segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Bartolomeu Campos de Queirós

A FORÇA POÉTICA DE BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS
O escritor mineiro diz não gostar de literatura com destinatários e que a fantasia é a matéria-prima da literatura e da arte em geral


Publicado em 08/10/2008


Com uma linguagem que consegue ser, ao mesmo tempo, simples e densa, Bartolomeu Campos de Queirós é autor de mais de quarenta livros publicados no Brasil, vários deles traduzidos e editados em outros países. Muitos de seus textos foram adaptados para o teatro, dentre eles, Ciganos, encenado pelo Grupo Ponto de Partida, de Barbacena/MG. Sua obra tem sido tema de teses acadêmicas (áreas de Literatura e Psicologia) em várias universidades brasileiras.
Nascido em Papagaio, no interior de Minas Gerais, o compenetrado e metódico Bartô se interessou desde cedo pela literatura e pelo ensino da arte, retratando em suas obras os sabores, cheiros e cores dos muitos lugares por onde passou, em uma prosa poética refinada, que lhe rendeu vários e importantes prêmios literários nacionais, como o Prêmio Cidade de Belo Horizonte; Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro; Selo de Ouro, da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil; 9ª Bienal de São Paulo; 1ª Bienal do Livro de Belo Horizonte; Diploma de Honra da IBBY, de Londres. Com o livro Index, foi o vencedor do Concurso Internacional de Literatura Infanto-Juvenil (Brasil, Canadá, Suécia, Dinamarca e Noruega).
De poucas palavras, avesso à badalação e só faz o que gosta. Assim é Bartolomeu. Seus textos, ao contrário, são transparentes, leves, sem, contudo, serem superficiais.

Com formação nas áreas de educação e arte, cursou o Instituto Pedagógico de Paris, se destacando como educador em vários níveis desde a década de 70, contribuindo com importantes projetos da secretaria de Estado da Educação e ministério da Educação. Foi presidente da Fundação Clóvis Salgado/Palácio das Artes, membro do Conselho Estadual de Cultura e do Conselho Curador da Escola Guignard. Atualmente participa do Projeto ProLer, da Biblioteca Nacional, ministrando conferências e seminários sobre educação, leitura e literatura. Também atua como crítico de arte, integrando júris e comissões de salões e fazendo curadorias e museografias de exposições.

Seu primeiro livro - O peixe e o pássaro - foi publicado em 1974. Desde então passou se dedicar à literatura infantil com obras como Ler, Escrever e Fazer Conta de Cabeça, que tem Formiga Amiga, Pato Pacato, Guarda-Chuva da Guarda, Cavaleiros das Sete Luas, Até Passarinho Passa, Ciganos, Patas da Vaca, Olho de Vidro do Meu Avô, De Não em Não, e muitas outras, com uma narrativa poética carregada de significados, emocional, e que desperta inquietações.O autor atribui sua relação com as crianças à proximidade estimulada em sala de aula, já que foi professor por muitos anos. Segundo ele, quando começou a escrever, os mais jovens foram seus primeiros leitores, que faziam suas observações, até que um dia resolveu enviar um texto para o concurso João de Barro, da prefeitura de Belo Horizonte, que ficou o primeiro lugar. Daí, não parou mais.

Usando o processo de metalinguagem para que o leitor possa se inserir no texto, o autor instiga a imaginação, dando liberdade a várias leituras e permitindo ao leitor ir além.
Bartolomeu Campos revela através de sua obra literária e de seu trabalho como educador a necessidade premente de se promover através da educação valores mais humanos nas crianças, que precisam deixar de ser consumidoras, repetidoras, e passarem a ser criadoras.
Com a simplicidade e nobreza típicas do povo mineiro, o escritor diz não gostar de literatura com destinatários, pois cada leitor absorve o texto conforme sua vivência e por isso procura escrever um texto que permita apenas uma leitura e não um texto literário, já que a literatura abre portas, mas a paisagem está escondida na emoção de cada leitor que, como diz humildemente, sempre sabe mais que ele.

Em entrevista exclusiva à jornalista Jerusia Arruda, o velho Bartô fala de coração aberto sobre suas andanças, sobre o processo de criação de seus livros, sobre a educação no Brasil, a importância da leitura na formação do cidadão, e deixa algumas dicas para os iniciantes na arte de escrever.

O que representa para você participar do programa Tim Estado de Minas Grandes Escritores? Estou no programa desde o ano passado. Já fui a Belo Horizonte, Viçosa, Ponte Nova e agora em Montes Claros. Eu gosto de participar do projeto porque acho que é necessário no Brasil agora, com a política cultural, preocupar com a formação do leitor. Falar em cidadania implica em falar em leitura. O cidadão tem que saber ler, antes de mais nada. Então, essa divulgação do livro, essa preocupação com a aquisição de livros, com o acervo de bibliotecas públicas que o programa tem me interessam também, porque eu já participo de alguns projetos de formação de leitor no Brasil.

