domingo, 5 de outubro de 2008

Dagmá Brandão Silva

PARTICIPAÇÃO E AUTONOMIA: OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO

Em entrevista exclusiva à jornalista Jerúsia Arruda, a secretária municipal de Educação, Dagmá Brandão Silva fala sobre o panorama da educação nas escolas municipais de Montes Claros e projetos para diminuir as desigualdades e melhorar a aprendizagem

 


POR JERÚSIA ARRUDA

A educação no Brasil vive um momento em que os baixos índices de aprendizagem dos alunos e as diferenças regionais de desempenho escolar tornam axial a discussão sobre as possibilidades pedagógicas frente aos desafios vivenciados nas redes de ensino.

Em entrevista exclusiva, a secretária municipal de Educação de Montes Claros, Dagmá Brandão Silva fala sobre o panorama atual da rede municipal de ensino e os projetos para vencer os desafios vividos pelo setor, considerando as perspectivas administrativa e pedagógica.


Graduada em Pedagogia e pós-graduada em Metodologia do Ensino Superior, Dagmá foi servidora pública como professora de ensino fundamental, diretora da Escola Municipal Professor Hilton Rocha, em Belo Horizonte, e atuou em diversas esferas de gestão educacional na capital mineira, o que lhe confere experiência e maturidade para assumir a secretaria de educação de um dos maiores municípios mineiros, cujas escolas vivenciam um momento crítico, com 80% dos alunos em nível insatisfatório de aprendizagem.


Na entrevista a pedagoga fala da necessidade de compreender o que realmente é aprendizagem e os fatores conjunturais que a ela podem ser associados, o redimensionamento do papel das escolas e redes de ensino, e o que pode ser feito para que os alunos aprendam mais e melhor.


Você sempre trabalhou na educação?
Eu não gostaria ser outra coisa. Têm muitas pessoas da área da educação que dizem que, se pudessem, teriam outra profissão, mas eu sou da educação, é minha paixão e é isso que me completa. Nasci em Lontra e me mudei logo cedo para Montes Claros, me formei pela Unimontes e comecei trabalhando na secretaria municipal de Educação onde permaneci por seis anos. Primeiro como supervisora da zona rural, depois na coordenação pedagógica da secretaria. Também fui diretora das escolas municipais Afonso Salgado e Jason Caetano. Depois fui para Belo Horizonte e trabalhei na rede municipal de ensino de lá. Acho que é um pouco da característica de cada um, sempre fiquei em trabalho de gestão escolar. Logo que cheguei a Belo Horizonte fui eleita para a direção da escola municipal Vila Pinho, em uma muito complicada, que tem uma característica sócio-ambiental de muita vulnerabilidade, de muito risco. Depois fui chamada para ser gerente pedagógica da regional Barreiro, uma das maiores regionais de Belo Horizonte, com 27 escolas grandes. Logo depois fui para a direção da escola municipal professor Hilton Rocha, onde permaneci por cinco anos. Depois fui convidada para a direção do CAPE – Centro de Aperfeiçoamento de Profissionais da Educação da rede municipal de Belo Horizonte. Durante essa minha trajetória na educação pude vivenciar vários trabalhos, ora coordenando uma escola, ora uma comunidade, ora na gerência de uma região, tendo também passado pela experiência da sala de aula, porque em Montes Claros trabalhei como professora do curso de magistério e em Belo Horizonte, no ensino fundamental. Fiquei 17 anos em Belo Horizonte e voltei a Montes Claros para assumir a secretaria municipal de Educação.

Então você está bem à vontade nesse cargo?É. Essa experiência dá uma identidade muito grande porque falo de um lugar que conheço. O fato de ter vivenciado vários espaços na educação, da sala de aula a pensar a educação de uma cidade como Belo Horizonte, porque como diretora do CAPE eu estava à frente do trabalho de formação da cidade inteira, isso me deu essa experiência para saber de fato que terreno é esse, que é de grande desafio.

