domingo, 12 de outubro de 2008

Petrônio Braz

EM BUSCA DA IDENTIDADE PERDIDA
Numa narrativa densa, instigante e universal o escritor Petrônio Braz reconta a saga de Antônio Dó, revelando sua verdadeira personalidade




Desafio. Essa é a palavra que melhor define o cotidiano do mineiro de São Francisco Petrônio Braz, cuja vida sempre foi pautada por provocações do destino desde a adolescência. Dono de firme determinação e sempre em busca do novo - ou do renovo-, Braz, com sabedoria, simplicidade e peculiar elegância, diz que se não venceu um desafio, também não foi vencido por nenhum deles, pois nunca se furtou à luta.

Presidente da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco (Aclecia), advogado, escritor, professor, assessor e consultor jurídico com vasta experiência no convívio teórico e prático com a administração pública municipal, Petrônio Braz ocupou todos os cargos eletivos em sua cidade natal – tendo sido o único juiz de paz eletivo no município –, unindo a experiência de mais de quarenta anos no meio político e administrativo, desde quando foi vereador e, depois, prefeito de São Francisco, ao aprendizado no mundo do direito, após bacharelar-se em Brasília/DF. Politicamente, como ele mesmo diz, chegou onde pretendia.

Jurista experiente, presta consultoria a agentes públicos administrativos municipais e também a professores de Direito Administrativo direcionado ao campo específico do município.

Autor de oito livros, cinco deles de literatura jurídica, e agora lançando o romance Serrano de Pilão Arcado, A Saga de Antônio Dó, resultado de 23 anos de estudo sobre a saga de Antônio Dó, dos costumes, linguajar, crendices, indumentárias e modos do sertão baiano-mineiro, além de um dicionário do vocabulário típico da região sanfranciscana.
Em entrevista exclusiva à Jornalista Jerusia Arruda, Petrônio Braz abre o coração e fala sobre seu trabalho como agrimensor, jurista, professor e escritor, suas andanças pela região onde Antônio Dó viveu, e como foi desafiado a tornar pública sua história e os verdadeiros motivos que o levaram a se rebelar.

Com emoção, o escritor relembra o natal de 2006 ao lado dos 12 filhos e esposa, frutos de dois casamentos, e da alegria de poder compartilhar suas experiências em uma obra que considera seu maior desafio e, também, sua maior realização.



Fale um pouco sobre sua formação acadêmica
Nos tempos em que meu pai pagou meus estudos fiz o curso médio de agronomia, em Viçosa/MG, porque ele queria que tomasse conta da fazenda, apesar de saber que seu sonho era que eu fosse advogado. Mas ele me enveredou muito cedo pela política e fiquei durante um bom período atuando como técnico agrimensor e fui diretor da estação experimental de agricultura de São Francisco, embora sempre atuando mais na área política. Depois me transferi para Brasília, onde estudei Direito, que era o que sempre desejei. Entrei para a faculdade aos 48 anos, estudando, inclusive, junto filho, e a partir daí passei a atuar efetivamente como advogado. Com a Constituição de 1988, que abria aos municípios a possibilidade de criação das leis orgânicas próprias, parti para o aperfeiçoamento na área de direito público municipal e assessoria a municípios.



Como começou a escrever?
Minha primeira obra foi Jandaia em Tempo de Seca, escrito nos idos de 78/79, mas por incrível que pareça não foi na época bem recebido pela minha família, aliás, pela minha primeira esposa, por causa dos termos mais realistas, que ela chegou a classificar como imoral. Foi preciso que tivesse uma segunda edição, onde Manoel Higyno fez um comentário classificando o livro como um ponto de partida da literatura do Vale do São Francisco.


Para um agrimensor e advogado, no Jandaia dá para perceber que sua veia poética já é bem latente.
Em parte sim. Eu já havia publicado um pequeno livro de poesia pelas edições Caravelas, do Rio Grande do Sul.



Como aflorou essa veia poética?
Acho que nasceu pela vontade de fazer, de escrever.

Sei que ficou durante anos coletando dados sobre Antônio Dó. Isso foi curiosidade, ou realmente com a intenção de escrever um livro?Eu te afirmo que não foi para fazer um livro. Quando foi lançado o filme Antônio Dó, em 1979, eu assisti em Brasília e saí decepcionado porque o filme mostra um bandido sem mostrar o homem, não tem autenticidade, não se cuidou nem de verificar os personagens. Mostra uma situação apenas vinculada ao nome Antônio Dó, sem conhecer a história Antônio Dó. Eles fundamentaram apenas o lado da polícia, o bandido sendo perseguido pela polícia. E o Antônio Dó era para nós um mito desde a juventude em São Francisco. Ouvíamos conversas e sabíamos que ele tinha sido perseguido, conhecíamos em parte os motivos, mas era muito vago. Meu pai também escreveu sobre Antônio Dó (São Francisco nos caminhos da história – Brasiliano Braz), mas ele viu o lado da sua influência na política de São Francisco, na mudança de comportamento dos chefes políticos da época. Depois que vi o filme, achei que era preciso ir além. Todo mundo só via o lado objetivo: Antônio Dó foi um bandido, invadiu a cidade, provocou a morte de um oficial de polícia. Mas em termos subjetivos, porque esse homem foi levado a fazer isso se ele era um fazendeiro próspero para a época? Teria tido ou não razão para as ações dele? Ninguém falou. E foi assim que comecei minha pesquisa.

Como coletou os dados?
Fui anotando das informações orais, tive ajuda do centro de estudos avançados da USP, onde tinha alguma coisa publicada sobre Antônio Dó e fiz pesquisa em jornais da época, em Belo Horizonte.

Em que momento passou a considerar a possibilidade de transformar essa pesquisa em livro?
Foi uma coincidência. Eu estava no fórum em São Francisco e o escrivão me falou que o juiz havia mandado separar uns processos que estavam jogados numa salinha, sem catalogar. Ele disse que entre eles havia um processo de Antônio Dó e resolvi verificar. Nem Saulo Martins, nem Guimarães Rosa, nem Brasiliano Braz, que escreveram sobre Antônio Dó, tiveram acesso a esses papéis. Não tiveram nem conhecimento deles, embora meu pai tivesse vivido na mesma época de Antônio Dó. O escrivão disse que se quisesse poderia levar, pois iriam ser queimados por ordem do juiz. Da análise desse processo juntei com o que já havia pesquisado e consegui comprovar realmente de onde partiu toda perseguição contra Dó. Esse processo existe, só eu tive acesso a ele, e no dia que tiver um arquivo público em São Francisco vou entregá-lo para fazer parte do acervo histórico da cidade. Por sorte João Botelho também conseguiu salvar todos os outros processos antes que fossem incinerados. Não sei o que deu na cabeça desse juiz de mandar queimar esses processos antigos. Um total desrespeito à história do município. A partir daí comecei a pensar em escrever o livro como um desafio de contar a verdadeira história de Antônio Dó.

Seria possível fazer um paralelo entre a história de Antônio Dó e a de Lampião?
Acho que Lampião foi um produto do meio na época. O Nordeste era uma região onde realmente existia uma disputa muito grande entre os usineiros, proprietários rurais, coronéis e a população como um todo. Não acredito que exista nenhum ponto comum entre os dois, a não ser a irresignação com a perseguição.

