quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Diego de Macedo Fróes

DIEGO MACEDO:
"Muito embora o panorama esteja mudando, o estudante ainda não é um protagonista das ações sociais na universidade"



POR JERÚSIA ARRUDA

 

No dia 14 de novembro, o DCE – Diretório Central dos Estudantes da Unimontes realizou o processo eleitoral para eleger a diretoria para gestão 2008. A chapa foi vencedora foi A hora é agora!, representada pelo acadêmico do curso de Administração, Diego de Macedo Fróes, que foi eleito presidente.

Aos 21 anos e com um relevante histórico de militância política estudantil, à frente de instituições como DEMC – Diretório dos Estudantes de Montes Claros e CA - Centro Acadêmico do curso de Administração da Unimontes, e participante de movimentos da UBES – União Brasileira dos Estudantes e da UCMG – União Colegial de Minas Gerais, Diego Macedo diz ter se candidatado à presidência do DCE/Unimontes para tentar por em prática, na universidade, algumas coisas que outros não tiveram capacidade e iniciativa para fazer.


Se preparando para assumir a cadeira no primeiro dia letivo de 2008, para uma gestão de 12 meses, Diego fala com exclusividade à jornalista Jerúsia Arruda sobre suas expectativas como líder de uma instituição que representa cerca de 10 mil alunos; sobre o envolvimento do estudante com as questões políticas e sociais e sobre a responsabilidade social que o cidadão deve assumir ao se ingressar na academia.

Como tem sido seu envolvimento com o movimento a estudantil?
Iniciei o interesse pelo movimento estudantil, bem novo, aos 15 anos. Na época, junto com alguns colegas e amigos, formamos o grêmio estudantil do Colégio Promove de Montes Claros, do qual fui o primeiro presidente. Em 2003, participei ativamente do movimento de reconstrução do DEMC – Diretório dos Estudantes de Montes Claros e fizemos um grande trabalho político em diversas escolas. Fui convidado a fazer parte de uma chapa que disputou o pleito do DEMC, como segundo tesoureiro, nesta época, já tinha 17 anos, e cursava o segundo ano do Ensino Médio. Nossa chapa foi eleita, mas os trabalhos propostos foram esquecidos e a maioria da diretoria não teve comprometimento. Tive a oportunidade de participar do congresso estadual da UBES – União Brasileira dos Estudantes, onde fui convidado a fazer parte da diretoria da UCMG – União Colegial de Minas Gerais. Sou muito frustrado com o movimento estudantil secundarista, que é controlado por diversos interesses particulares e partidários. Abandonei todo o movimento por não concordar com diversas práticas, e me dediquei aos estudos. Fui aprovado no primeiro vestibular que tentei, em dezembro de 2004, para curso de Administração da Unimontes. No final de 2005, iniciei um estágio de seis meses na empresa Minaspuma. Ainda em 2005, fui eleito presidente para a gestão de 2006 do CA – Centro Acadêmico do curso de Administração, que representa os estudantes do curso. Foi uma excelente experiência. No final de 2006, inscrevemos uma chapa para concorrer às eleições do DCE, da qual era candidato a presidente; mas éramos um grupo novo na política estudantil da universidade. Em março deste ano, iniciei um estágio no PROE, o programa de estágios da ACI – Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Montes Claros, onde realizei recrutamento e seleção de diversos estudantes para as vagas de estágios em empresas, na maioria das vezes a primeira oportunidade profissional dos mesmos. Ainda neste ano, em conjunto com amigos, organizamos um movimento chamado Moc + Jovem, que, a cada dia, desperta na juventude da cidade o desejo de ser protagonista das mudanças na sociedade.

É a segunda vez que se candidata à presidência do DCE. Porque quer representar o diretório?
Depois das eleições do ano passado, pensei em me dedicar somente aos estudos e à carreira profissional, mas vários estudantes me procuraram durante o ano, me incentivando a candidatar novamente; estava em dúvida, mas a paixão pelo trabalho social falou mais alto. A partir daí, decidimos reorganizar o grupo e disputar o pleito. Como diz um professor da Unimontes, muito embora pergunte-nos o porquê de alguma coisa devemos sempre pensar no pra que. Me candidatei para tentar por em prática, na universidade, algumas coisas que outros não tiveram capacidade e iniciativa para fazer. Fui eleito.

Você considera esse seu interesse pelo trabalho junto ao DCE um cumprimento da responsabilidade social?Além de ser um exercício de cidadania, tem um caráter retribuitivo, pois, liderando uma instituição que representa cerca de 10 mil alunos, tenho a capacidade de desenvolver bons trabalhos para sociedade, de forma que eu possa devolver a ela o privilégio que me deu de estudar.

