sábado, 11 de outubro de 2008

Lô Borges

LÔ BORGES: MÚSICA SEM FRONTEIRAS
Faz tempo que Minas Gerais abriga e exporta arte e cultura em todas as manifestações e, na música, uma de suas melhores referências é indubitavelmente o virtuoso Salomão Borges Filho, ou o sexto filho da família Borges, Lô Borges.


POR JERÚSIA ARRUDA
Nascido em 1952 em Belo Horizonte, o cantor e compositor mineiro se envolveu com a arte de tocar e cantar ainda menino: aos dez anos arriscava os primeiros acordes no violão; aos doze já havia formado sua primeira banda – The Bivers, tomado pela beatlemania; em seguida começou a compor as canções que seriam a base do consolidado movimento que surgiria anos depois, transformando a música brasileira, o Clube da Esquina; aos dezessete, em parceria com Milton Nascimento grava o álbum Clube da Esquina e, em 1972, lança seu primeiro álbum solo, Lô Borges (o disco do Tênis).


A carreira de Lô sempre foi assim: efervescente.
Ao lado do irmão Márcio, Milton Nascimento, Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso, Ronaldo Bastos, Fernando Brant e tantos outros, Lô construiu uma carreira sólida, marcada por canções que eternizaram a fama da qualidade da produção artística mineira, e que foram gravadas pelos mais importantes interpretes da MPB. Mas, como ele mesmo diz, não se pode ver a vida pelo espelho retrovisor, 35 anos depois, Lô continua em plena produção e absorve harmoniosamente as influências da música produzida pela nova geração e se deixa levar por elas sem, entretanto, perder o foco e o estilo que o consagrou.


O projeto é promovido pelo Museu Clube da Esquina, para divulgar e preservar a produção artística do Clube da Esquina e, durante o encontro, Márcio Borges conversa com o público sobre a história do Clube da Esquina e apresenta um vídeo elaborado a partir do acervo do Museu, e Murilo Antunes lê poemas de sua autoria.
Em show ao vivo, Lô Borges apresenta as músicas inéditas de seu último álbum, Bhanda - felicidade, em sânscrito – acompanhado pelos músicos Giuliano Fernandes (guitarra), Barral (teclados), Renato Valente (baixo) e Robinson Matos (bateria). O disco, que tem 10 faixas, traz parcerias com o irmão Márcio Borges, com o músico, poeta e principal letrista do Skank, Chico Amaral, e com o vocalista e letrista da banda Radar Tantã, César Maurício.


Em entrevista exclusiva à jornalista Jerúsia Arruda, Lô Borges fala da música e amizade do Clube da Esquina, dos antigos e novos parceiros, da forma como sua música vem se renovando, passando de geração para geração sem nunca perder o estilo.


Você é símbolo vivo e em plena produção (graças a Deus!) de um dos movimentos mais importantes da música brasileira. Se olhar para esses 35 anos de música, faria tudo de novo, do mesmo jeito?Me orgulho da maneira como minha trajetória foi construída. Comecei bem garoto no mundo discográfico, quando o Milton (Nascimento) me convidou para fazer o álbum Clube da Esquina, e teve uma repercussão muito maior do que a gente imaginava ou do que eu podia esperar, e a partir daí minha carreira foi se desenvolvendo naturalmente. Eu vejo esse tempo como um tempo de muita criatividade, os encontros foram muitos felizes, o destino colocou as pessoas certas no lugar certo, na hora certa e acho muito bacana tudo o que aconteceu. O mais importante nisso tudo é que não podemos olhar muito as coisas pelo espelho retrovisor e eu vejo minha carreira assim. Estou sempre buscando novos caminhos, meu ímpeto de compor, de fazer trabalhos novos é parecido com o começo de minha carreira. Essa chama acesa é que acho importante manter para a música continuar sobrevivendo dentro de mim, que é meu alimento, minha forma de expressão, minha atividade principal. Sou muito feliz e muito grato às energias positivas. Hoje, com 35 anos de carreira, pego um instrumento, o violão ou piano, e faço música, continuo em plena atividade e tenho que agradecer muito à vida.

