domingo, 5 de outubro de 2008

Maurício Tizumba

MAURÍCIO TIZUMBA: UM ARTISTA GENUINAMENTE BRASILEIRO
 
Criatividade, originalidade e muito suingue. Assim é a arte do músico, cantor, ator e compositor Maurício Tizumba, que leva ao mundo a mais autêntica produção cultural da aldeia afro-mineira e afro-brasileira.

 

POR JERÚSIA ARRUDA

Não é possível falar em cultura afro-brasileira sem incluir o músico, cantor, ator e compositor Maurício Tizumba, um dos mais populares e completos artistas brasileiros.
Com mais de trinta anos de carreira, dedicados em manter viva a cultura negra e na difusão dos ritmos de origem africana, Tizumba vem conquistando o público brasileiro e de outras terras, com um magnetismo e veia humorística singulares, além de uma capacidade técnica peculiar, que o tornam capaz de estabelecer uma sinergia com a platéia, instantaneamente.
Durante as Festas de Agosto, o músico esteve em Montes Claros, onde apresentou um show criativo e instigante, com um repertório marcado por ritmos afro-mineiros e releituras surpreendentes da música popular brasileira, misturando, com equilíbrio e talento, religiosidade, poesia e harmonia.
No show, Tizumba dividiu o palco com o grupo Tambolelê e a banda Tianastácia, com quem vem percorrendo o estado, trabalhando as muitas possibilidades da percussão e sua diversidade sonora, unindo a riqueza dos tambores e a criatividade sonora do pop rock mineiro, através do projeto Tim Tambores.
Em sua visita a Montes Claros, Maurício Tizumba conversou com exclusividade com a jornalista Jerusia Arruda, e falou sobre suas influências artísticas, sua relação com o público e suas experiências no exterior, a condição social do negro no Brasil e seus projetos para os próximos meses.


Você passeia pelas artes – cinema, teatro, música, dança – e transita muito bem entre elas. Na música, principalmente, você trabalha as origens com uma linguagem extremamente contemporânea, que fala a todas as gerações. Como desenvolveu isso?É um trabalho de resistência, que sempre fiz desde que me entendo por gente, onde tento mostrar onde vivi, como vivi, o que aprendi, com quem aprendi, como é bom, como faz bem ter essa cultura; e, ao mesmo tempo, um trabalho de sobrevivência, que me leva a ter essas facetas, esse trânsito na arte.

Numa visão mais conceitual, faz muito tempo que a percussão deixou de ser tocar tambor e se transformou em um instrumento que está presente em todos os estilos e linguagens musicais. Como você vê isso?
Praticamente usamos o tambor para tudo. Nasci com a cultura do tambor e, hoje, costumo dizer que temos que tocar tambor com o pé ligado nas raízes, mas com a cabeça na parabólica, no computador, porque o mundo está rodando muito depressa, as coisas estão indo tão rápido que as pessoas estão tendo que voltar às raízes. Através do tambor, estamos chegando em todas as culturas. O tambor é um instrumento que nasceu antes do violino, antes do piano; o tambor, talvez tenha dado origem ao piano, porque o piano também é um instrumento de percussão, e quando eu falo que o tambor está em todas essas manifestações, é mais uma necessidade de novidade. Está precisando de novidade? A novidade para a história hoje é o tambor.

Uma velha novidade.
É. E o mundo vai rodar, rodar, vão criar um outro tambor, o eletrônico, com pele de nylon, sintética, mas nunca será igual ao tambor com couro na madeira.

Você tem muito magnetismo e é naturalmente divertido. Isso já é inerente a você. Como é sua relação com o público?
Como o trabalho da gente não é global; por que eu digo isso? Porque o trabalho global nasceu para morrer, a pessoa constrói, usa um tempo e depois mata, porque tem que colocar outro no lugar. Meu trabalho não pode ser assim, porque é cultura afro, é a cultura da negritude e isso não pertence ao meio global. Às vezes a gente entra aqui, consegue furar um cerco ali, e quando meu trabalho chega às pessoas, se tenho a oportunidade de ter as pessoas próximas a mim, vou trabalhar bem, porque sei que estou ali para divertir as pessoas. Como a arte que a gente faz também tem a obrigação de ensinar, então eu procuro fazer um trabalho que chegue aos jovens, crianças e adultos com a mesma intensidade, com a mesma explicação, com objetivo de compartilhar conhecimento e usar a cultura para um bem comum. Para mim não tem coisa melhor do que ver as pessoas pularem de alegria, ver as pessoas cantarem, contar um caso e as pessoas rirem, contar outro caso e as pessoas chorarem. Fico feliz quando chego em uma praça, toco uma música que não está desgastada na mídia e agradar a meninada.