Como foi que Antônio Dó se rebelou?
Antônio Dó não tirou nada de ninguém. É verdade que no final da vida ele foi um pouco bandido, mas a princípio não. Ele só queria receber de volta o que havia perdido por perseguição política. Ao contrário de Lampião, ele não saía com um bando invadindo propriedades, roubando, matando. Para se defender da polícia ele procurava um lugar para se estabilizar, tanto é que ficou mais de ano como garimpeiro em Arinos. Depois, quando retornou a São Francisco foi com um bando de jagunços para se garantir contra qualquer perseguição. Mas era tido como “procurado”. Então se estabeleceu no distrito de Brejo da Passagem, hoje distrito de Serra das Araras, no município de Chapada Gaúcha, como uma espécie de mandatário, dono da região.

Os moradores o respeitavam?
Respeitavam. Ele fazia divisões, partilhas, casamentos, separações, dividia bens. Durante uns dez a quinze anos ele mandou naquela região sem ser perseguido pela polícia. Em razão de uma partilha de bens de um inventário que tinha ficado todo com a viúva de um morador da região, ele redividiu, dando a metade para ela e a outra para os filhos. O fato foi levado à justiça em São Francisco que, considerando que ele não tinha autoridade para fazer essa divisão, prendeu as pessoas beneficiadas. Dó então resolveu soltar essas pessoas. Foi sua última odisséia. Ele passou pela Ponte dos Ciganos, hoje São João da Ponte, para conseguir mais jagunços, e entrou em São Francisco pela última vez. Adão Oliveira da Rocha impediu que ele fizesse o ataque a São Francisco.

Como foi que ele morreu?
Um oficial de justiça foi enviado para fazer a intimação e a prisão dele, mas não chegou a fazê-lo porque tinha sido morto antes por Chico Nenê, de Brasília de Minas.

Por que ele foi morto?
Na década de 20 começaram a ser feitas as divisões de terra na região de São João da Ponte. O agrimensor estava lá fazendo a divisão e o padre Gangana, que por sinal era de São Francisco, pediu a Antônio Dó para que o afastasse de lá. O agrimensor era irmão de Chico Nenê, que era político em Brasília de Minas e também levou seus jagunços para o local. Mesmo assim Antônio Dó afastou o agrimensor, mas Chico Nenê infiltrou dois jagunços dele no grupo de Dó que, um ano depois, aproveitando a situação de conflito com a justiça, o mataram.

Nos textos de apresentação dá para fazer uma leitura de comparação e até de continuidade da obra de Graciliano Ramos e Euclides da Cunha.
Seria um encaixe.

Foi intencional?
Não foi. Guimarães Rosa deu conhecimento à nação brasileira do grande sertão. Aliás, a expressão grande sertão é criação dele.

Inclusive o Antônio Dó é personagem de seu livro (Grande Sertão:Veredas).
Sim, esporádica, sem profundidade, mas está lá. Acredito que características e peripécias de outros personagens do livro tenham sido inspiradas nas conversas sobre os feitos de Antônio Dó.

Além de um desafio superado, Serrano de Pilão Arcado poderia significar uma realização?
Totalmente, eu o tenho como a realização cultural de minha vida.

Foi seu maior desafio até então?
Com toda certeza. Eu te afirmo, eu tenho oito livros escritos. Esse pra mim vale mais do que todos oito juntos.

A história de Antônio Dó se identifica com o cotidiano do sertanejo mineiro-baiano?
Como é hoje?
O nível de compreensão da leitura e apreensão de conteúdos pelo estudante brasileiro está abaixo da média proposta pela Unesco e o Ministério da Educação propõe incluir na escola básica o ensino da Filosofia e da Sociologia, de forma a melhorar esse quadro.É importante, também, reduzir algumas disciplinas para que o aluno tenha tempo suficiente para acompanhar o processo, para que realmente dê resultados. Eu discordo plenamente, por exemplo, com a retirada do latim do currículo porque, mesmo sendo uma língua morta, foi o latim que deu origem à maioria das línguas faladas hoje e, além do mais, traz a objetividade do raciocínio. Não dá para fazer análise lógica ou morfológica sem conhecimento do fundamento da palavra. A questão da leitura é hábito, a criança tem que ser estimulada para que, com o tempo, se familiarize e possa melhor compreender. Têm pessoas, e não são poucas, que terminam o terceiro grau sem saber ler, se falarmos em compreensão. No exame de ordem do ano passado, apenas 6,3% dos bacharéis em Direito conseguiram passar. Quer dizer, falta preparo cultural. As faculdades não estão se preocupando com a formação do profissional, mas com a quantidade de alunos que forma ou que nela ingressam anualmente. A leitura é feita porque vai cair na prova, no vestibular, e não pelo prazer de ler. Então eu pergunto: essa correria, essa massificação do ensino está valendo a pena?

O livro então é um desafio vencido?Reconheço que é um desafio vencido e é com certo orgulho que passo as mãos na capa dele.
O que tem seu nesta obra?Qual livro que não tem muito de seu autor? Talvez o Padre Alkimim seja um Petrônio, o professor seja um Petrônio. É impossível separar o autor dos seus personagens...

... O criador da criatura...É, não há como separar realmente. O que pensa homem de conhecimento um pouco mais evoluído, de certa forma, é o que pensa Petrônio Braz. Agora, o que pensa o homem simples é o que Petrônio Braz aprendeu com ele.
O livro ainda não foi lançado oficialmente?Não, ainda está embalado. Será lançado nesta semana.

Tem algum projeto de transformá-lo em roteiro de filme?Tive umas conversas com Teo Azevedo e depois com Jackson Antunes sobre o assunto, mas ainda não tem nenhuma proposta certa. Depois outro grupo me pediu um exemplar e eu enviei. Vamos ver o que vai acontecer.

Qual foi seu maior aprendizado na produção desse livro?Respeito à pessoa humana. A história de Antônio Dó é um exemplo para que não possa nem deva prosperar qualquer perseguição, seja ela de que natureza for.

Hoje é diferente. O povo adquiriu consciência. O que existia antes era subordinação, aceitação do poder. O povo não sentia autoridade porque ele não criava autoridade. Ele recebia autoridade. E muitas vezes a autoridade não estava preparada para o exercício do poder. Eu não sou contra o coronel. O coronelismo foi um bem necessário a esse país, na sua devida época e condições. Sem o coronel no interior o Brasil não teria desenvolvido, porque o Estado não estava presente para dar garantia ao povo, e até hoje ainda não está. Eram os coronéis que faziam as vezes do Estado e tiveram um papel importantíssimo, tanto que são respeitados até hoje pelas comunidades onde viveram.

Em Casa Grande e Senzala, Gilberto Freire deixa claro que o escravo gostava do seu senhor.
Claro. O escravo estava conformado com sua condição. Ele tinha aquilo como forma de vida e tinha ali tudo que pretendia ter. A visão, o ideal de vida dele era aquele. É verdade que houve abuso de autoridade, como até hoje ainda tem. Mesmo assim, temos que nos atentar para uma realidade. Até 1960 ainda existia o princípio de autoridade no país. A evolução política, somada à irresponsabilidade dos dirigentes, especialmente depois da revolução de 1964 - e a corrupção nasceu com ela -, está havendo hoje, principalmente no Brasil que difere de muitas partes do mundo, um total desrespeito ao principio de autoridade e em razão disso, há um total desmando, um crescimento do crime organizado, a instabilidade, o desrespeito de pai para filho, pelas pessoas de um modo geral. Quer dizer, não está havendo esse princípio de autoridade porque a autoridade não se faz respeitar. Porque não se pode admitir que se tenha respeito por governantes que não respeitam o cargo que exercem. Pode escrever o que estou lhe falando: se não houver uma mudança radical vamos chegar a uma revolução, ao anarquismo social.