Nesse mais recente CD, Bhanda, dá para perceber uma estética moderna, jovem, mas com seu estilo peculiar. Como foi essa nova experiência?
O álbum Bhanda foi uma experiência totalmente inusitada em minha vida, porque é um disco onde me relaciono com várias pessoas, em vários lugares. Tem uma banda chamada Radar Tantã, eu sou amigos dos caras e um dia resolvi experimentar uma música nova no estúdio deles, com eles tocando comigo. Eu gostei do resultado desse encontro e propus a eles que a gente pudesse tocar mais vezes, gravar mais músicas ao longo do ano, numa coisa mais relaxada, uma música por mês. Eu teria tempo de continuar minha turnê do álbum anterior - Um Dia e Meio - eles continuariam nas atividades profissionais deles, e uma vez por mês a gente se encontraria para fazer uma nova canção. Uma canção do Lô Borges com a intervenção e o sotaque da banda deles, que já existia. Esse encontro trouxe um sotaque mais vigoroso para o disco, as pessoas até falam que um disco meio rock, enfim, que para mim não é uma realidade distante porque eu era um garoto que amava os Beatles e Rolling Stones no começo da minha carreira (risos). Foi muito legal encontrar com essas pessoas novas e com elas fazer um trabalho que resultou no Cd Bhanda, que tem sido bem aceito. Gosto muito do que fiz, desse encontro feliz e essa felicidade está presente até no nome, porque bhanda em sânscrito significa felicidade, e pra mim foi encontro de felicidade com essas pessoas.

Mas as parcerias anteriores, principalmente o Márcio (Borges), que sempre foi seu parceiro mais constante, continuam dando certo?
Sim, o Márcio Borges sempre foi meu parceiro majoritário, o cara que sempre fez mais música comigo, desde que a gente começou a compor. Somos irmãos, morávamos na mesma casa e ao longo de nossa vida sempre tivemos essa facilidade de nos aproximar e de fazer música juntos. Teve um momento que ele mudou de belo Horizonte, eu me encontrava menos com ele e a gente produziu menos juntos, mas ter voltado para Belo Horizonte facilitou, e no álbum Bhanda ele é o meu parceiro majoritário, a metade das canções tem letra dele. Compor com ele é pra mim uma coisa muita tranqüila, muito prazerosa e muito entrosada, porque foi meu primeiro parceiro na verdade. A primeira canção que fiz na minha vida, quem fez a letra foi o Márcio Borges. E as mais recentes que tenho feito, até depois do Bhanda, porque continuo trabalhando, compondo, o Márcio continua muito presente em minha obra.

Quando foi que você descobriu que a música era o seu lance? Ou foi a música que o descobriu?
Na verdade houve um pequeno prenúncio disso quando eu, Beto Guedes, Yé Borges e o Márcio Aquino, com doze anos de idade, formamos um grupo que cantava músicas dos Beatles, no mesmo ano em que os Beatles tiveram lançamento mundial, que eles surgiram no Brasil. Foi uma beatlemania total na cabeça da gente e a gente tratou logo de fazer uma banda para cantar suas músicas. Nós nos apresentávamos em programas de auditório, de rádio e televisão, em clubes de Belo Horizonte e isso eu considero o primeiro esboço, minha entrada de tocar para público ver. Foi uma semiprofissionalização e naquele momento eu jamais poderia imaginar que iria me tornar uns compositores conhecidos, que fosse levar minha vida pelos caminhos da música, mas a música entrou bem cedo na vida, nessa época, nos anos 60. Eu não posso deixar de citar o Milton Nascimento, um grande incentivador meu, que começou a gravar minhas músicas. Ele já era um cara conhecido naquele momento, quando eu tinha dezessete anos de idade ele gravou três canções minhas no álbum dele, sendo uma parceria minha com ele – Para Lennon e McCartney, Alunar e Clube da Esquina 01. Logo depois, para surpresa minha, ele apareceu em minha casa, eu pensei que ele ia pedir mais uma música minha para gravar, foi surpreendente, ele me fez o convite para ir morar no Rio com ele, dividir um álbum com ele, que foi o Clube da Esquina. O Milton foi o cara que me impulsionou para o mundo discográfico. A música já existia dentro de mim, eu já era um adolescente compositor, mas não vislumbrava ainda uma carreira de discos, festivais da canção, não era muito sintonizado com isso ainda, e o Milton que me botou pra frente que falou assim “pô cara, vamos fazer uma coisa juntos, eu queria dividir um álbum com você”. Ele é um cara fundamental na minha vida.