Você acha que essa aproximação do autor com o público incentiva à leitura?
- Quando a gente vai a cada cidade a gente fala do processo criativo, como é que surge a idéia, de onde vem, como é que a gente se fez leitor - porque todo escritor é um leitor, e isso anima o sujeito a ler, ficar um pouco curioso em conhecer o que a gente escreve. Esse contato com o público com o escritor é bem eficiente para despertar o interesse pela leitura.
- Eu tento no meu trabalho fazer uma literatura sem fronteira, que tanto o jovem quanto o adulto tenham acesso. Eu não gosto muito de pensar numa literatura com destinatário, ou é ou não é literatura. Nas outras áreas das artes, por exemplo, você não vê falar que Picasso pintou para criança, que Portinari pintou para criança, que Beethoven escreveu para criança. Também é assim com a literatura. Essa literatura destinada para alguma coisa eu não gosto, eu prefiro tentar dentro do meu trabalho uma literatura realmente sem fronteira.

Como é sua produção, você tem uma rotina, reserva um tempo para escrever, ou escreve por inspiração?
- Não, eu gosto muito de ler e brinco muito dizendo que ler é melhor do que escrever. Então, eu nunca aceito um contrato com uma editora fechado, com produção com data marcada. Eu escrevo quando tenho o que dizer. Se eu não tenho o que dizer eu não fico ansioso, procurando alguma coisa para falar, nem nada, fico tranqüilo, leio o tempo inteiro, fico em casa, passeio, mas fico sempre esperando ter o que dizer. Eu acho que a gente só escreve quando tem o que dizer.

Têm muitas histórias, como a do Joseph Mitchell, que demorava meses e até anos para produzir um texto. Qual o tempo que normalmente você gasta para concluir um livro?- Texto é demorado. Até o Mallarmé fala isso também. Mallarmé (se refere ao poeta francês Estephane Mallarmé) diz que a gente nunca termina um texto, a gente abandona. Porque se eu reler eu vou modificar novamente. Se eu releio, eu modifico, modifico, modifico e há um certo dia que você fala assim, não, hoje chega, não quero pensar mais e manda, e aí vai embora. Tanto que tenho o hábito, por exemplo, de não ler meu texto depois de pronto, porque me dá vontade de alterar novamente e já não tem jeito.

Acho que isso é uma característica dos bons artistas, de deixar a obra para que as pessoas contemplem e completem. O Djavan fala muito isso, de não gostar de ouvir a própria música.
- É, eu não gosto. Eu faço e não vejo meu livro, não quero ler, não quero saber o que está lá dentro mais e vou partir para outra coisa, senão vou querer modificar.

Você sempre esteve envolvido com a educação de alguma forma?
- Eu fui muito tempo funcionário do Ministério da Educação e da secretaria de Estado da Educação e também fui funcionário do sistema Pitágoras de ensino. Agora que estou mais afastado da educação, mas mesmo assim sempre sou chamado pelos professores, pelos congressos de educação para falar alguma coisa, porque a gente não sai da educação. Entrou uma vez, não sai nunca mais. Então, aceito esses convites e tal, mas hoje eu vivo só pela literatura, só pelo texto, pela leitura, pelos congressos.

O brasileiro não tem o hábito da leitura. O que você acha que poderia ser feito para motivar um pouco mais o leitor?
- Eu acho que tem que ser uma arrancada muito grande, porque eu não vejo a escola como a única capaz de formar o leitor. Acho que o leitor vai ser formado por uma sociedade leitora. Deixar na responsabilidade da escola essa função, ela não dá conta. Hoje temos que contar com todos os movimentos de leitura que a gente tem, os congressos, as bibliotecas públicas, os movimentos de contadores de história, com tudo isso, para mobilizar uma sociedade inteira em torno da leitura, porque deixar só a escola nós não vamos chegar lá não.

Com toda essa abertura da Internet, você acha que os livros didáticos fornecidos pelo governo para as escolas públicas acompanham a evolução da criança?
- Eu vejo o seguinte: o livro didático sempre conta para a criança o que o homem já fez. O homem andou até tal lugar na matemática, até aqui na física, até aqui na química, Biologia e tal, mas como a literatura é feita de fantasia, ela está sempre proporcionando ao leitor maior contato com a fantasia, a ter maior coragem para deixar a fantasia vir à tona. E a fantasia é o que há de mais importante porque todo o real que nos cerca é uma fantasia que vem no corpo. Quer dizer, hoje estamos comemorando cem anos do 14 Bis, com esses aviões cruzando os céus com 800 passageiros, essa coisa toda, mas cem anos atrás era uma fantasia do Santos Dumont. Todo real é uma fantasia que vem no corpo, então fantasiar é sempre uma atitude de acrescentar algo novo no mundo, tudo que acontece de novo foi a fantasia que fez.

