domingo, 25 de janeiro de 2009

Conceição Melo


A lógica e as transformações da arte moderna na obra da artista norte-mineira

 
POR JERÚSIA ARRUDA

Impossível não se render à reflexão diante da arte de Conceição Melo. Na coletânea com o tema Santos Sacrifícios, a artista plástica lança mão da religião para pintar santos católicos, numa versão contemporânea, usando a lógica e a energia das transformações da arte moderna, sem abrir mão de recursos velhos conhecidos, como o arabesco, para nutrir o debate entre tradição e modernidade, com uma linguagem que alcança todos os públicos.

Naturalista por vocação e inspiração, a artista plástica também realizou, recentemente, a mostra individual Janelas para o Verde. Com estilo bem definido, mas experimentando novas técnicas e linguagens, sempre com temas aliados à natureza e ao homem, Conceição Melo diz dar vida aos seus insight, o que resulta em uma produção temática com forma e ritmo próprios.

Em Janelas para o Verde, detalhes sutis da natureza abrem espaço através das telas, que são mesmo como janelas, singelas e simples, mas que intrigam, instigam, desafiam e provocam, num equilíbrio de formas, desejos e sentidos.

Depois de pintar o grito do rio São Francisco que agoniza, o apelo dos índios sem nação, e a esperança do povo pela fé, num momento em que o planeta se aquece e agoniza, na individual, a artista faz um apelo pela preservação do que a todos pertence: o meio ambiente e a beleza natural do verde, ao mesmo tempo que imprime a expressão de seu mundo interior, testemunho da inquietude de uma alma feliz.

Apesar de dizer que lugar de quadro é na galeria e achar que expor em barzinho e em restaurante não dá certo e pode banalizar o trabalho, por falta de espaço apropriado disponível, a artista promoveu a exposição no Restaurante Favoritto, com curadoria de Ivana Tupinambá.

Em um bate-papo descontraído com a jornalista Jerúsia Arruda, Conceição Melo que, com seu jeito meigo e uma simplicidade típica daqueles que estão voltando quando muitos ainda estão indo, fala de suas experiências com as artes plásticas, seu namoro com a literatura e dificuldades para se manter no mercado de trabalho. 

Porque santos sacrifícios?
A falta de esperança, o povo está sofrendo tanto. O mesmo grito do rio São Francisco, o mesmo apelo dos índios, agora o apelo do povo, pela fé. O lado espiritual é o que mais grita hoje em dia. Há uma desesperança e o único consolo que as pessoas têm é a fé.

Você sempre alia sua obra a elementos naturais e, ao mesmo tempo, a sentimentos humanos?
É uma preocupação com o meio ambiente, mas o lado humano fala bem alto. Eu sempre pintei muitas flores e acho que elas levam à paz espiritual.

Apesar de a temática ser próxima da usada em seus últimos trabalhos, dá perceber que houve uma mudança.
A técnica e temática estão diferentes. Mas eu acho que o artista tem que buscar novas tendências, tem que estar atualizado, antenado com o mundo.

Você sentiu alguma dificuldade nesse processo?
Não, a mudança fluiu naturalmente, de dentro pra fora, chegou explodindo. A arte tem isso. Tanto que essa exposição estava marcada para agosto, mas eu produzi tão rápido que resolvi antecipar.

Porque escolheu a religião como tema?
Não escolhi, acho que fui escolhida.

Tem algum envolvimento pessoal, relembra alguma fase de sua vida?
Sou uma pessoa de muita fé e a cada dia venço uma barreira, supero os sacrifícios diários. Santos sacrifícios. A vida da gente é uma eterna luta. Essa inspiração veio no momento certo, me deu muita paz e estou tentando passar isso para as pessoas. É uma função de minha arte. A maioria das pessoas que fazem aula de pintura comigo não vem só aprender a pintar, vem fazer arte como terapia.

Quem são seus alunos?
Crianças, com quem trabalho a cultura visual, despertando a sensibilidade e a criatividade, estimulando um novo olhar para as coisas do dia-a-dia. Às vezes a gente passa durante anos pela mesma rua e nem percebe o que mudou nela. Então tento chamar atenção para isso. Já com os adultos é um trabalho mais terapêutico. Muitos chegam achando que não têm nenhum talento, só estão a fim de pintar para distrair e de repente descobrem que podem ir além.

