repórteres. Eu me candidatei e fui um dos escolhidos. Eu e Arthur Leite. Nós começamos no mesmo dia, em 16 de junho de 1971. Daí para cá, não parei mais de escrever. Depois fiz o jornal do Sesc, junto com Reginauro Silva, que também era nosso colega no Jornal e Montes Claros e depois passou a ser secretário de redação.

Quais suas referências no jornalismo? Com quem mais aprendeu no início da carreira?

Tive bons professores de jornalismo. O Valdir Senna, que para mim era o papa, o Oswaldo Antunes, também, que era o diretor. Mas o Valdir é quem tinha maior contato conosco. Então, eu tive como escola, como iniciação nas Letras a redação do saudoso Jornal de Montes Claros. E de lá para cá não parei mais. Já são 35 anos de jornalismo, de colaboração com jornais e revistas.

Como você define seu texto no jornalismo?
- Eu comecei como repórter geral, fazia cobertura das entidades de Montes Claros, noticiário geral. Na época não tinha editoria como hoje, era primeira página e páginas internas. O jornal circulava as terças, quintas e sábados. A edição de terça-feira era apenas de quatro páginas, a de quinta de seis páginas e a de sábado, dez páginas. Nós não tínhamos Internet nem nada, tínhamos que correr atrás, garimpar notícias numa época de comunicações difíceis, não tinha clicheria aqui. Para quem não sabe o que é clicheria, da jurássica ainda, se fazia a fato em chapas de zinco em Belo Horizonte e demorava quinze dias para publicar uma foto. Fazer jornalismo era muito difícil naquela época. Depois que saí do Jornal de Montes Claros e fui para o diário, me ofereceram uma coluna chamada Vida Estudantil que escrevia as quintas e sábados. Aí eu passei a me soltar mais, a fazer textos mais opinativos e comecei a escrever crônicas, e muitas delas não foram publicadas. Eu guardei e hoje estou resgatando coisas que estavam dormindo mesmo nas gavetas, nos escaninhos da vida. Mas sempre tive esse pendor para a crônica, embora não soubesse bem, eu já escrevia crônicas desde os 16 anos.

Quem escreve crônica tem uma vocação natural para a Literatura, que é diferente do texto jornalístico. Como você chegou à primeira publicação literária?
- A primeira publicação com meu nome na primeira página do Jornal de Montes Claros foi em 1971, quando o governador Rondon Pacheco veio a Montes Claros fazer o lançamento da campanha da produção e da produtividade agrícola e eu o acompanhei em uma visita a Porteirinha e Janaúba. E foi matéria de primeira página com foto, porque o retrato do Rondon não era difícil porque era o governador do estado e o jornal já tinha estoque de clichês. Agora, livro mesmo, o primeiro foi o Manual Técnico de Estudos e Operações que foi publicado pelo Banco do Brasil, quando ainda era funcionário da agência centro, em Belo Horizonte, em 1978. Em função dessa publicação eu recebi um convite para trabalhar na direção geral do Banco do Brasil, no departamento de treinamento de pessoal. Isso abriu as portas para minha ascensão profissional junto ao Banco. Eu já havia me formado em Administração e produzi esse livro no mesmo ano em que me formei. Foi uma edição restrita, de apenas 100 exemplares, mas foi encaminhada para vários órgãos da direção geral, várias agências do Banco e essa foi, oficialmente, minha primeira publicação.

E aí começou um novo namoro?
- É. Logo depois, em abril de 2005, lancei Urubu de Gravata, que é uma coletânea de crônicas, com produção independente. Inicialmente fiz o lançamento em Montes Claros, Porteirinha e, logo depois, em Belo Horizonte. Foi uma edição de 1000 exemplares e hoje tenho apenas 50 exemplares. Estou planejando uma segunda edição, talvez mais ampliada, com ilustrações.

Agora você está lançando seu segundo livro de crônicas.
- Noturno para o Sertão, que também é uma coletânea. No primeiro, Urubu de Gravata, fiz uma seleção de crônicas de humor e no Noturno para o Sertão, embora tenham muitas crônicas de cunho humorístico, há também matérias jornalísticas, artigos, onde demonstro minha indignação com muita coisa que acontece principalmente em Montes Claros, para onde volto meu volto meu foco. Não é um livro só de humor, mas também tem um olhar crítico, onde coloco minha posição.

Como surgiu esse convite para ocupar uma cadeira na Academia?
- Nós fundamos uma academia na década de 1970, a Academia Juvenil de Letras e, na época, foi motivo de matéria no jornal Estado de Minas, falando que enquanto no mundo inteiro a academia é sinônimo de maturidade, em Montes Claros, as pessoas já cuidam de ter uma academia desde jovens estudantes. Tinha um tom de pilhéria, de galhofa, mas nós levamos aquilo numa boa. Éramos Luis Carlos Novaes, o Manoel Oliveira, Délcio Costa, Felipe Gabrich, Márcia Sá, um grupo de umas quinze pessoas. Então, já é uma idéia antiga. Agora, no caso especificamente da Academia Montes-clarense de Letras eu recebi um ano atrás dois convites, um da presidente, Dona Yvonne, e outro do vice-presidente, Wanderlino Arruda, para que me candidatasse a uma das vagas. Aí eu pensei, se os convites partem de duas pessoas tão gabaritadas, quem sou eu para achar que não tenho condição. Aí me candidatei e fui informado que houve uma aprovação unânime ao meu nome e isso me deixou muito honrado, muito satisfeito com a possibilidade de participar de uma academia que é uma das mais importantes do Brasil, há 40 anos está em atividade ininterrupta e já deu dói imortais para a Academia Brasileira de Letras. Então, é uma academia que tem história, tradição.