Qual é situação da educação no município hoje?Montes Claros não está diferente do Brasil, quiçá do mundo. Vivemos hoje um momento de mudança, um momento crítico, mas também muito fecundo, um território que muita coisa pode brotar, florescer. Se o mundo muda, a escola precisa mudar, os professores precisam mudar. E a gente vive hoje uma nova sociedade, nesse novo milênio nós temos desde as novas tecnologias, a informática, à cultura do que é muito imediato, as coisas visuais simbólicas. Então trabalhamos com um novo contexto e a sociedade testa a educação. E a escola não está desvencilhada, separada do contexto do mundo. Há muita violência no mundo? Há muita violência na escola. Há uma exacerbação da sexualidade? Há também na escola. Todo esse contexto que vivemos no mundo, vivemos também na escola e lidar com isso é novo. Lidar com a juventude precoce, que aos 14 anos já tem uma experiência que antes só se tinha aos 18. A gente lida com alunos que são líderes da gang, do tráfico...

.... da família...
É, então que referência que ele tem na escola? Ele não vai mais chegar, ouvir o professor caladinho, dizer o que pensa. E esse tempo de mudança está aqui também.

A secretaria está se adequando para enfrentar essa realidade?
Encontrei a secretaria num contexto de que muito precisa ser feito para formar os professores para lidar com esse novo quadro, para atuar de maneira que consiga mudar a realidade da educação. Nas últimas avaliações que a rede passou, que foi a Prova Brasil, realizada pelo ministério da Educação no ano passado em todas as escolas do país, Montes Claros não teve um desempenho interessante, mas que revela que precisamos trabalhar muito. Nossos alunos tiveram em torno de 47% de acerto, menos da metade. Depois passamos pela avaliação censitária feita pelo estado com alunos de 8 anos de idade, e tivemos um resultado muito crítico. O Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha tiveram os piores resultados do estado e isso dá uma preocupação, apesar de saber que não é um privilégio de Montes Claros, que inclusive teve destaques em relação a outros estados. Nós estamos com faixa de 80% dos alunos que não apresentam resultado satisfatório, 60% deles operando no nível da frase, quando deveriam estar no nível do texto, e 19% no nível da palavra, quando muito. A escola socializa, é espaço de encontro, de organização das comunidades, tudo isso é real e a gente tem que tratar. Mas ela é por excelência espaço de conhecimento, sendo assim tudo que se faz, tem que visar que na sala de aula o aluno aprenda. Estamos com uma série de programas e propostas para dar conta desse resultado.

Como é o investimento na educação em relação às outras pastas?
A Educação tem o segundo maior orçamento do município, com 25% . Primeiro é a Saúde. Hoje, junto com o Fundeb, que amplia um pouco nossos recursos, isso representa um montante em torno de 60 milhões para o ano de 2007. É um bom orçamento, só temos que ter um plano de seja coerente para investi-lo da maneira certa.

Esse plano já foi delineado?
Já delineamos e temos quatro áreas de investimento. Primeiro na formação e aprendizagem, com um programa de valorização e profissionalização da docência que envolve plano de carreira; organizar a rede como sistema, que não está organizada ainda; planejar o Conselho Municipal de Educação que existe, mas está um pouco parado; uma série de investimentos para dar conta dessa frente de formar os professores.

Tem algo de concreto já programado dentro desse plano?
Na área da alfabetização, que é nosso grande desafio, estamos com dois convênios. Um com o Ceale – Centro de Estudos em Alfabetização e Letramento da UFMG, um Centro de excelência, talvez o melhor do Brasil, onde vamos promover a preparação dos professores para o exercício em sala de aula. Nós tivemos cinco dias inteiros durante o I Congresso da rede municipal de educação, que aconteceu no mês de fevereiro e termos ainda neste ano, mais nove dias de preparação dos professores, para lidar com a alfabetização. O outro convênio é com a universidade estadual de Montes Claros, para monitorar mensalmente os resultados dos nossos alunos na alfabetização. Os acadêmicos do curso de Pedagogia da Unimontes vão aplicar um teste, tanto de leitura quanto de escrita e, assim, será possível intervir imediatamente, ao invés de esperar que isso aconteça com uma avaliação externa uma vez por ano, como vem acontecendo. Ao mesmo tempo em que monitoramos e avaliamos o aluno, o professor é preparado para fazer a intervenção. Esse é o programa em que estamos apostando para reverter esse quadro na área da alfabetização.

