terça-feira, 31 de março de 2009

Cauê Alves

Além dos limites da linguagem

Jerúsia Arruda

Para se chegar às exposições, um longo caminho foi percorrido. Conversei, via Internet, com o curador da exposição "Entre a Xilo e o Múltiplo: Clube de Colecionadores de Gravuras do MAM", Cauê Alves, que conta um pouco mais sobre a preparação da mostra. Cauê também fala sobre as especificidades da gravura e como esta vem se contextualizando com as novas formas de comunicação, e sobre os conceitos da arte contemporânea nos dias atuais. Confira.

Os artistas participantes das mostras vêm de diferentes regiões. O que têm em comum na obra que produzem?
Sim, eles são de diferentes regiões. Todos eles participaram do Clube de Gravura do MAM. As obras são de propriedade do Museu de Arte Moderna de São Paulo

A xilogravura nos faz viajar no tempo e espaço, pelos elementos contemporâneos e tradicionais que a compõem. Como a curadoria trabalha para que as pessoas que visitam a exposição possam compreender a intensidade dessa arte?
A curadoria tem como objetivo ampliar a noção de gravura mais arraigada no público a partir da xilogravura até a noção de múltiplo. A mostra apresenta diversas gravuras, com as mais variadas técnicas e artistas. A idéia é que as pessoas possam perceber que a gravura é algo presente em nosso cotidiano.
Percorrendo a exposição, o público poderá acompanhar as diferentes orientações adotadas pela curadoria do MAM ao longo de sua história. Se inicialmente apenas participaram das edições do Clube artistas que possuíam um sólido trabalho como gravadores, aos poucos, principalmente a partir da década de 1990, os convites foram direcionados também àqueles que faziam uso prioritariamente de outros meios, como a pintura ou a escultura. Interessado em acertar o passo com as discussões da cena contemporânea, que questionava a própria definição de gravura, o MAM, assumindo o papel de laboratório e lugar de experimentação, deu total liberdade para artistas de uma nova geração desenvolverem trabalhos que superassem os limites da linguagem. Durante esse processo foi surgindo uma noção mais híbrida e alargada de gravura, que tende no limite para o múltiplo. Desse modo, o MAM tem estimulado uma produção em que o privilégio foi dado menos para questões técnicas do que para a discussão sobre os sentidos que as obras possam adquirir.

Qual é o resultado da mistura Cariri e MAM?
Agora estamos lançando a gravura do Efrain Almeida que é resultado de uma parceria feita pelo artista com vários gravadores da região do Cariri. Em março, o Nilo (gravura foto) veio a São Paulo desenvolver seu trabalho. Trata-se de uma rica experiência de intercâmbio entre realidades distintas. Acho que essa troca foi muito positiva para mostrar que tradições tão diferentes, como a da gravura do Cariri e a arte contemporânea dialogam tão bem.

Esse projeto terá continuidade?
Estamos estudando possibilidades para dar continuidade para essa parceria.

Vivemos um tempo de comunicação em tempo real. Tudo acontece em velocidade máxima e é quase sempre inconstante. Como a gravura se insere neste contexto?
Há muitas gravuras na exposição que lidam com essa noção de gravura a partir de uma realidade contemporânea. O trabalho de Antonio Dias, por exemplo, é feito num suporte que se parece com placas de computador. O espaço coringa pensa a gravura como meio de difusão de práticas coletivas e de autoria difusa, além de uma tiragem enorme. Ou seja, cada trabalho possui um modo de inserção no mundo contemporâneo.

O conceito de arte nordestina normalmente é relacionado à arte popular. De um modo geral, é possível dissociar a arte popular da erudita, nos dias atuais?
É exatamente isso que estamos discutindo, a dificuldade de dizer que essa separação entre popular e erudito seja tão clara. Trabalhos como o do Efrain Almeida e do Marepe nos mostram como essas fronteiras estão borradas.
Tradições de origem moderna, popular e erudita estão direta ou indiretamente presentes na arte contemporânea. Como a própria história nos mostra, classificações estanques ou definições fechadas do que seja ou não arte contemporânea talvez não tenha mais correspondência com a realidade.

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