Ouvindo você falar, e todos vocês que fizeram e ainda fazem parte do chamado Clube da Esquina, além da riqueza harmônica, que é a característica mais marcante do movimento, dá para perceber que a questão da amizade, do companheirismo também é muito marcante. Como você vê essa história?A amizade sempre foi um elemento super importante no nosso convívio. E naquele momento, no início das nossas carreiras, nós podíamos ser mais freqüentes, mais assíduos nos nossos encontros, porque todos nós éramos disponíveis uns para os outros, todos nós estávamos iniciando nossas vidas. Hoje nos encontramos muito menos do que eu gostaria, mas todos nós compreendendo que cada um tem sua trajetória, sua carreira, sua vida pessoal, sua família, seus amigos. Esses anos todos se passaram, a amizade persiste, perdura, mas nos encontramos bem menos do que as pessoas imaginam que a gente se encontre. O Clube da Esquina foi um momento importante da minha vida, eu me orgulho muito de ser um dos autores das músicas e do primeiro álbum, o Clube da Esquina, mas na verdade minha vida continua seguindo em frente. Eu fiz um show há quinze dias com Beto Guedes, na Praça da Liberdade; ano passado fiz alguns shows com Flávio Venturini; em 2005 fiz show em Paris com Milton Nascimento; encontrei com Toninho Horta e a gente fez show juntos; tem o projeto do Museu também. Então, de vez em quando a gente se encontra. São encontros menos assíduos, é verdade, mas sempre muito interessantes.

Por falar em Museu, o que acha dessa revitalização da memória do Clube da Esquina encabeçada pelo Márcio Borges?
O Museu é um projeto brilhante do Márcio, uma coisa visionária e importante para a história cultural do país, porque precisamos preservar o que foi feito. As pessoas ouvem falar do Clube da Esquina, mas às vezes tem uma imagem distorcida do que realmente foi. Esse serviço que o Marcinho está prestando à comunidade, de colocar num site bem elaborado a história do disco Clube da Esquina, o primeiro, passando pelos outros álbuns, por todos os personagens e seus próprios álbuns, isso mantém a memória viva. Por isso se chama Museu Vivo, e é muito bacana. As pessoas estão vivas, trabalhando, produzindo e têm o histórico delas registrado.

Com todas as mudanças que aconteceram nos últimos anos, como você acha que o público percebe o trabalho do Clube da Esquina hoje?

Muitas pessoas se tornaram conhecidas, e até famosas, pelo movimento Clube da Esquina. Aí eu acho que vai muito da música de cada um, o que cada um está fazendo. O público do Clube da Esquina vem se multiplicando a cada ano, de pai pra filho, de geração pra geração. E isso a gente percebe nos camarins, nos shows, principalmente em São Paulo que é o lugar onde mais trabalho, há uma presença muito grande de jovens que nem sonhavam em nascer quando fiz as canções Trem Azul, Girassol (Um Girassol da Cor de Seus Cabelos, parceria com Márcio Borges), minhas canções mais conhecidas. E esses jovens cantam as músicas, eu tenho fã-clube infantil, pessoas de 10-12 anos de idade. Eu fico muito feliz com isso e acho que os outros artistas do Clube da Esquina também têm esse feed-back. Não é uma presença maciça, mas nosso público foi muito bem “criado”, digamos assim. Eu sou parceiro do Samuel Rosa, do Skank e ele mesmo é um exemplo disso. O pai dele que era fã do Clube da Esquina e quando o Samuel ainda era adolescente ele lhe apresentou o disco Clube da Esquina e ele se apaixonou, e hoje o filho do Samuel gosta das minhas músicas, do Janela Lateral, e é essa coisa dinâmica, não pára.