E para os outros níveis?
Estamos implantando os ciclos Infanto-Juvenil e da Juventude, onde será avaliada a forma como o jovem aprende e qual o currículo pertinente, de forma a acessar essa juventude e criar, através dessa avaliação, uma escola nova, não mais aquele modelo de disciplinas isoladas, fragmentadas, dos meninos um atrás do outro, sempre sentados. Queremos promover a experiência pelo fazer, e que seja múltiplo. Tem um aluno que tem grande dificuldade de produzir um texto, mas que compõe um rap maravilhosamente bem; um menino que tem muita dificuldade com matemática, mas que toca tambor muito bem, tem ritmo. Então essa linguagem precisa ser absorvida pela escola, que tem se abrir para essa discussão e valorizar essas habilidades para formar conhecimento. Estamos pensando um currículo próprio para esses ciclos.

Dentro desse plano existe algum projeto de criação de cursos profissionalizantes?
Para esse ano não, mas seria interessante. Inclusive essa é uma proposta do governo federal de criar o ensino profissionalizante nesse segundo mandato, mas isso requer uma mudança de postura, de investimento, porque até então a preocupação foi preparar o aluno para prestar o vestibular. Eu sei que a assistência social tem um programa voltado para o trabalhador, mas na educação, nesse ano, temos como foco a alfabetização, o programa 100% de Alfabetização, para cuidar da base, dessa experiência primeira. Uma outra meta é a educação integral que cuida um pouco desse novo universo que falamos. Nesse programa a educação acontece parte na escola e outra parte dentro da comunidade, e o aluno participa em tempo integral de atividades pensadas não só na área do conhecimento, mas nas artes, cultura, esporte, tudo ligado à formação, ao conhecimento.

Pela grade curricular dá para perceber que a escola se preocupa muito mais com a formação de conhecimento do que de habilidades.
Pois é. Agora tem um acordo firmado que o seguinte: o Município fica com o ensino fundamental e o Estado com o ensino médio. Então, o trato com as profissões, o ensino profissionalizante é mais um desafio para o Estado. O grande desafio do Município é formar esse aluno no início da sua vida, que a educação infantil, que hoje é de 0 a 14 anos.

Por que o aluno do ensino fundamental não está aprendendo a ler e escrever, menos ainda a ler e compreender?
Não podemos generalizar, mas a porcentagem de alunos com dificuldades é grande. Muitas vezes o aluno aprende o código lingüístico, mas não dá conta de ler um texto científico, jornalístico, ele não avança nessa discussão da língua. Acho que é porque a demanda da educação é maior do que se tinha antes. Hoje a educação não pode ser mais focada só em ensinar a ler e escrever. Exige que se trabalhem múltiplas linguagens, e é nesse momento de transição que a escola precisa rever seu papel, estabelecer a função que ela tem que é de produzir conhecimento. Ela precisa ser mais, abarcar outras áreas que antes não eram dela.

Porque a escola particular, que tem menos recursos por causa da inadimplência, forma melhor o aluno que a escola pública?Porque a escola pública acolhe a todos, indistintamente. Eu posso ilustrar com uma pesquisa feita pelo GAME - Grupo de Avaliação em Medidas Educacionais da UFMG, que mediu que escola agrega mais valores aos alunos e, curiosamente, surpreendeu, com a escola pública apresentando melhores resultados. Um outro diferencial é o público da escola particular e da pública. O aluno da escola particular chega “pronto” e os pais pagam achando que a escola é quem está de fato formando. Se a escola pública tivesse esse público, com certeza conseguiria avançar mais. A escola pública hoje é o que tem que ser: aberta a todos, indistintamente. E como ela inclui a todos, tem um exercício que nem sempre dá resultado homogêneo. Mas temos visto que a escola pública aprova muito no vestibular e não é revelado, e por isso, às vezes fica parecendo que só a escola particular que aprova.

Com o projeto de inclusão social agora todas as escolas recebem crianças com necessidades especiais, que compartilham o mesmo espaço com as outras crianças. Como a escola municipal está se adaptando a essa nova realidade?Em Montes Claros nós temos quase 300 alunos com necessidades especiais nas escolas regulares e estamos num momento de transição em relação às escolas especiais, que continuam dando apoio a esses alunos, mesmo depois que eles passam pela inclusão. Em Montes Claros são três escolas especiais – Vovó Clarice, Abdias Dias de Souza e Fernão Capelo Gaivota – que fazem o serviço itinerante, que é ir à escola onde o aluno está estudando, verificar se sua inclusão está dando certo e dar suporte, inclusive clínico. Além disso, temos na Secretaria um núcleo de inclusão que acompanha essas crianças, verifica onde elas estão, quais são as dificuldades, e há uma tendência desse trabalho se ampliar. Eu venho de uma experiência em Belo Horizonte que não tem mais entrada para aluno em escola especial.