Depois de tantos anos, com a história sendo repassada na oralidade, qual a impressão do povo da região sobre Antônio Dó?São Francisco não guardou sua história. As escolas fazem dramatizações, mas de um modo geral, junto ao povo, está caindo no esquecimento. Até a década de 1950 ainda era lembrado, mas daí pra cá, não mais. Com Serrano de Pilão Arcado minha pretensão é que a população do município tenha conhecimento de Antônio Dó, da realidade, do homem, do cidadão Antônio Dó.

O resgate histórico como o que foi feito em Serrano de Pilão Arcado, pode ajudar a comunidade na compreensão de sua história e a minimizar esses conflitos, ou pelo menos entender suas causas?Eu vejo na história de Antônio Dó um marco de rebeldia contra o abuso de autoridade. O cidadão que não aceitou a opressão, não se omitiu, mas não teve condições de resgatar seus direitos nem mesmo pela força porque ele não tinha a quem apelar, se o próprio Estado, a serviço dos mandões, dos coronéis, dos chefes políticos, estava contra ele. É no mínimo um motivo para reflexão.

No livro é possível perceber uma leitura de mundo, uma impressão sensorial muito grande do autor em relação à linguagem, ao cenário. Como formatou isso?Vivi muito tempo na roça, trabalhei 20 anos como agrimensor e percorri a cavalo toda a região onde Antônio Dó viveu. Freqüentei terreiro para saber de que forma Antônio Dó tinha o corpo fechado; não poderia descrever uma passagem de um terreiro sem ter ido a um, ou sua vida no garimpo sem viver pelo menos uma semana lá. Uma grande diferença entre conhecer o sertão e descrever o sertão como fez o Guimarães Rosa – apesar dele ter descrito muito melhor que eu - porque ele apenas percorreu a cavalo de Cordisburgo a Paracatu acompanhando a boiada e ouvindo histórias, mas não entrou no sertão. Eu sei o que é uma vereda realmente; o que é dormir ao relento; cavalo peado de pé e mão; comer rapadura com farinha numa viagem; passar uma semana debaixo de chuva viajando a cavalo; eu fiz isso. Não em razão do livro, mas pelo meu trabalho como agrimensor. Além do livro, reuni ao longo desses anos uma coletânea de palavras do linguajar da região e vou lançar um dicionário com o vocabulário sanfranciscano. Queria lançar junto com o livro, mas não deu. Já está no prelo e deve sair em março.

Sua narração é fluente, transporta o leitor, mexe com a imaginação e às vezes confunde lenda e realidade.A intenção é realmente essa, que o próprio leitor crie uma imagem e um cenário para o personagem. Dou apenas as linhas mestras para que ele individualize um personagem.

Como desenvolveu essa linha?Sou um leitor assíduo de Machado de Assis e ninguém conhece a língua portuguesa sem se debruçar sobre seus livros. Eu o reputo como pai da língua portuguesa no Brasil. De forma que minha escrita, minha forma de expressão tem muito dessa aprendizagem. Padre Antônio Vieira, Alexandre Herculano são as pessoas que também me deram motivação para escrever. No mais, é aquela busca do conhecimento, fixar uma forma própria de escrita. Tento buscar o subjetivo do personagem, transmitir seus sentimentos, sua natureza, seu lado humano, suas forças e fraquezas. Também fui professor muitos anos e isso ajuda na didática, na forma de conduzir a história.

Como foi sua experiência como professor?Nós não tínhamos uma metodologia moderna como hoje. Procurava-se transmitir conhecimento da história sob o ponto de vista temporal. Pegava-se a história antiga até chegar à moderna.

As pessoas aprendiam bem?
Acredito que sim e tenho uma satisfação muito grande em dizer que meus alunos, de Várzea da Palma, especialmente, venceram na vida. Se tiver alguma exceção, é pouca.

Se comparar à época em que lecionou, como vê qualidade da educação hoje?
Estudei o primeiro ano de Pedagogia, primeiro ano de Letras, fui aluno da primeira turma da Faculdade de Filosofia de Montes Claros, e esse questionamento sobre a educação sempre foi uma constante em minha vida. Aquela divisão antiga do ensino, primário, ginásio, científico, curso superior era muito mais objetiva, tinha um sentido lógico. Eu acho que com essas reformas do ensino houve uma sobrecarga de matérias, e a junção do ginásio com o primário também sobrecarrega as crianças com matérias que não têm objetivo na sua formação, elimina o tempo e a própria capacidade de aprendizagem das matérias objetivamente necessárias. O trato das idéias deve ficar no primário grau, e o segundo grau tratar da condução da profissão que a pessoa pretende abraçar. Nós temos hoje pessoas que terminam o ensino médio sem saber em que profissão avançar, exatamente porque não foram conduzidas para essa finalidade.

Da época com toda certeza. O livro retrata a questão sociológica da época; a relação entre o coronelismo, o chefe político e o povo, a interligação de poder, de mando, a força política dirigindo os destinos do município sem pensar na coletividade. Se a pessoa pertencia ao partido político dominante, tinha tudo; se não, era perseguida, espezinhada, até seus bens eram tomados. Foi o que aconteceu com Antônio Dó.

Parece que a superação é uma constante em sua vida. Fez agronomia, que não era exatamente o que queria, mas chegou ao máximo que o município poderia dar. Aí vem o Direito e também tem uma trajetória interessante.
De fato, sempre fui muito determinado, quando decido fazer uma coisa, me dou o máximo e tento fazer o melhor.

A faculdade ajudou?
Ajudou, em parte ajudou, mas você sabe que escrever precisa ter a veia realmente; o preparo cultural aperfeiçoa, mas não faz um escritor. O bom professor de português geralmente não é um bom escritor, porque o bom escritor tem que dizer o que sente, ser autêntico, sem a preocupação com regras de gramática.

Para quem vive de desafio, vencido um é lançado o próximo?
É, mas sinceramente, não tenho mais uma projeção de vida que me autorize lançar um desafio dessa envergadura. Pode até ser que alguma coisa seja produzida, mas de menor escala. Eu até falo no livro, e talvez seja onde tem um pouco de Petrônio: Montaigne (refere-se ao escritor e ensaísta francês Michel Eyquem de Montaigne) nos afirma que a gente não deve pensar na morte, deve cuidar da vida plantando nossas couves. Eu vou continuar plantando minhas couves.


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Serrano de Pilão Arcado – A Saga de Antônio Dó
Petrônio Braz
Romance, 2006
Editora Mundo Jurídico, 596 páginas

sábado, 11 de outubro de 2008

Lô Borges

LÔ BORGES: MÚSICA SEM FRONTEIRAS
Faz tempo que Minas Gerais abriga e exporta arte e cultura em todas as manifestações e, na música, uma de suas melhores referências é indubitavelmente o virtuoso Salomão Borges Filho, ou o sexto filho da família Borges, Lô Borges.