Como você se definiria tecnicamente, em que estilo você se enquadraria?
Acho que já defini meu estilo, mas estou sempre mudando de técnica. Nas três exposições que fiz, em todas fui fiel às cores. Quem viu duas ou três obras minhas consegue identificar meu traço. Acho que definir estilo é isso, marcar sua pincelada. Você olhar para uma peça e saber de quem é. Em relação à técnica, estou sempre inovando. Nas exposições anteriores trabalhei só com tinta acrílica. Nessa, trabalhei uma técnica mista. Joguei aguada, acrílica, tom xadrez, folha de ouro para dar a sensação de madeira envelhecida, arabesco para lembrar o barro, sempre de forma mais contemporânea.

As artes plásticas não são acessíveis ao grande público. Como é morar em Montes Claros, longe dos grandes centros, em relação ao mercado de trabalho?
Não só nas artes plásticas, mas na música, no teatro, é preciso que a gente crie o próprio espaço, não ficar esperando ajuda. Eu por exemplo tive dificuldade para realizar essa exposição, mas fui atrás até conseguir. E a resposta do público aqui é boa, as pessoas gostam de arte. É um trabalho mais caro, mas sempre alguém compra alguma coisa. Modestamente se vive de arte aqui sim.

Já fez exposição em outras cidades?
Já fiz exposição em Brasília, em Belo Horizonte, sempre em galerias.

E como é a aceitação?
Nada é fácil. A gente não consegue nada de um dia pro outro. Eu tenho 20 anos de carreira, são 20 anos de história, e eu estou sempre buscando espaço, divulgando, batalhando e hoje para mim o saldo é positivo, mas não foi nada fácil não.

Como é o espaço para divulgação do seu trabalho em Montes Claros?
O Centro Cultural é espaço para tudo e todos e por isso está sempre de agenda lotada, é preciso reservar com um ano de antecedência e você não sabe se daqui a um ano a exposição estará pronta. É preciso improvisar. Essa coisa de expor em barzinho, em restaurante, não dá certo. Lugar de quadro é na galeria. Você vai a um restaurante para comer. É preciso valorizar o trabalho e para isso tem que ter espaço. Não se pode banalizar.

Tem recebido apoio de alguém?
Tem a lei de incentivo à cultura, mas nunca tentei. Normalmente faço minhas exposições sem patrocínio, vendo uma ou duas telas antes e banco a exposição. Não é fácil não.

Como surgiu a idéia de aliar a literatura à pintura, para dar vida aos livros?
É uma temática leve, sempre mexendo com o lado afetivo das pessoas. É um trabalho lúdico, com frases curtas, mas profundas. Quando eu falo alimente seu amor com amor, pare e olhe nos olhos, elogie, ouça com carinho, são coisas que se perderam no dia-a-dia. As pessoas correm tanto que não têm tempo de ouvir às outras, de mandar um bilhetinho. O livro Pare e... Fala exatamente disso. Já o Uma visita à Bienal foi uma experiência que tive na Bienal de São Paulo do ano passado. Conto como foi esta exposição para falar sobre arte contemporânea. As pessoas têm dificuldade em falar de arte, dizem que não entendem. Não é verdade, todo mundo entende. É o que emociona que faz a pessoa gostar. Por isso escrevi esse livro. Fui à Bienal, que é o maior evento de arte contemporânea no Brasil e, de uma forma simples, falo que não é preciso ser intelectual para entender a arte, tem que atingir a nossa emoção. Você pode estudar, mas é preciso ter sensibilidade e não colocar a arte como uma coisa distante, quando na verdade ela está no nosso dia-a-dia. A arte faz o coração bater mais leve, nos torna suaves. O livro quer passar isso.

Tem algum projeto que você sonhou, tentou colocar em prática e não conseguiu?
Estou tentando publicar o livro Uma visita à Bienal. Enviei para um agente literário no Rio de Janeiro e estou aguardando.