Por falar em responsabilidade social, o que o acadêmico pode fazer para cumprir seu papel social e como o DCE pode contribuir para que isso aconteça?
O acadêmico tem muita vontade de contribuir com a comunidade, mas a maior dificuldade é que maioria não sabe como e quando contribuir. O jovem hoje é muito insatisfeito e desacreditado. É necessário criar um ambiente onde a juventude possa discutir seu papel na sociedade e como deve agir. Não existem receitas. Precisamos reorganizar os estudantes, o DCE precisa identificar as lideranças e proporcionar espaço para se desenvolver as discussões. A maioria dos estudantes não sabe quem é o líder de turma da sala ao lado e, ainda pior, algumas salas de aulas que nem têm representação. Muitos não sabem a importância disso, mas se fizermos uma análise das condições de vida que levamos, da violência a que estamos sujeitos, entre outros problemas, estaremos dando um grande avanço para cumprir nosso papel social.

Historicamente, no Brasil, o estudante sempre teve uma participação expressiva na política, mas, nos últimos anos, o movimento estudantil se arrefeceu. Por que acha que isso aconteceu?

Acredito que o movimento estudantil perdeu o foco. Não temos mais um “inimigo comum” como, por exemplo, a ditadura. Assim sendo, cedeu-se lugar a disputas internas dentro do movimento. E com a abertura política pós-ditadura, os partidos de “esquerda” utilizaram o movimento estudantil como forma de defender suas bandeiras partidárias. Neste contexto os estudantes ficaram sem espaço para discussões da comunidade onde estudam, para apenas discutir teorias de estado socialista e problemas da globalização.

Uma das suas metas como presidente do DCE é incentivar os acadêmicos a se interessar pelo movimento estudantil. Como pretende fazer isso?
Temos que provocar o pensamento crítico de nossos colegas. Devemos discutir a situação dos estudantes que moram em repúblicas, longe da família, que pagam aluguel ou moram de favor. Estudantes que passam apertos financeiros, muitas vezes até para se alimentar, não têm tempo de chegar em casa e preparar um almoço, têm de comer uma marmita ou um PF. Questões como o transporte público, pois muitos estudantes cruzam a cidade de bicicleta para fazer um curso superior, e tem casos que o veículo é roubado enquanto ele está na sala de aula. Tem estudante que trabalha de forma exagerada durante o dia para sobreviver e não sobra tempo para usufruir a universidade, por exemplo, realizar uma pesquisa, participar de um projeto de extensão. Outras atividades fundamentais para a formação de um cidadão que, por falta de tempo e recursos financeiros, são deixadas de lado, como a prática de esporte e a participação em eventos culturais e de lazer. Somente despertando o estudante para o que o aflige diariamente, vamos conseguir fazê-lo se interessar.

Como a instituição (Unimontes) tem contribuído para que o trabalho do DCE se torne mais efetivo. O que pode ser feito para que essa contribuição se torne mais significativa?A Unimontes passa por muitas dificuldades, e recorre a várias iniciativas da Fadenor para manter suas atividades. Os professores da instituição têm diversas dificuldades e sempre são priorizados antes dos estudantes, até porque eles são mais organizados e são eles que dirigem os departamentos da universidade. O que realmente falta é um DCE mais ativo, que apóie os professores na luta pela melhoria da qualidade da universidade pública e que realmente defenda os interesses dos estudantes, muitas vezes contrários aos interesses dos professores da instituição.

Como vê a questão do cumprimento da responsabilidade social pelas instituições de ensino superior?
A responsabilidade social nas instituições de ensino está diretamente ligada às atividades de extensão. E uma primeira conclusão que podemos tirar dessas atividades diz respeito à importância e à relevância da universidade para a nossa região. As instituições de ensino, cada vez mais, começam a se preocupar com o social e não é para menos; para que a região desenvolva, precisamos desenvolver nosso povo. Além do mais, os programas de extensão ajudam na formação do acadêmico e o contextualizam no cenário social.

Um dos compromissos que o cidadão assume ao freqüentar a academia é o de contribuir para uma melhor qualidade de vida da comunidade onde vive – o fato de se qualificar para prestar bons serviços é uma forma de cumprir esse compromisso, mas pode-se ir muito além, doar-se mais. Você acha que isso tem acontecido na prática?Infelizmente essa não é a tônica aqui no Norte de Minas. Isso talvez pela mentalidade coronelista e acomodamento da classe estudantil. Estamos sendo educados pelos nossos pais a somente nos preocupar em estudar muito e ter bom emprego. E a maioria dos pais se esquece de valorizar os bons relacionamentos e a participação social. Muito embora o panorama esteja mudando, o estudante ainda não é um protagonista das ações sociais na universidade. E, o estímulo a essas ações deve partir inclusive do movimento estudantil, como conscientizador acadêmico. A maioria dos nossos colegas preocupa-se em só aprender e se esquece de que pode fazer muito mais.

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