POR JERÚSIA ARRUDA
Nascido em 1952 em Belo Horizonte, o cantor e compositor mineiro se envolveu com a arte de tocar e cantar ainda menino: aos dez anos arriscava os primeiros acordes no violão; aos doze já havia formado sua primeira banda – The Bivers, tomado pela beatlemania; em seguida começou a compor as canções que seriam a base do consolidado movimento que surgiria anos depois, transformando a música brasileira, o Clube da Esquina; aos dezessete, em parceria com Milton Nascimento grava o álbum Clube da Esquina e, em 1972, lança seu primeiro álbum solo, Lô Borges (o disco do Tênis).


A carreira de Lô sempre foi assim: efervescente.
Ao lado do irmão Márcio, Milton Nascimento, Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso, Ronaldo Bastos, Fernando Brant e tantos outros, Lô construiu uma carreira sólida, marcada por canções que eternizaram a fama da qualidade da produção artística mineira, e que foram gravadas pelos mais importantes interpretes da MPB. Mas, como ele mesmo diz, não se pode ver a vida pelo espelho retrovisor, 35 anos depois, Lô continua em plena produção e absorve harmoniosamente as influências da música produzida pela nova geração e se deixa levar por elas sem, entretanto, perder o foco e o estilo que o consagrou.


O projeto é promovido pelo Museu Clube da Esquina, para divulgar e preservar a produção artística do Clube da Esquina e, durante o encontro, Márcio Borges conversa com o público sobre a história do Clube da Esquina e apresenta um vídeo elaborado a partir do acervo do Museu, e Murilo Antunes lê poemas de sua autoria.
Em show ao vivo, Lô Borges apresenta as músicas inéditas de seu último álbum, Bhanda - felicidade, em sânscrito – acompanhado pelos músicos Giuliano Fernandes (guitarra), Barral (teclados), Renato Valente (baixo) e Robinson Matos (bateria). O disco, que tem 10 faixas, traz parcerias com o irmão Márcio Borges, com o músico, poeta e principal letrista do Skank, Chico Amaral, e com o vocalista e letrista da banda Radar Tantã, César Maurício.


Em entrevista exclusiva à jornalista Jerúsia Arruda, Lô Borges fala da música e amizade do Clube da Esquina, dos antigos e novos parceiros, da forma como sua música vem se renovando, passando de geração para geração sem nunca perder o estilo.


Você é símbolo vivo e em plena produção (graças a Deus!) de um dos movimentos mais importantes da música brasileira. Se olhar para esses 35 anos de música, faria tudo de novo, do mesmo jeito?Me orgulho da maneira como minha trajetória foi construída. Comecei bem garoto no mundo discográfico, quando o Milton (Nascimento) me convidou para fazer o álbum Clube da Esquina, e teve uma repercussão muito maior do que a gente imaginava ou do que eu podia esperar, e a partir daí minha carreira foi se desenvolvendo naturalmente. Eu vejo esse tempo como um tempo de muita criatividade, os encontros foram muitos felizes, o destino colocou as pessoas certas no lugar certo, na hora certa e acho muito bacana tudo o que aconteceu. O mais importante nisso tudo é que não podemos olhar muito as coisas pelo espelho retrovisor e eu vejo minha carreira assim. Estou sempre buscando novos caminhos, meu ímpeto de compor, de fazer trabalhos novos é parecido com o começo de minha carreira. Essa chama acesa é que acho importante manter para a música continuar sobrevivendo dentro de mim, que é meu alimento, minha forma de expressão, minha atividade principal. Sou muito feliz e muito grato às energias positivas. Hoje, com 35 anos de carreira, pego um instrumento, o violão ou piano, e faço música, continuo em plena atividade e tenho que agradecer muito à vida.

Nesse mais recente CD, Bhanda, dá para perceber uma estética moderna, jovem, mas com seu estilo peculiar. Como foi essa nova experiência?
O álbum Bhanda foi uma experiência totalmente inusitada em minha vida, porque é um disco onde me relaciono com várias pessoas, em vários lugares. Tem uma banda chamada Radar Tantã, eu sou amigos dos caras e um dia resolvi experimentar uma música nova no estúdio deles, com eles tocando comigo. Eu gostei do resultado desse encontro e propus a eles que a gente pudesse tocar mais vezes, gravar mais músicas ao longo do ano, numa coisa mais relaxada, uma música por mês. Eu teria tempo de continuar minha turnê do álbum anterior - Um Dia e Meio - eles continuariam nas atividades profissionais deles, e uma vez por mês a gente se encontraria para fazer uma nova canção. Uma canção do Lô Borges com a intervenção e o sotaque da banda deles, que já existia. Esse encontro trouxe um sotaque mais vigoroso para o disco, as pessoas até falam que um disco meio rock, enfim, que para mim não é uma realidade distante porque eu era um garoto que amava os Beatles e Rolling Stones no começo da minha carreira (risos). Foi muito legal encontrar com essas pessoas novas e com elas fazer um trabalho que resultou no Cd Bhanda, que tem sido bem aceito. Gosto muito do que fiz, desse encontro feliz e essa felicidade está presente até no nome, porque bhanda em sânscrito significa felicidade, e pra mim foi encontro de felicidade com essas pessoas.

Mas as parcerias anteriores, principalmente o Márcio (Borges), que sempre foi seu parceiro mais constante, continuam dando certo?
Sim, o Márcio Borges sempre foi meu parceiro majoritário, o cara que sempre fez mais música comigo, desde que a gente começou a compor. Somos irmãos, morávamos na mesma casa e ao longo de nossa vida sempre tivemos essa facilidade de nos aproximar e de fazer música juntos. Teve um momento que ele mudou de belo Horizonte, eu me encontrava menos com ele e a gente produziu menos juntos, mas ter voltado para Belo Horizonte facilitou, e no álbum Bhanda ele é o meu parceiro majoritário, a metade das canções tem letra dele. Compor com ele é pra mim uma coisa muita tranqüila, muito prazerosa e muito entrosada, porque foi meu primeiro parceiro na verdade. A primeira canção que fiz na minha vida, quem fez a letra foi o Márcio Borges. E as mais recentes que tenho feito, até depois do Bhanda, porque continuo trabalhando, compondo, o Márcio continua muito presente em minha obra.

Quando foi que você descobriu que a música era o seu lance? Ou foi a música que o descobriu?
Na verdade houve um pequeno prenúncio disso quando eu, Beto Guedes, Yé Borges e o Márcio Aquino, com doze anos de idade, formamos um grupo que cantava músicas dos Beatles, no mesmo ano em que os Beatles tiveram lançamento mundial, que eles surgiram no Brasil. Foi uma beatlemania total na cabeça da gente e a gente tratou logo de fazer uma banda para cantar suas músicas. Nós nos apresentávamos em programas de auditório, de rádio e televisão, em clubes de Belo Horizonte e isso eu considero o primeiro esboço, minha entrada de tocar para público ver. Foi uma semiprofissionalização e naquele momento eu jamais poderia imaginar que iria me tornar uns compositores conhecidos, que fosse levar minha vida pelos caminhos da música, mas a música entrou bem cedo na vida, nessa época, nos anos 60. Eu não posso deixar de citar o Milton Nascimento, um grande incentivador meu, que começou a gravar minhas músicas. Ele já era um cara conhecido naquele momento, quando eu tinha dezessete anos de idade ele gravou três canções minhas no álbum dele, sendo uma parceria minha com ele – Para Lennon e McCartney, Alunar e Clube da Esquina 01. Logo depois, para surpresa minha, ele apareceu em minha casa, eu pensei que ele ia pedir mais uma música minha para gravar, foi surpreendente, ele me fez o convite para ir morar no Rio com ele, dividir um álbum com ele, que foi o Clube da Esquina. O Milton foi o cara que me impulsionou para o mundo discográfico. A música já existia dentro de mim, eu já era um adolescente compositor, mas não vislumbrava ainda uma carreira de discos, festivais da canção, não era muito sintonizado com isso ainda, e o Milton que me botou pra frente que falou assim “pô cara, vamos fazer uma coisa juntos, eu queria dividir um álbum com você”. Ele é um cara fundamental na minha vida.