Seria interessante, então, incluir nessa lista do governo a literatura?- Claro, seria fundamental, e o ministério da Educação já tem feito alguns projetos nesse sentido, como A literatura em sua casa, os acervos básicos de biblioteca com literatura, com texto literário.

Inclusive virtual...
- Também, então a gente está chegando à conclusão que tem que ler e ler de tudo, não se limitar a uma coisa só.

E a televisão?
- Olha, a televisão é uma coisa muito interessante porque não cobra nada do espectador, ela não me cobra nada, eu ligo, vejo, desligo, ninguém me cobra nada. Agora, é muito interessante a literatura quando se chega à escola. A escola não dá muito conta de deixar a criança ler pelo prazer de ler. Lê e acabou. Ela quer que a criança leia para cobrar o que foi lido, então sempre é fácil. A televisão tem essa grande coisa, porque não cobra, ninguém pergunta se eu gostei, se não gostei, o que é que foi, se eu não gostar eu desligo, mudo de canal. E é o que acontece com os livros, eu muitas vezes entro em uma livraria, folheio vários livros, vejo um pedaço de um, um pedaço de outro, qual que vou querer levar, quer dizer, a gente não está deixando isso. Mas hoje a escola já está sensível por esses processos de avaliação da literatura, deixar a literatura livre, aberta, para a criança gostar ou não gostar.

Como professor e escritor, de um modo geral, como você vê a educação no Brasil hoje?
- Eu acho que a gente está num momento muito rico porque está todo mundo dizendo que ela não vai bem. O ministro da Educação diz que ela não vai bem, o secretário, os governadores falam que não vai bem, os candidatos a presidente dizem que ela não vai bem, então é hora da gente criar, é hora da gente inventar uma maneira nova para essa escola. Para o educador é um momento muito bom de fazer essa invenção. Se não está bom, o que nós vamos fazer? E aí entra a fantasia. Que escola nós fantasiamos? Então vamos realizar essa fantasia na escola.

Como você se define como autor?
- Eu digo que ser escritor é igual a ser um trapezista sem rede, você nunca sabe onde cai, nem o que o leitor achou. E por isso que é bom quando você vai a algum lugar e encontra alguém que já leu você, para saber onde foi que caiu, como é que foi a queda. Mas é sempre um trabalho de um trapezista sem rede, você faz o melhor de você lá em cima, tudo bem, mas não sabe onde vai cair. Você não sabe como o leitor aceitou, como a coisa foi desenvolvida, então é arriscar, tentar o inconveniente. Criar é isso, tentar o inconveniente.

Quem é o Bartolomeu leitor, de quem você gosta?
- Ah, eu sou bom leitor, adoro ler. Sou um cara que li muito, estudo muito, gosto de teorias também, não leio só a literatura não. Leio sobre educação, psicanálise, de tudo isso eu leio. Leio também meus amigos escritores.

Alguém em especial?
- Não, no Brasil eu não vou dizer o nome porque eu leio tanta gente, mas eu tenho meus livros de cabeceira. Tem o Garcia Lorca, a Cecília Meireles, o Manoel Bandeira. Tem uns livros que eu leio, porque a poesia é muito boa de ler. A gente que trabalha muito, que viaja muito, você lê um poema e dá para o dia inteiro. Um poema é curto e você pensa sobre ele o dia inteiro. Eu tenho muita ligação com a leitura da poesia e gosto. Agora tem os grandes autores brasileiros que eu gosto muito, dos contemporâneos, Clarice Lispector, Ruben Fonseca, Ignácio de Loyola Brandão. Eu gosto de muita gente no Brasil e cada dia aparece uma coisa melhor do que a outra. Então é bom ler, é bom ler.

E o que mais é bom? Além de ler o que mais você gosta de fazer?
- É bom viajar um pouco, eu gosto de cinema, de música, gosto de fazer as coisas. Mas sou lerdo, menino antigo, que faz cada coisa de uma vez. Quando vou escrever eu apago tudo e só escrevo; quando vou ler eu não escuto uma música no fundo, só leio; quando vou ouvir uma música, só escuto a música; quer dizer, aquela coisa bem lerda. Eu não dou conta de ser essa criança de hoje, ativa, animada, que vê televisão, lê uma revista e ainda escuta a conversa do pai, faz tudo ao mesmo tempo, são muito interativas. Eu não sou assim, sou muito lerdo.