Esse título pesa de alguma forma na sua forma de produção a partir de agora?
- É uma responsabilidade a mais, porque, ao fazer parte de uma academia, é preciso ter um compromisso maior com a manutenção do seu nome. A gente quer que ela cresça e eu quero somar para o trabalho que já vem sendo desenvolvido. Então, acho que preciso ter mais cuidado, ficar mais vigilante, mais atendo à produção acadêmica.

Eu penso que todo escritor é ainda mais leitor que seus leitores. Então, como leitor, como você vê a relevância do trabalho da Academia Montes-clarense de Letras, seu benefício para a comunidade de um modo geral?
- Eu acho que o benefício é o de ter um grupo que se preocupa com o desenvolvimento da escrita, com o progresso cultural da cidade e da região, de ser referência para as pessoas que tenham alguma aptidão para as letras, de saber que um dia também poderão fazer parte da academia. Onde há reuniões onde o assunto Cultura floresce a cada momento. É um fórum de debates muito importante e uma cidade que tem isso realmente pode se considerar em boas condições culturais. Em Minas tem poucas academias em funcionamento, tem a Academia Mineira onde estão os destaques das letras do estado, e aqui em Montes Claros, as pessoas de destaque também fazem parte, têm um assento na academia. Embora as vagas sejam limitadas, mas como diria o Millôr Fernandes, da Academia Brasileira de Letras, são 40 cadeiras com uma vaga flutuante, ou seja, tem sempre uma vaga a ser preenchida, então, há sempre oportunidade para quem quer fazer parte do grupo.

Como ativista cultural desde adolescente, inclusive com a incursão na criação de uma academia estudantil, que participou de alguma forma produção cultural da cidade, você já pensou em algum projeto que gostaria de desenvolver junto à Academia?

- Não, ainda não fiz esse tipo de reflexão. Quando você adentra a esse grupo, se gente como que atingindo a maturidade nas letras. Eu não tenho nenhum plano elaborado ainda.

Você conhece bem o trabalho desenvolvido pela Academia na cidade?- Eu acho meio cedo para fazer uma avaliação. Primeiro vou conhecer como as coisas acontecem intra-muros, internamente, para depois ver em que sentido posso colaborar. É claro que quando os acadêmicos que lá estão acolhem um novo acadêmico eles esperam novas idéias. Eu sempre pautei assim minha vida, desde o banco. Quando chegava a uma agência nova, primeiro fico a par da situação, para saber como funciona, para depois, de forma pontual, ir colaborando. Não tenho a pretensão de chegar achando que está tudo errado e que tem que mudar, realmente não. Mas acredito que tenha algo a contribuir pela minha vivência e maturidade.


O que você está fazendo hoje como jornalista?
- Sou colaborador da revista Tempo, assino uma página que se chama Nossos Causos, sou colaborador dos jornais O Norte de Minas e Jornal de Notícias, de Montes Claros, na Edição do Brasil, de Belo Horizonte. Sou advogado em Belo Horizonte, onde resido. Agora que estou aposentado, fico mais tempo em Montes Claros onde ainda mantenho minha casa. Também leciono em cursos de pós-graduação na universidade de Juiz de Fora, na Unileste, em Coronel Fabriciano, na Unimontes, na UFMG, na Uni-BH e outras instituições que invariavelmente me convidam. Agora com a titulação de mestre em Administração, possibilita essa atividade. Também sou conselheiro de algumas empresas.

E na Literatura, tem algum projeto em andamento?
- Tem um livro que vou lançar resgatando a história fotográfica de Porteirinha. Já estou com um arquivo com mais de 300 fotos antigas que resgatei visitando famílias tradicionais da cidade e fui digitalizando. Tenho, também, muitos documentos sobre a cidade, como as leis de emancipação do distrito, e tudo isso quero colocar à disposição dos meus conterrâneos em um livro que pretendo lançar ano que vem. Além desse livro, tenho mais três praticamente prontos, que devo lançar no devido tempo.

No mesmo estilo dos outros ou é um romance?
- Não é romance, é mais um de crônicas e um sobre um distrito de Porteirinha chamado Serra Branca, onde tem uma festa muito famosa, quase tricentenária, a Festa de Santana. Estou fazendo um resgate dessa festa e desse lugarejo, onde foi palco, inclusive, das filmagens da minissérie da Rede Globo de Televisão, Grande Sertão:Veredas (baseada em livro homônimo do escritor mineiro Guimarães Rosa). A parte final da minissérie foi filmada nesse local por indicação do Haroldo Lívio, que é o tabelião oficial de registro civil de Porteirinha e conhece toda a região, e ele sugeriu ao diretor Walter Avancini, na época. A locação foi toda em Serra Branca. Na época não havia nem luz elétrica, e é um lugarejo deserto o ano inteiro. E durante os festejos, parece mais a exposição agropecuária de Montes Claros, quer dizer, o Norte de Minas todo fazia parte. Tinha casamento coletivo, 20 casamentos, e eu fiz um resgate da história desse lugar e estou resgatando, também, fotos e o livro vai se chamar Serra Branca é uma festa.

E quando fica pronto?
Vou ver se dá para lançar também no ano que vem.

Um comentário:

  1. Prezada Jerusia Arruda,

    Gostei muito das entrevistas com Itamaury Telles e Petrônio Braz. O seu blog está muito bom. Parabéns!

    Um amplexo de
    Dário Teixeira Cotrim

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