Ouvindo você falar, e todos vocês que fizeram e ainda fazem parte do chamado Clube da Esquina, além da riqueza harmônica, que é a característica mais marcante do movimento, dá para perceber que a questão da amizade, do companheirismo também é muito marcante. Como você vê essa história?A amizade sempre foi um elemento super importante no nosso convívio. E naquele momento, no início das nossas carreiras, nós podíamos ser mais freqüentes, mais assíduos nos nossos encontros, porque todos nós éramos disponíveis uns para os outros, todos nós estávamos iniciando nossas vidas. Hoje nos encontramos muito menos do que eu gostaria, mas todos nós compreendendo que cada um tem sua trajetória, sua carreira, sua vida pessoal, sua família, seus amigos. Esses anos todos se passaram, a amizade persiste, perdura, mas nos encontramos bem menos do que as pessoas imaginam que a gente se encontre. O Clube da Esquina foi um momento importante da minha vida, eu me orgulho muito de ser um dos autores das músicas e do primeiro álbum, o Clube da Esquina, mas na verdade minha vida continua seguindo em frente. Eu fiz um show há quinze dias com Beto Guedes, na Praça da Liberdade; ano passado fiz alguns shows com Flávio Venturini; em 2005 fiz show em Paris com Milton Nascimento; encontrei com Toninho Horta e a gente fez show juntos; tem o projeto do Museu também. Então, de vez em quando a gente se encontra. São encontros menos assíduos, é verdade, mas sempre muito interessantes.

Por falar em Museu, o que acha dessa revitalização da memória do Clube da Esquina encabeçada pelo Márcio Borges?
O Museu é um projeto brilhante do Márcio, uma coisa visionária e importante para a história cultural do país, porque precisamos preservar o que foi feito. As pessoas ouvem falar do Clube da Esquina, mas às vezes tem uma imagem distorcida do que realmente foi. Esse serviço que o Marcinho está prestando à comunidade, de colocar num site bem elaborado a história do disco Clube da Esquina, o primeiro, passando pelos outros álbuns, por todos os personagens e seus próprios álbuns, isso mantém a memória viva. Por isso se chama Museu Vivo, e é muito bacana. As pessoas estão vivas, trabalhando, produzindo e têm o histórico delas registrado.

Com todas as mudanças que aconteceram nos últimos anos, como você acha que o público percebe o trabalho do Clube da Esquina hoje?

Muitas pessoas se tornaram conhecidas, e até famosas, pelo movimento Clube da Esquina. Aí eu acho que vai muito da música de cada um, o que cada um está fazendo. O público do Clube da Esquina vem se multiplicando a cada ano, de pai pra filho, de geração pra geração. E isso a gente percebe nos camarins, nos shows, principalmente em São Paulo que é o lugar onde mais trabalho, há uma presença muito grande de jovens que nem sonhavam em nascer quando fiz as canções Trem Azul, Girassol (Um Girassol da Cor de Seus Cabelos, parceria com Márcio Borges), minhas canções mais conhecidas. E esses jovens cantam as músicas, eu tenho fã-clube infantil, pessoas de 10-12 anos de idade. Eu fico muito feliz com isso e acho que os outros artistas do Clube da Esquina também têm esse feed-back. Não é uma presença maciça, mas nosso público foi muito bem “criado”, digamos assim. Eu sou parceiro do Samuel Rosa, do Skank e ele mesmo é um exemplo disso. O pai dele que era fã do Clube da Esquina e quando o Samuel ainda era adolescente ele lhe apresentou o disco Clube da Esquina e ele se apaixonou, e hoje o filho do Samuel gosta das minhas músicas, do Janela Lateral, e é essa coisa dinâmica, não pára.

Seu trabalho é muito consolidado, tanto que consegue absorver esses novos elementos, fazer parcerias com a nova geração de músicos sem perder o foco. Como você vê a música que está sendo produzida hoje por essa nova geração de um modo geral?
O Brasil é um país extremamente musical, de manifestações culturais de um modo geral, mas especificamente na música é um país muito rico, com muitas coisas interessantes acontecendo o tempo todo. Desde garoto percebo que o Brasil sempre produziu grandes compositores, grandes intérpretes, grandes cantoras, grandes compositoras e acho que continua assim, o problema é que a mídia capta muito pouco isso. A mídia é um universo muito grande com uma porta muito estreita. O que ela veicula são cartas marcadas, coisas que as pessoas às vezes estão até saturadas de ver tantas vezes na televisão, de ouvir no rádio, mas a mídia funciona assim mesmo. Eu que sou um cara viajante, viajo pelo Brasil inteiro, recebo Cds de várias pessoas, me orgulho muito de ser um músico brasileiro e vejo que a produção musical no Brasil é inesgotável e que não pára.

Montes Claros é berço de amigos e parceiros seus, e talvez uma das cidades mineiras que abriga o maior número de fãs, seus e do Clube da Esquina de um modo geral. O que está preparando para o show de quinta-feira?
No show de quinta-feira vou me apresentar com uma banda nova, que é o grupo com quem gravei o disco Bhanda, vamos tocar muitas canções da época do Clube da Esquina, coisas que as pessoas reconhecem e gostam de ouvir e algumas músicas inéditas, porque pra mim é superimportante poder experimentar junto com o público, e até para meu prazer pessoal também. Eu estou em trabalho constante de composição e gosto de tocar essas músicas para que as pessoas possam conhecer, avaliar, enfim. Então esse show é uma mistura das músicas mais conhecidas da minha carreira, das principais parcerias com Milton, Beto Guedes, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Toninho, Samuel Rosa e Nando Reis, muitas músicas que são parcerias antigas e novas. É um show com uma leitura mais forte, arranjos mais vigorosos, as pessoas têm dado um retorno legal, gostado do que têm escutado.

De tudo o que produziu o que acha que tem mais de você - ou é por igual? Com qual das suas músicas você se identifica mais?
Na verdade eu me sinto bem com minhas músicas de uma maneira indistinta. Tem momentos que estou mais pra Trem Azul, tem momentos que estou mais para a música que estou fazendo hoje, tem momentos que gosto mais de Girassol. Eu me sinto bem em conviver com minhas músicas, tenho carinho por todas elas e não poderia ser diferente. Continuo sendo uma pessoa que compõe com o maior amor, com o maior prazer, porque me relaciono muito bem com minhas músicas e não citarei nenhuma especial, porque na verdade não tem realmente nenhuma; especial é o conjunto de todas as músicas, é o dom que Deus nos dá, de estar diariamente voltado para o instrumento, para a criação de músicas, para a composição. Isso é para mim o mais importante.