Você está desenvolvendo algum projeto agora?
- Não, meu projeto mesmo é de escrever um pouco enquanto eu tiver tempo, enquanto eu tiver o que dizer.

Está produzindo algo novo?
- Estou produzindo algo novo, têm coisas novas que vão sair por aí, mas é sempre a escrita mesmo.

Tem um filho preferido entre os livros?
- Não, a gente acha sempre que o último é sempre o melhor, mas às vezes não é. A gente acha que aquele foi o que peguei mais, já tinha as experiências dos outros e tal, mas às vezes não é.

Montes Claros tem o Psiu Poético, que você já conhece, que tem incentivado novos escritores, feito escola, realmente. Para essas pessoas que estão se iniciando na arte de escrever, que palavra de incentivo você daria?
- A arte é feita da diferença, quanto mais diferente é um do outro, melhor. A arte não pode ser igual à do outro. A originalidade é que inaugura o objeto estético. Então, eu acho que eles devem se preocupar com o lugar, com a maneira que a coisa vive, onde estou, o que me rodeia, que emoção me visita, e fazer disso o objeto de trabalho. É importante também olhar o mundo que está em volta da gente, não ficar preocupado com outras coisas para estabelecer a literatura. Eu acho que a literatura se estabelece quando você descobre a diferença que existe no mundo que você vive. É a minha diferença que vai fazer meu trabalho original.

A gente sabe que a produção, por mais lúdica que seja, por mais que tenha essa expressão da idéia, do interior, da arte em si, há sempre a preocupação se vai vender, como será a aceitação. O que você pensa sobre isso?- Para quem cria a melhor hora é o momento que está criando. Criar é muito bom, enquanto você está fazendo o trabalho. Depois você entrega, e até que a editora faz o livro, passam aí seis meses para ficar pronto, você já está com outra idéia, quando aquele livro sai você já nem está mais aí. Agora, essa idéia de vender, a arte é uma questão de qualidade, se tiver qualidade ela vai ser reconhecida pela crítica, vai ser vendida e tal. Eu faço o texto, mas é o leitor que diz se ele é literário, não sou eu. Às vezes a gente fica assim, preocupado, eu faço e ninguém compra, então é porque o texto não está movendo o leitor. Só à medida que o leitor compra meu texto é que eu fico sabendo se ele é literário. Antes disso é um texto qualquer.

Teve algum momento que você vacilou, achou que não ia dar?
- Não, eu toda vida gostei de escrever, toda vida eu fui feliz, fui uma pessoa de sorte, já comecei premiado e logo depois vieram outros livros que foram premiados, então as editoras sempre me cercaram muito, pedindo textos e tudo isso, e eu sempre dei conta. Eu vendo razoavelmente bem, meu texto já é bastante traduzido, então já dá para eu falar o sobre isso. A vida da gente é isso, cada um escolhe, mas eu nunca tive arrependimento de escolher ser escritor. Hoje sinto que não saberia fazer outra coisa.

Teve alguma coisa que você tentou fazer e não conseguiu ou queria ter feito e não tentou?
- Não, eu sempre fui muito feliz assim. Como te falei, eu trabalhei no ministério da Educação, na secretaria de Educação, dirigi o Palácio das Artes de Belo Horizonte, e em todos os lugares em que trabalhe, foi muito interessante e tive muita sorte. Nunca fui convidado para fazer uma determinada coisa, sempre me diziam para fazer o que quisesse. Sempre trabalhei com criação. Eles sempre me chamaram para criar uma idéia, uma coisa nova. Então isso me ajudou muito. E depois, com a literatura, eu exerço isso o tempo inteiro, porque a literatura é o espaço da fantasia. Quanto mais eu fantasio, melhor meu texto. A arte é o único trabalho no mundo hoje onde a fantasia é a matéria de trabalho, os outros todos são repetições. A fantasia na arte é fundamental.

Tem alguma coisa que você gostaria de acrescentar?
-Só agradecer por estar em Montes Claros depois de muitos anos. Eu já estive aqui muitas vezes, na época da Dona Marina Lorenzo, eu era da secretaria de Educação e vinha muito visitar o conservatório. Tive contato há muito tempo com uma pessoa de quem eu gostava muito, o Raymundo Colares, que tinha um belo trabalho de artes plásticas, maravilhoso; o Konstatin Christoff também, eu gosto muito daquela irreverência toda da arte dele. Eu gosto muito de Montes Claros e é sempre bom voltar aqui.

Apesar de serem chamados de literatura infantil, seus livros não são aqueles textinhos fáceis, eles chegam a todas as pessoas. Para quem você realmente escreve?

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