Você também vivencia essa experiência nos shows fora do Brasil?
Fora do Brasil a diferença é que não tem o entendimento da língua, mas, como a gente trabalha com essa música que independe da palavra, porque, muitas vezes, a palavra é que atrapalha, estando fora daqui, na Europa, nos Estados Unidos, você toca sua música, você canta. Cheguei a fazer um show nos Estados Unidos que não tinha nenhum instrumento para tocar, porque foi meio de improviso, e só usei os sons da boca, os sons vocais, para fazer uma performance de quinze minutos, e as pessoas gostam, curtem, porque percebem que tem algo mais, além da palavra, da música em si, na nossa forma de tocar e cantar. É uma música de camisa, com o pé no chão, não tão frenética como os tambores baianos, mas com uma consistência que a torna universal, e, quando a gente sai do país para tocar, percebe que nem tudo precisa tirar a camisa e balançar a bunda.

A sociedade, de alguma forma, tem se mobilizado para tentar minimizar os danos causados pelo preconceito, principalmente racial. Como você vê esse panorama no Brasil hoje, considerando, inclusive, a questão das cotas para negros?Eu vejo isso até com bastante tristeza, porque todo mundo fica cheio de dedos, medo. A questão das cotas, por exemplo, acho que já tinham que ter dado há muito, a cota tinha que ser maior, não tinham que ter medo de deixar o negro aprender, de ter cultura, de ter dinheiro, de ser feliz, de ter direito à saúde, saneamento básico, educação. Quando digo com tristeza é porque vejo muito mais conversa do que atitude. O processo é muito lento e essa é uma coisa para ser resolvida de forma rápida. As pessoas são muito medrosas e a vontade política é muito pequena. As leis aparecem, mas é tudo muito lento. Sabe aquela coisa de ahã, eu não vou ver isso, meu filho não vai isso, o filho da minha filha não vai ver isso. Então, tenho esperança, minha forma de trabalhar é completamente cheia de esperança, mas quando se trata das condições do povo negro no nosso Brasil, e, principalmente no nosso estado, que é mais racista ainda, o estado mais racista do país é Minas Gerais, não é que eu perca a esperança, mas eu preparo o espírito para uma coisa que vai ser lenta. Uma hora vai acontecer, até mesmo porque o negro tem que ter aquilo que lhe é de direito.





O que você está aprontado para os próximos meses?
Continuo com o Tim Tambores até o final do ano, estou com um projeto de oficinas e shows pelo estado, que ensina a fabricar e tocar tambores, e também vai até o fim do ano. Vamos passar por umas vinte cidades e em cada uma delas vou escolher um aluno, que vai tocar numa orquestra em Belo Horizonte, sob regência do maestro Wagner Tiso. Tem, ainda, o Festejo do Bom Menino, neste final de semana, em Belo Horizonte. Em novembro tem o Encontro dos 1000 Tambores, onde vamos fazer uma homenagem para Naná Vasconcelos. Em dezembro vou ensaiar um espetáculo infantil, com texto de Betinho chamado As Européias, com direção da Carla Camurati, e produção de minha companhia de teatro, chamada Burlantins. Tem o espetáculo com o Sérgio Pererê, do grupo Tambolelê, falando sobre capoeira, que ficou entre os dez melhores espetáculos do Rio de Janeiro no ano passado e foi indicado para três prêmios Shell e nesse ano vamos fazer mais uma temporada, fora meu espaço lá em Belo Horizonte, com shows e oficinas.

Com tanto projeto, sobra tempo para o Maurício pai?
Minha filha trabalha junto comigo e, praticamente, fico o tempo todo com ela. Como ela gosta da mesma música que eu gosto, faz a mesma coisa que faço, estamos o tempo todo juntos.

Quer deixar um recado para nossos leitores?
Montes Claros é, realmente, uma verdadeira princesa porque no Norte ela consegue nortear as pessoas. É claro que tem suas deficiências, mas consegue nortear as pessoas com relação a nossa cultura afro-mineira, e cada vez que venho aqui saio transformado, aprendo coisas novas. Tenho certeza que consigo transformar as pessoas também, sempre me considero eterno aprendiz, e vejo que é necessário continuar a encontrar as pessoas na rua, continuar trabalhando e falar de nossas coisas. Montes Claros, dentro do Norte, consegue ser esse grande elo, essa força de continuidade.

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