E o que vai acontecer com essas escolas especiais e com os profissionais que estão lotados para atuar nelas?Aqui em Montes Claros elas continuam com os casos que necessitam da permanência na escola especial, e também estão passando por um momento de transição para que possam dar apoio ao trabalho das escolas regulares.

E deu para manter todo o pessoal?
Sim, todo mundo.

Qual o custo de um aluno para o município hoje?
Um valor estimado em R$ 1650 ao ano.

O I Congresso foi uma jornada extensa e teve uma participação bem expressiva. Que avaliação você faz dos resultados?
O objetivo do Congresso foi preparar os professores para o exercício da profissão e, também, criar um movimento que possa motivar, dar pulsão para a educação no município. E isso se cumpriu bem. Nós tivemos uma semana de discussão dentro das várias áreas e temáticas, oficinas, atividades práticas, teatro, dança, música, ciência, literatura afro, e isso cria um ânimo novo, um desejo novo de realizar, de produzir. O que queríamos era potenciar os saberes e, também, os fazeres, criar essa liga do professor com o fazer diário, da sala de aula, com seus alunos, de dar conta de estar inspirado e formado para aquela realidade. O professor precisa alimentar um pouco a alma para dar conta de segurar esse desafio.

Como é o salário do professor de Montes Claros em relação a outros municípios, outras regiões?
É um salário médio. Nós não temos o melhor salário do Brasil, mas de longe não é o pior. Claro que o professor reclama, que gostaria de ter um salário melhor, e dentro dessa política de valorização nós tem essa preocupação. Ano passado, em dezembro, eles tiveram um aumento que variou de 7% a 15%. Quem recebia menos teve um aumento maior. No final do ano também rateamos os resíduo do Fundef – esse ano Fundeb – e isso também é uma forma de valorizar seu trabalho.

Em relação ao Fundo, o que muda na prática com essa transformação de Fundef para Fundeb?Antes o Fundo era só para o ensino fundamental e agora financia todos os alunos da educação básica, incluindo educação infantil, ensino médio e EJA. Isso amplia os recursos, mas não quer dizer que todo município vai receber mais a partir de agora. Tem município, inclusive, que perde porque vai ter que dividir o mesmo recurso, que era para o ensino fundamental, com toda a escola básica. Outros municípios ganham e Montes Claros, que já fazia um atendimento grande na área de educação infantil, é um deles, e recebe um pouco mais.

Qual é a margem de aumento?
Não sei por porcentagem, mas para o ano de 2007 o valor será de 2 milhões de reais. Isso não quer dizer que é mais dinheiro, nós só estamos, de fato, financiando a educação infantil, que antes era financiada pelo próprio município.

Como será aplicado esse recurso?
O recurso vem para a educação e será aplicado da mesma forma que se aplicava o Fundef, ou seja, 60% para pagamento de pessoal - e não se pode tirar um centavo disso - e 40% para todo o restante de financiamento da educação, ou seja, construção, reforma, equipamento, material e formação de professores.

Como é feita hoje a escolha dos diretores das escolas municipais?
Hoje tem sido indicação, mas ano passado foi aprovada uma lei na câmara municipal e a partir desse ano será por eleição.

Quem pode votar nessa eleição?
Pais, alunos, professores e funcionários da escola. É voto universal.

Quem pode se candidatar?
Primeiro os candidatos passam por uma prova e os que forem aprovados podem participar da eleição. O diretor eleito permanece no cargo por dois anos.

Quando será a primeira eleição?Nós estamos preparando, porque que tem que licitar. Ainda não temos a data prevista, mas sabemos que vai acontecer nesse ano.

Como você está encarando o desafio de estar à frente da secretaria municipal de Educação?
Eu gosto muito de desafios e para mim tem sido uma oportunidade de aprender, de vivenciar uma atividade nova, de retorno para minha cidade. Tem sido um bom aprendizado.

Por ser sua cidade o desafio é maior ou, ao contrário, ameniza um pouco?
Eu me sinto em casa. Estou me sentindo à vontade, fui muito bem recebida, acolhida pela categoria, talvez pela própria identidade. Comecei aqui, fui e sou uma colega do grupo e tenho percebido que o fato de ser daqui e pertencer à educação tem me ajudado muito.

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