Que recado você deixa para nossos leitores?
Que convivam mais com a arte, que tentem pintar, todo mundo pode. Trabalhar com a arte suaviza a vida. Quem não gosta de pintar, dance, cante, mas deixe a arte fazer parte de sua vida.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Wagner Black

OPERÁRIO DO ROCKCom mais de 25 anos de carreira e se preparando para gravar o segundo CD, o músico, cantor e compositor Wagner Black fala de suas andanças, suas inspirações da energia vital que vem da música e das dificuldades e falta de apoio para o artista norte-mineiro

 



POR JERÚSIA ARRUDA

Uma iniciativa corajosa: cantar rock no sertão norte-mineiro. Esse é o trabalho – talvez seja melhor dizer a missão - de Wagner Black, que diz que a música tem o código certo para dar sentido e fazer as coisas acontecerem em sua vida.


Com olhos pequenos e fundos, que denotam inteligência aguçada – apesar de começar a entrevista fazendo menção a Charles Chaplin: o que sei é uma gota; o que não sei, um oceano – e uma certa melancolia, Roberto Wagner Pereira, 43 anos, diz que foi iniciado na música pelos sons da natureza: o burburinho da água, o canto dos pássaros, o barulho dos bichos.


- Tive uma infância tipicamente sertaneja: pobre, simples, mas feliz. Mas sempre fui ligado a movimentos que envolvem a música. Mesmo vivendo no interior mineiro, na adolescência já conhecia o som que vinha do outro lado do oceano: Jimmi Hendrix, Janis Joplin, Beatles, Rolling Stones, e também tinha paixão pela música nordestina, como Banda de Pau e Corda, Amelinha, Geraldo Azevedo e tantos outros. Naquela época, a música era o sonho de 10 entre 10 adolescentes – relembra o músico, que aos 22 anos compôs sua primeira canção, movido por uma profunda dor de cotovelo.


- Comecei cantando música regional, mas o rock acabou tomando conta das minhas idéias. Desde a primeira vez que cantei, adotei o estilo que até hoje é a base do meu repertório. A primeira música que compus já tinha toda a formatação de rock na construção harmônica e melódica e a mesma irreverência na letra. Nunca consegui compor em outro estilo – diz o cantor, cuja composição tem como tônica o humor e uma certa rebeldia.


Apesar de ter moldado sua música nos palcos, Black diz buscar na teoria uma base para sedimentar seu som.


- Estudo violão clássico, canto lírico e percepção musical no conservatório estadual de música Lorenzo Fernandez e a apreensão da técnica tem facilitado meu desempenho como compositor, já que passei a conhecer melhor as linhas harmônicas, e também como cantor, por me ajudar a conhecer e explorar melhor minha capacidade vocal. É muito bom quando se tem a oportunidade de aliar a experiência prática à teoria – explica o cantor, que já está há mais de 25 anos na trilha da música.


O som sarcástico e corrosivo, aliado a uma performance hardcore e adrenalina que quase dá choque, faz de Wagner Black um símbolo da música underground produzida na região. Acompanhado de Charles (bateria), Bida (baixo) Neguin e Djalma (guitarras), o músico gravou seu primeiro CD (Mister Wagner Black) em 2002, com oito faixas, sete delas autorais, e é figurinha carimbada nos eventos de garagem em Montes Claros.


- Apesar de levar a sério, manter uma rotina de ensaios e ter sempre uma novidade para o público, falta espaço para mostrar nosso trabalho. Tem muita gente produzindo eventos, organizando shows, mas nunca tem verba para o artista da cidade, que canta rock. É interessante como sempre ouvimos o discurso de promoters de que é preciso resgatar o rock´n roll na região, que tem muita gente produzindo boa música por aí, mas na hora de contratar, não tem cachê; aliás, não tem nem água mineral para nos servir no palco. Então ficamos num impasse: ou nos sujeitamos, ou ficamos de fora. É vergonhoso e ultrajante – desabafa Black, que diz que mesmo tendo escolhido um som difícil para a cultura da região, as pessoas lotam os shows, cujos convites nem sempre são baratos, e mesmo assim, os contratantes dizem que não têm lucro e que estão dando uma oportunidade para que possam mostrar seu trabalho.


