segunda-feira, 21 de março de 2011

Adeus a Konstantin Christoff

 Montes Claros perde um de seus cidadãos ilustres

Faleceu na tarde desta segunda-feira, aos 88 anos, o benemérito médico e artista plástico Konstantin Christoff. Internado há meses na Santa Casa, inconsciente, devido a um acidente vascular cerebral, a história de Dr. Konstantin, como era conhecido, se mistura com a da medicina de Montes Claros.

Cirurgião geral e, depois, cirurgião-plástico respeitado pelo trabalho inovador, competente e ousado para o seu tempo, ao lado dos médicos Haroldo Tourinho, Jason Teixeira, Luiz Quintino e Crisantino Borém, resumiam, na década de 1940, o quadro clínico da Santa Casa, principal hospital da cidade, onde também trabalhou ao lado de Irmã Beata.

Anos mais tarde, numa atitude ainda mais ousada, abandonou a medicina e dedicou-se exclusivamente à pintura, com exposições em vários estados. Como artista plástico, colheu os mesmos aplausos que o acompanharam no exercício da medicina.

Konstantin nasceu na Bulgária, em 1923, e ainda menino veio para M. Claros, acompanhado do pai e da mãe e de um irmão - o engenheiro Raio, falecido em acidente aéreo. Na mesma leva de imigrantes búlgaros, chegou ao Brasil o Pedro advogado, pai da atual presidente Dilma Roussef.

Konstantin é o último remanescente de uma turma de jovens que brilhou intensamente e fez o nome de Montes Claros ganhar o mundo, assim como Darcy Ribeiro, João Vale Maurício, entre outros.

4 comentários:

  1. Prezada Jerúsia,
    Envio-lhe mais um texto sobre Konstantin.
    Abraços

    Wanderlino

    KONSTANTIN E SAMUEL
    Wanderlino Arruda

    Leio o bonito e completo texto do meu amigo e irmão Samuel Figueira sobre o nosso amigo Konstantin Christoff, que acabou nos deixando pela força dos 88 anos de vida, e me lembro perfeitamente da primeira exposição de pintura do Samuca, no prédio da Rua Justino Câmara com Padre Teixeira, e da apresentação que fiz, com palavras que soam até hoje na minha consciência, como se aquele julgamento fosse eterno. Afinal, era a história de um menino genial, que, adulto, se tornava mais genial ainda. Abaixo, um pouco do que escrevi sobre o artista, a sua vida e a sua arte:
    Um dia o garoto toma coragem, veste a sua melhor roupinha, põe na cara o melhor dos sorrisos, e corre pressuroso em busca do elogio e do incentivo do já famoso futuro colega Konstantin Christoff. Leva o mais trabalhado dos quadros, aquele mais acadêmico, mais certinho, de pinceladas bem cuidadosas. Pede a opinião e baixa a vista, modesto, temendo, antecipadamente, as palavras de louvor. Mas tudo sai ao contrário, Konstantin, jovem e fogoso, não sabe mascarar a verdade. Não gostando, diz sinceramente ao menino que não gostou. Faz mais: mando-o ir embora, esquecer o entusiasmo, jogar fora os pincéis e as tintas e tentar fazer outra coisa mais condizente coma sua vocação, que, de natural, pelo que via, não seria a de pintor. O menino revolta-se, fica com o espírito em brasa, assustado, coça a cabeça e, em princípio, resolve aceitar o conselho, a sugestão por mais terrível que ela seja. Chateado, chateadíssimo, sai e volta para casa. Triste e meditativo, raciocina melhor e conclui que está diante de um grande desafio, o que até pode ter sido o desejo de Konstantin. Analisa o passado, entrevê o futuro, e toma uma decisão: nem Konstantin nem ninguém pode ou vai sufocar o seu destino, sua vontade de ser artista. Se com aquelas palavras Konstantin estava mesmo é querendo despertá-lo, desafiá-lo, provocá-lo, ele iria ver, iria conhecer a sua reação de menino-homem, um grito de luta em busca de novo mérito. E quem sabe, até de elogios!
    O que fez então o menino? Voltou a sua energia em direção ao próprio Konstantin, crítico ou conselheiro, produzindo, de súbito, a sua primeira e revolucionária composição moderna, uma mescla de variações geométricas e instrumentais, em cores robustas e enérgicas, pinceladas marcantes. Para compor o rosto, desenhou uma chave inglesa, representando todo o conjunto facial; para traduzir o cachimbo, enfiou-lhe um machado bem tosco na boca. Resultado: uma figura chocante, mas de grande efeito. O crítico Konstantin gostou. Gostou tanto, que o aconselhou agora a buscar de novo, e com muito amor, os velhos pincéis baratos. E que o garoto partisse para a realização de novas e muitas tentativas. Procurasse ser menos Godofredo e muito mais Samuel.
    Data daí a nova fase da vida do artista Samuel. Pouca produção, muito cuidado, mais procura de melhor qualidade. Ideias sobre ideias. Formas sobre formas, transparências e coloridos novos. Entusiasmo comedido, decidida concentração, firmeza no ideal. Sem favor nenhum, pode-se considerar, em face do tempo, que Samuel Figueira, também meu mestre e crítico, é e será sempre um excepcional desenhista e pintor, artista de primeiríssima linha. Graças à inteligência, força de vontade e talento, dos melhores da história de Montes Claros. Sempre ele agradeceu isso ao amigo e colega Konstantin Christoff. Eu também!