Além da divulgação do Bhanda, você está com mais algum projeto encaminhado?
Estou com a divulgação do disco Bhanda e fazendo um novo disco de inéditas. Já tem nove canções gravadas e vai ser lançado em 2008. Minha produção de 2000 pra cá está bem exacerbada, tenho feito mais coisas do que fiz nos anos 90, por exemplo. É o terceiro disco que vou lançar no prazo de seis anos. Esse é um projeto que eu devo fazer integralmente em parceria com Márcio Borges. Estamos na fase de colocar as instrumentações. Então é assim, ora estou ora na estrada com a divulgação do disco Bhanda, ora fazendo o Museu Vivo com Márcio Borges, e quase sempre no estúdio gravando as canções inéditas.

Em meio a tantos projetos, tem algum que você tentou fazer e não conseguiu ou queria ter feito e ainda não tentou?
Não, eu faço meus projetos de acordo com a possibilidade deles serem realizados. Sou muito agradecido pelas coisas que têm acontecido na minha carreira e minha demanda eu quem crio. Todos os dias estou criando alguma história nova, algum projeto novo e nada que tenha ficado pra trás me traz frustração. Pode ser que alguma coisa ou outra que eu tenha tido vontade de fazer eu não fiz, mas isso não me trouxe frustração. O importante é você estar com a chama acesa pro presente.

Gostaria de deixar um recado para nossos leitores?
Queria dizer para todos de Moc que sou um cara, assim, apaixonado por essa cidade. Nos anos 70 eu ia demais a Montes Claros com Beto Guedes, onde fiz vários amigos. Eu adoro Montes Claros, adoro as pessoas, o astral das pessoas, a culinária. Sempre tive um bom relacionamento com Moc e para mim vai ser um prazer matar um pouco a saudade.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

João Rodrigues

ARTE VISCERAL
Os mistérios e incógnitas de uma obra que testemunha a expressão e dimensão do humano em seu tempo e espaço
 



POR JERÚSIA ARRUDA

Em entrevista exclusiva, o artista plástico e secretário municipal de Cultura de Montes Claros, João Rodrigues fala sobre seu trabalho artístico e suas experiências na administração pública
Apesar da gripe, tosse e febre, ele foi pontual e gentil, como sempre. Para encerrar o ano de 2006, o artista plástico e secretário municipal de Cultura de Montes Claros, João Carlos Rodrigues Oliveira, nos recebeu com exclusividade em seu atelier, onde falou sobre suas inquietações, suas experiências como engenheiro e arquiteto e a coragem e ousadia que teve ao abrir mão da segurança financeira que a profissão lhe proporcionava em troca da realização do sonho e sedimentação da vocação natural para as artes plásticas.

A história nos mostra que a mudança foi acertada e hoje João Rodrigues é um dos mais importantes e emblemáticos artistas plásticos do país, que em 20 anos produziu mais de 1000 telas, sempre com uma linguagem contemporânea, expressiva, sincera, intimista, sensual e extremamente emocionante.
Casado com Cláudia, pai de Clarissa e dos gêmeos, Felipe e Renato - campeões brasileiros de tênis: participaram do campeonato brasileiro neste ano disputando a final um com o outro -, João Rodrigues, 53 anos, nasceu em Montes Claros, onde viveu a infância e juventude, se mudando em seguida para Belo Horizonte para estudar.

A constante busca pelo novo o trouxe à administração pública e, como secretário, vê, tentando mudar o tradicional modelo de política governamental de cultura, que privilegia governantes, para uma gestão de políticas públicas culturais que priorize projetos e busque a descentralização e democratização do acesso aos recursos pelos artistas e associações de classe.


Com uma obra claramente produzida e configurada a partir si próprio, de caráter intimista confesso, o artista já esteve em exposição individual em Paris-França (Galerie Expression Libre), Madrid – Espanha (Casa do Brasil), Londres-Inglaterra (Canning House Gallery), Rio de Janeiro-Brasil (Museu Nacional de Belas Artes), coletiva em Belo Horizonte-Brasil (Palácio das Artes), entre outras.
Nesta entrevista ele revela sua tenacidade, seu desejo de estar em constante movimento e do banho de gente que está tomando como secretário.


Quem é João Rodrigues?
Nasci em Montes Claros em 11 de julho de 1954, onde passei minha infância e juventude. Aos dezessete anos me mudei para Belo Horizonte para estudar Engenharia Mecânica e foi lá que comecei minha vida profissional, me casei e tive meus três filhos. Minha vida em Belo Horizonte foi mais em função da Engenharia
Você também é arquiteto?- Chegou um momento que eu descobri que a Engenharia não era o que eu realmente queria, mas já estava trabalhando em uma empresa há quase dez anos, na Mendes Júnior, fazia parte do organograma, tinha minha vida pronta. Eu devia ter uns 28 anos e descobri que não estava feliz. Comecei fazer Arquitetura também e descobri era meio de caminho. Na verdade o que sempre gostei foi de desenhar, de pintura, das artes plásticas, então fiz o exame de seleção na Escola Guignard - na época ainda não se chamava vestibular - e passei a estudar Artes Plásticas à noite. Quer dizer, eu era engenheiro todo bacana, aquele engenheirão, já tinha minha casa, meu clube, meus três filhos já tinham nascido, e a noite estudava artes. Isso durante três anos – não cheguei a fazer o último ano.

Quando começou sua relação com a pintura?
- Desde criança. Tem coisas que minha mãe guarda que fiz quando era menino. Lembro que quando eu tinha dez, onze anos, havia uns gibis que traziam sempre um apelo para um curso por correspondência, da Escola Pan-americana de Artes. Fiz o teste, passei e me inscrevi no curso de desenho.

Quem era seu professor?

- Você não vai acreditar, mas meu professor era o Ziraldo. Até hoje eu tenho os desenhos que eu mandava para lá e vinham todos corrigidos e anotados, sempre com o Z de Ziraldo.

Você entendia de Artes Plásticas, se interessava pelas obras de outros artistas?
- Me interessava, mas naquela época a informação que a gente tinha era muito limitada, eu visitava os museus através do Tesouro da Juventude (de Glauber), as pinturas de Goya, Portinari, mas realmente não tinha muito acesso.

Como que você aprendeu a gostar, a apreciar a arte?
- Tinha uma pessoa muito interessante que morou em minha casa que desenhava muito bem e me incentivou de alguma forma a também buscar esse desenho. Foi quando eu fiz o curso. Aí terminei o científico e descobri que tinha que fazer o vestibular. Naquela época havia apenas dois caminhos: Engenharia ou Medicina. Por exclusão escolhi Engenharia e montei minha vida em função dela. Consegui um cargo importante, tinha apartamento, cuidava da família, mas me bateu aquela coisa, olhei ao redor e decidi mudar. Fiz Arquitetura, mas descobri que tinha a mesma coisa técnica da Engenharia. Desisti e fui estudar na Guignard. Passados três anos, pedi demissão da empresa, numa sexta-feira, e na segunda-feira já estava com caminhão de mudança para Montes Claros. Foi uma coisa rápida, mas se fosse pensar, ficaria mais difícil tomar a decisão. Claro que não foi de qualquer jeito. Eu tinha um amigo que tinha uma construtora que me arrumou um trabalho de meio expediente para garantir o sustento de minha família. Trabalhava como arquiteto de manhã, e à tarde me enfiava no atelier. Tinha uns 33 anos na época.

Aí começou a produção do artista.