Seu trabalho é muito consolidado, tanto que consegue absorver esses novos elementos, fazer parcerias com a nova geração de músicos sem perder o foco. Como você vê a música que está sendo produzida hoje por essa nova geração de um modo geral?
O Brasil é um país extremamente musical, de manifestações culturais de um modo geral, mas especificamente na música é um país muito rico, com muitas coisas interessantes acontecendo o tempo todo. Desde garoto percebo que o Brasil sempre produziu grandes compositores, grandes intérpretes, grandes cantoras, grandes compositoras e acho que continua assim, o problema é que a mídia capta muito pouco isso. A mídia é um universo muito grande com uma porta muito estreita. O que ela veicula são cartas marcadas, coisas que as pessoas às vezes estão até saturadas de ver tantas vezes na televisão, de ouvir no rádio, mas a mídia funciona assim mesmo. Eu que sou um cara viajante, viajo pelo Brasil inteiro, recebo Cds de várias pessoas, me orgulho muito de ser um músico brasileiro e vejo que a produção musical no Brasil é inesgotável e que não pára.

Montes Claros é berço de amigos e parceiros seus, e talvez uma das cidades mineiras que abriga o maior número de fãs, seus e do Clube da Esquina de um modo geral. O que está preparando para o show de quinta-feira?
No show de quinta-feira vou me apresentar com uma banda nova, que é o grupo com quem gravei o disco Bhanda, vamos tocar muitas canções da época do Clube da Esquina, coisas que as pessoas reconhecem e gostam de ouvir e algumas músicas inéditas, porque pra mim é superimportante poder experimentar junto com o público, e até para meu prazer pessoal também. Eu estou em trabalho constante de composição e gosto de tocar essas músicas para que as pessoas possam conhecer, avaliar, enfim. Então esse show é uma mistura das músicas mais conhecidas da minha carreira, das principais parcerias com Milton, Beto Guedes, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Toninho, Samuel Rosa e Nando Reis, muitas músicas que são parcerias antigas e novas. É um show com uma leitura mais forte, arranjos mais vigorosos, as pessoas têm dado um retorno legal, gostado do que têm escutado.

De tudo o que produziu o que acha que tem mais de você - ou é por igual? Com qual das suas músicas você se identifica mais?
Na verdade eu me sinto bem com minhas músicas de uma maneira indistinta. Tem momentos que estou mais pra Trem Azul, tem momentos que estou mais para a música que estou fazendo hoje, tem momentos que gosto mais de Girassol. Eu me sinto bem em conviver com minhas músicas, tenho carinho por todas elas e não poderia ser diferente. Continuo sendo uma pessoa que compõe com o maior amor, com o maior prazer, porque me relaciono muito bem com minhas músicas e não citarei nenhuma especial, porque na verdade não tem realmente nenhuma; especial é o conjunto de todas as músicas, é o dom que Deus nos dá, de estar diariamente voltado para o instrumento, para a criação de músicas, para a composição. Isso é para mim o mais importante.

Além da divulgação do Bhanda, você está com mais algum projeto encaminhado?
Estou com a divulgação do disco Bhanda e fazendo um novo disco de inéditas. Já tem nove canções gravadas e vai ser lançado em 2008. Minha produção de 2000 pra cá está bem exacerbada, tenho feito mais coisas do que fiz nos anos 90, por exemplo. É o terceiro disco que vou lançar no prazo de seis anos. Esse é um projeto que eu devo fazer integralmente em parceria com Márcio Borges. Estamos na fase de colocar as instrumentações. Então é assim, ora estou ora na estrada com a divulgação do disco Bhanda, ora fazendo o Museu Vivo com Márcio Borges, e quase sempre no estúdio gravando as canções inéditas.

Em meio a tantos projetos, tem algum que você tentou fazer e não conseguiu ou queria ter feito e ainda não tentou?
Não, eu faço meus projetos de acordo com a possibilidade deles serem realizados. Sou muito agradecido pelas coisas que têm acontecido na minha carreira e minha demanda eu quem crio. Todos os dias estou criando alguma história nova, algum projeto novo e nada que tenha ficado pra trás me traz frustração. Pode ser que alguma coisa ou outra que eu tenha tido vontade de fazer eu não fiz, mas isso não me trouxe frustração. O importante é você estar com a chama acesa pro presente.

Gostaria de deixar um recado para nossos leitores?
Queria dizer para todos de Moc que sou um cara, assim, apaixonado por essa cidade. Nos anos 70 eu ia demais a Montes Claros com Beto Guedes, onde fiz vários amigos. Eu adoro Montes Claros, adoro as pessoas, o astral das pessoas, a culinária. Sempre tive um bom relacionamento com Moc e para mim vai ser um prazer matar um pouco a saudade.

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