Apesar das dificuldades o cantor se prepara para entrar em estúdio no próximo mês de março para gravar o próximo Cd.


- Serão 11 faixas autorais e vamos tentar fazer uma gravação bem produzida para que possa chegar às rádios com menos dificuldade. Abaixo de Deus, o músico da região só pode contar com sorte, pistolão e grana para conseguir espaço. Como só temos sorte, vamos investir na qualidade do trabalho e contar com ela para abrir caminhos - lamenta o músico e diz que apesar de parecer levar uma vida de excessos, o único deles é o de ouvir o próximo pedindo socorro.


Irreverente, mas com humildade e fidalguia lapidadas pelas agruras e prazeres da arte, o pai de Gabriel (6) e Roberta (5), diz que enquanto não consegue ganhar dinheiro com sua música, vai vivendo de uma outra paixão; a leitura.


- Sou viciado em leitura e desde 1978 mantenho uma loja de venda e troca de livros. É uma forma de partilhar essa minha paixão com as pessoas, oferecendo não só conhecimento, mas também o sonho, o lúdico, que só a literatura é capaz de proporcionar. Juntando a isso, é também a forma que encontrei de sustentar minha família – completa.


Sobre sua música, Black diz ser um deleite e um fetiche para si a para os que dela se nutrem.
- A música, em todas suas vertentes, suaviza a vida e embala sonhos, por isso convido aos promotores de evento, à administração pública e a todas as pessoas para conhecer de perto o trabalho dos músicos da cidade e que abram os olhos e ouvidos para perceber o valor e a verdade que tem em cada um deles – desafia.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Reforma Ortográfica - Novas Regras

O que muda com a reforma da língua portuguesa

As novas regras da língua portuguesa já estão vigorando. As mudanças incluem fim do trema e mudam entre 0,5% e 2% do vocabulário brasileiro. Confira algumas mudanças.

HÍFEN
Não se usará mais:

1. quando o segundo elemento começa com s ou r, devendo estas consoantes ser duplicadas, como em "antirreligioso", "antissemita", "contrarregra", "infrassom". Exceção: será mantido o hífen quando os prefixos terminam com r -ou seja, "hiper-", "inter-" e "super-"- como em "hiper-requintado", "inter-resistente" e "super-revista"
2. quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente. Exemplos: "extraescolar", "aeroespacial", "autoestrada"

TREMA

Deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados.

ACENTO DIFERENCIAL
Não se usará mais para diferenciar:
1. "pára" (flexão do verbo parar) de "para" (preposição)
2. "péla" (flexão do verbo pelar) de "pela" (combinação da preposição com o artigo)
3. "pólo" (substantivo) de "polo" (combinação antiga e popular de "por" e "lo")
4. "pélo" (flexão do verbo pelar), "pêlo" (substantivo) e "pelo" (combinação da preposição com o artigo)
5. "pêra" (substantivo - fruta), "péra" (substantivo arcaico - pedra) e "pera" (preposição arcaica)
ALFABETO
Passará a ter 26 letras, ao incorporar as letras "k", "w" e "y"

ACENTO CIRCUNFLEXO
Não se usará mais:
1. nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus derivados. A grafia correta será "creem", "deem", "leem" e "veem"
2. em palavras terminados em hiato "oo", como "enjôo" ou "vôo" -que se tornam "enjoo" e "voo"

ACENTO AGUDO
Não se usará mais:
1. nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia"
2. nas palavras paroxítonas, com "i" e "u" tônicos, quando precedidos de ditongo. Exemplos: "feiúra" e "baiúca" passam a ser grafadas "feiura" e "baiuca"
3. nas formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com "u" tônico precedido de "g" ou "q" e seguido de "e" ou "i". Com isso, algumas poucas formas de verbos, como averigúe (averiguar), apazigúe (apaziguar) e argúem (arg(ü/u)ir), passam a ser grafadas averigue, apazigue, arguem

GRAFIA
No português lusitano: desaparecerão o "c" e o "p" de palavras em que essas letras não são pronunciadas, como "acção", "acto", "adopção", "óptimo" -que se tornam "ação", "ato", "adoção" e "ótimo".