- É, eu pintava, pintava, depois juntava tudo no carro e saía fazendo praça pelo país, ficava uns três ou quatro dias, e sempre voltava com um presentinho. Até hoje me lembro que meu filho Felipe, então com três anos, ficava reparando, sabia que eu saía para vender os quadros, e uma vez e me perguntou como que eu fazia, se eu ficava gritando na rua “olha os quadros, olha os quadros!”. (risos) Você quer saber, era uma coisa parecida porque eu chegava, por exemplo, em uma galeria em Goiânia e a dona me recebia com aquela empáfia, eu tirava tudo do carro ela olhava, olhava e escolhia um e pedia para deixar consignado. Aí eu arrumava tudo e colocava no carro de novo e ia para outra cidade.

E o resultado?
- Esse trabalho deu certo porque a pessoa que tinha ficado com o quadro consignado, vendia e pedia para mandar outro. Mandava. Depois já não era mais consignado, já comprava porque podia fazer um negócio melhor, vender pelo preço que quisesse. E aí a coisa começou a andar e já não dependia mais de do trabalho como arquiteto.

Desde o começo você já sabia o estilo que queria seguir ou foi descobrindo aos poucos?
- A gente sempre tem as influências das pessoas gosta, não com a intenção de copiar, de reproduzir, mas o traço é influenciado para um determinado lado. Vou te dizer uma coisa e é algo que afirmo, qualquer crítico pode dizer que meu trabalho não vale nada, mas nenhum deles vai dizer que não é verdadeiro, sincero. Se você olhar para meu trabalho vai perceber que existem informações que são minhas, do meu tempo. Se é bom, importante ou não, isso não discuto, mas que é sincero, eu te garanto.
Como você avalia seu trabalho?Minhas telas têm elementos como textos, palavras que eram importantes que fossem externadas, que eu escrevi e depois pintei por cima, e que nem sempre dá para decifrar num primeiro olhar. É como cartas que você escreve para si mesmo e depois meio que apaga. Mas você vai ver que as figuras sempre têm essa carga de dramaticidade que, de repente, se você buscar em alguns artistas do passado, vai perceber que eles também tiveram essa orientação. Não é um trabalho feito para enfeitar um ambiente, porque pode inquietar.
Aquela coisa do quadro combinar com o sofá.- É, o dia que jogar o sofá fora, joga a tela também. (risos).
Para quem você pinta?- As pessoas que compram minhas telas sentem a força de uma informação. Somos meio parecidos um com o outro e talvez o que expresso, mesmo que a pessoa não consiga explicar, tem a ver com a representação daquilo que ela também é.

Quem você citaria como inspiração?
- Francis Bacon, por quem sempre tive uma atenção, Portinari. É difícil falar porque são tantos. Mas é o seguinte, aquilo te move num momento, você sente, mas depois se esquece, porque na verdade o que busco é representar meu tempo. Não existe ninguém mais contemporâneo do que nós que estamos vivendo hoje, agora. Quando você vê a produção de um artista, é capaz de entender o tempo em que ele viveu pela obra que criou.

Você expressa o sentimento humano de uma forma ora realista, ora abstrata, mas sempre com uma linguagem muito forte, tendo o elemento masculino como personagem. Como conseguiu sintetizar esse estilo?
- Talvez tenha sido a necessidade de me colocar ou de colocar meu pensamento ali. Minhas telas são sempre povoadas por elementos masculinos. Meu mundo é masculino. Eu não conheço a cabeça feminina.

Nem tente.
- (risos) Como minha pintura carrega meus dramas e eles são masculinos, é natural que essas paisagens humanas se apresentem na minha forma. Teve uns momentos em que pintei uma natureza morta...
Sério? Não imagino você pintando natureza morta.- (risos) Mas acho que fiz para agradar uma pessoa ou outra, porque sempre tem isso, de alguém encomendar, dizer que quer uma tela de um jeito assim ou assado.

Dá para fazer isso?
- Dá, mas não tem importância. Quando faço uma tela para agradar outra pessoa é até divertido. Às vezes chega uma madame que ouviu alguém falar do meu nome. Quando chega no atelier toma um susto, mas percebia que não queria retroceder. Nessa hora é preciso ter um discurso para não vender ao invés de vender, porque você percebe que a expectativa dela era outra.

Tecnicamente falando, como sintetizou esse estilo?
Quando cheguei à Guignard já desenhava muito bem e, pela minha formação de engenheiro, achei que fosse encontrar lá fórmulas de composição de telas, proporções, enfim. Mas passou um mês e nada, e aquilo foi me dando uma agonia. Eu tinha um mestre que tinha acabado de chegar depois de oito anos na Alemanha e eu sentia que não estava aprendendo nada. Comecei até a insurgir outros colegas. Um dia tive uma discussão com esse professor - eu estava exigindo pedagogia para a arte, e isso não existe. Então ele falou que enquanto não destruísse com meu desenho não estaria satisfeito, esse era o seu papel, e que se não me desse a esse propósito que saísse da escola naquele dia e fosse fazer um curso de desenho técnico. Tive que destruir toda a formação que já tinha e, a partir do vazio, como diria o Guimarães Rosa, é que eu tive a possibilidade de uma coisa nova, sem resquícios de influências que pudessem travar minha expressão. Foi lá que aprendi isso. Será que você tem o que ensinar para um artista? Será que um artista tem o que aprender? Eu diria até que sim, que técnicas facilitam a expressão. Tem amigo meu – eu acho que esse amigo sou eu mesmo – que diz que o mundo está dividido em dois: o artista e o modelo. Na verdade você tem que desaprender, zerar tudo para que seja pertinente o real sentido da arte.

Tomando como referência essa coisa do externar o interior, seu trabalho então é meio, vamos dizer, biográfico, auto-retrato?
- Não sei bem, mas os signos que estão neles são das minhas questões, do meu humano, das minhas inquietações, dos meus dramas, tá tudo ali.

Nesses vinte anos você tem idéia de quantas telas já produziu?
- Mais de mil.

E onde elas estão?
- Espalhadas pelo mundo. Não tenho nenhuma comigo, termino de pintar e já tem destino certo.

As artes plásticas, como todas as criações artísticas, obedecem a tendências do mercado. Como você vê a bienal, o que ela tem de importante e de nocivo?
- Eu estaria muito tentado a dizer que a bienal hoje virou um espaço de experimentação demais, de coisas que não têm o menor sentido, que as pessoas colocam ali para que outras encontrem um sentido que realmente não existe. Tem obras da maior importância, claro, mas pelo menos dois terços do espaço é dado à experimentação e não tem a menor importância.

Como é sua experiência com exposições? Onde esteve?
- Já fiz individuais no Brasil, Europa e Estados. Passei quinze anos trabalhando com a galeria Visual, que tinha uma central e cinco-seis outras galerias, fazia a exposição e eu nem sabia. Quando me avisava já estava tudo pronto.
Com relação à aceitação – talvez essa palavra um pouco redutiva – você percebe alguma diferença do público brasileiro e do de outros países em relação ao seu trabalho?- Não acompanhei nenhuma crítica. Às vezes as pessoas acham que é o contrário, mas o que sei é que na Europa, e até nos Estados Unidos, a pintura é muito conservadora, eles não se dão muito a experimentações como o brasileiro, que usa essa criatividade, esse sincretismo. A não ser uns ou outros, mas como um todo, não. E no Brasil todo mundo hoje experimenta.
Mas você acha que o mercado externo aprecia esse trabalho de experimentação feito no Brasil?- Tem segmento no mercado que absorve, como aqui também tem segmento que absorve o trabalho mais acadêmico, mais comportamental, mais comportado, vamos dizer assim.
De um modo geral, como é o mercado para o artista plástico? Dá para viver só de arte?