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  2. Caro Aroldo Pereira,

    Peço-lhe receber e compartilhar com os protagonistas da vida cultural da querida Montes Claros - dos poetas do Psiu aos festeiros de Agosto, dos violeiros ao povo do Banzé, dos alunos do Conservatório aos artistas plásticos, dos artesãos aos professores da Unimontes, todos os que tanto enriquecem a metrópole norte-mineira com o vigor de sua criatividade, a expressão do pesar da nossa Ouro Preto e o meu sentimento profundo de solidariedade pela perda do grande Konstantin Christoff.
    Com talento e domínio do metier, sagacidade e humor, Konstantin criou o universo pictórico no qual, como personagem onipresente, rege a recriação do mundo, resgatando-o da anarquia do cotidiano para a alegria da transcendência. Esse legado garante sua presença sem fim na paisagem cultural de Montes Claros e da cultura brasileira.

    Abraço fraterno do Angelo Oswaldo

    Angelo Oswaldo de Araújo Santos
    Prefeito de Ouro Preto

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  3. KONSTA

    “Não perguntes por quem os sinos
    dobram. Eles dobram por ti.”

    John Donne

    “Quão breve tempo é a mais longa vida”, lamuriara Fernando Pessoa em poema disperso. É nessa brevidade que todos se compreendem. Do berço ao ataúde, vai-se calcando no coração tantos outros breves viventes, como se aquele órgão fosse, além de motor da vida, um baú em que se guardam os tesouros encontrados ao acaso do caminho.

    Em suma, pode-se dizer que somos apenas isso: pouco de cerne – de nós próprios – e muito de circunstâncias – dos que casualmente encontramos no correr da vida, no entrelaçar incessante das tramas do destino. Cada pessoa carinhosamente guardada em nosso baú, mesmo que não queiramos, torna-se parte visceral de nossa existência, animação de nossa história e tempero de nossa felicidade. Perder quaisquer delas é amputar dolorosamente um pedaço de nós mesmos.

    Assim, hoje ouço os sinos dobrarem por mim. Dobram lamuriantes pelo amigo e mestre que parte em definitivo. Peça das mais preciosas que compunha o meu tesouro existencial. Grata referência de minhas primeiras investidas na arte pictórica, ainda criança. Da concepção e organização da feira de artes, em minha juventude. Das recorrências assistenciais quando a saúde exigiu a mão benfazeja do grande cirurgião, nas ocasionais enfermidades. Das contendas nas assembleias da Irmandade da Santa Casa, no calor das divergências, ao embranquecer de meus cabelos.

    Konstantin Christoff, em seus breves oitenta e oito anos de vida, não foi apenas influência e incentivo a um jovem artista. Foi um dos principais personagens da história de Montes Claros. Brilhante como médico. Brilhante como pintor, cartunista e escultor. Brilhante como cidadão combativo, firme, verdadeiro e caridoso.

    Enquanto detinha suas faculdades de comunicação escrita e verbal, declarava-se desprovido de fé religiosa. Mas ninguém explorou com tanto vigor a busca de Deus como o fizera em seus quadros temáticos. Quem teve a oportunidade de contemplar sua magnífica Via Crúcis sabe bem dessa ansiedade do artista em busca de Deus. Talvez tenha sido por isso que Ele o fez calar-se em vida, por meio de um acidente vascular, para oportunizar-lhe uma conversa íntima e longa no mais profundo de seu coração, sem a interferência da exterioridade circunstancial. (Deus cuida de suas ovelhas com grande zelo, mais ainda quando as desgarradas do rebanho emitem seu clamor aflito pelo reencontro). Assim, a fé poderia ser-lhe desperta longe do constrangimento da profanação mundana. Ninguém saberá o que se passou em seus últimos anos de silenciosa existência. Sequer terá outorga para essa invasão ao íntimo a sua madrinha de tardio batismo, a bondosa Irmã Verlle, dona de excelsa espiritualidade cristã.

    Hoje os sinos dobram chorosos, pelo descanso do bisturi, da trincha e do cinzel. Pelo cessar do humor refinado, da deliciosa crítica dos auto-retratos prestada aos vícios da humanidade. Pelo quedar da mão do traço mágico, personalíssimo e inimitável. Pelo repousar das cores vivas e alegres, ao cerrarem-se as pálpebras do mestre para o sono derradeiro.

    Cria asas e voa, meu prezado Konsta, ganha a liberdade infinita que Deus concede aos anjos e aos artistas. Vá ao encontro de Andrey e, como ele, vá sondar o brilho de outros sóis da morada eterna do Universo, levando consigo a gratidão dos amigos, dos conterrâneos de adoção, dos colegas de arte e de medicina, dos pacientes e, sobretudo, dos companheiros beneméritos de sua sempre amada Santa Casa.

    Acolhemos sua herança. Sua breve longa vida permanece nas páginas dos livros para levá-lo à posteridade. Sua arte continuará na beleza de seus quadros e na força de sua escultura. Seu amor arde no seio de sua querida família. Sua presença de inquieta e vibrante inteligência ainda questionará, por muitos anos, na memória dos que tiveram a grata satisfação de conviver com você.

    Até breve!

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  4. Parabens querida, uma otima referência beijos. Amelina

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