- É muito difícil. Como na minha história, fiz praça. Como disse meu menino, tentando vender banana mesmo. Mas depois parece que engrena, aí você não tem mais aquela preocupação de não dar conta. A gente vive certa insegurança durante um tempo, mas depois vai dando certo. O negócio é sentar e trabalhar.
E como é sua produção hoje?- Antes da secretaria eram de sete a nove telas por mês. Hoje são uma, duas. Até que tire a roupa de secretário, faça minhas orações, uma hora de reflexão para depois entrar na tela, aí só me resta uma ou duas horas para pintar.

O mercado está sempre propenso a absorver novos trabalhos. Para quem está ingressando nas artes plásticas agora, existe um caminho a seguir, que conselhos você daria?
- Primeiro tem que estar seguro de que é isso mesmo que quer, porque se for verdadeiro, vinga. Não estou dizendo que a pessoa vai ficar rica com isso, mas vai ter uma vida digna. Com dificuldades, mas, pelo menos, uma vida sincera.

Você fala muito em verdade, em sinceridade, e arte é uma forma de comunicação muito veemente. Qual o papel do artista na sociedade?
- Seu papel fundamental é o de registrar o tempo em que está vivendo. Ele tem o dever de expressar o que verdadeiramente sente. Talvez ele tenha sido iluminado para fazer o registro do elemento humano naquele tempo para que a evolução a possa ser mensurada através do seu trabalho. O artista tem essa responsabilidade.

Na fase estudantil você era um ativista, um militante?
- Não me lembro de nada que fosse importante. Acho que minha atividade era futebol, que eu adorava. Nessa fase eu tinha mais essa perspectiva dos amigos, do namorinho. Mas sempre procurei ser muito bom no que fazia.

Como veio parar na administração pública?
- Costumo dizer que passei 20 anos enfiado em um atelier; eu e minhas questões. De repente, por uma circunstância, fui pinçado à superfície pela política e colocado meio que à deriva.

Você já tinha pensado nisso antes, planejado?
Não, sou dessas pessoas que gostam muito de mudar. Mudar endereço, de casa, os móveis do lugar. Me lembro que aos 15 anos era goleiro titular do amador do Ateneu. Nessa época, o titular tinha por volta de 28 anos e eu já era goleiro. Um dia larguei com a desculpa que tinha de estudar para o vestibular, e nas peladinhas no colégio São José eu jogava na linha. Um dia me viram jogando lá e me chamaram para voltar para o Ateneu, mas para jogar como atacante. E assim, em um ano fui o goleiro menos vazando no campeonato e no outro, o artilheiro. Sou muito aberto a experiências. E ser secretário foi uma coisa de um dia para o outro. Por acaso eu entrei na campanha do Athos, coordenando a parte da televisão, estética, discurso e me dediquei porque entro numa coisa pra vencer, realmente odeio perder. De repente fui surpreendido com o convite para ser secretário de Cultura. Topei.

A classe artística de Montes Claros é muito diversificada e intensa. Como é para você representar uma classe com toda essa diversidade?
- Eu tenho entendimento como artista, de necessidades e tudo, e também de administração, porque passei parte da minha vida como chefe de departamento de uma das maiores empresas do país. Mas administrar a secretaria de Cultura não tem absolutamente nada a ver com administrar uma empresa, apesar de que, talvez, fosse importante ser orientado a buscar uma administração mais efetiva, que não fosse um organograma hierárquico. Nós arredondamos esse organograma, onde cada um tem sua responsabilidade, mas não tem ascendência sobre o outro. Tem os departamentos, mas não é aquela coisa híbrida, pasteurizada. Se a gente lança um projeto, é como se fosse uma panela, envolve todo mundo. É uma forma nova de administrar, sem imposição. Isso eu entendi depois de duas, três, quatro semanas.

E está funcionando?
As pessoas dizem que sim, apesar da grande dificuldade em relação a recursos temos conseguido fazer o trabalho andar.

Quando assumiu a secretaria você tinha algum projeto que gostaria que acontecesse, ou projetos que já existiam que passassem a funcionar de forma mais efetiva?
- Não tinha, mas eu tinha a certeza de que cultura deveria ser entendida como um direito do cidadão, como é hoje a saúde, a educação. Tudo que eu queria é que se desse mais atenção à cultura, que houvesse mais responsabilidade dos governantes em relação a essa pasta, e nós conseguimos chamar atenção da administração municipal. A verdade é que não existe, principalmente nessa área, uma transformação radical, da noite para o dia, mas devagar temos conseguido sair de uma política governamental de cultura que privilegia governantes, para legitimar governantes, para um modelo de políticas públicas culturais, que prioriza projetos, que busca a descentralização e democratização do acesso, o fortalecimento de associações. E nós temos conseguido.
Uma reivindicação unânime de todos os segmentos artísticos é a criação de políticas públicas em nível municipal, que possa atender à classe de forma mais local, como a criação do Conselho Municipal de Cultura, por exemplo.- Para passar de um modelo de gestão para outro nós entramos com um Projeto de Lei na câmara municipal e ele foi aprovado, que institui no organograma da secretaria uma divisão de informação de projetos. Para se ter uma idéia, antes não havia no organograma as expressões “políticas públicas”, “patrimônio histórico”, “projetos”, não se trabalhava com isso. Já está no Jurídico e vai para a câmara em janeiro o projeto para criação da Lei Municipal de Cultura, do Conselho Municipal de Cultura e do Fundo Municipal de Cultura. E isso é importante porque, ao invés do artista pedir ajuda para fazer um cartaz ou gravar um CD, ele vai chegar com o projeto que será avaliado por uma comissão para aprovar ou não. Caso seja aprovado, ele vai receber o recurso através do repasse do IPTU. Isso vai significar uma revolução na cultura de Montes Claros, que vai sair do formato de “pires na mão”. Isso vai beneficiar no ano em torno de 50 artistas com projetos de custo médio de R$ 5.0000 a R$10.000. Nessa mudança de modelo de gestão, vemos a possibilidade de alinhar ao sistema nacional de cultura, de falar a mesma língua. Já conseguimos aprovar uma série de projetos junto a outras instituições, como o Festival de Cinema, que acontece em janeiro próximo, as Festas de Agosto, a Festa do Pequi, que será realizada em março de 2007. Esses recursos já existem, é preciso se organizar, criar políticas públicas para ter acesso a eles.
Uma outra reivindicação constante é a criação de um novo espaço, de um teatro.Nem dá para acreditar, uma cidade com 350 mil habitantes e não tem um teatro. Pode ter certeza, nós vamos ter esse teatro.
Quando?- Já existe essa interlocução da construção a partir do armazém da rede ferroviária. Essa idéia foi passada para a secretaria de Obras, rede ferroviária e ministério dos Transportes. A intenção do banco do Nordeste é trazer esse espaço para Montes Claros. Estamos brigando por isso. Criamos uma comissão para estudar a possibilidade de transformar a secretaria municipal de Cultura em uma Fundação municipal de Cultural, que vai ser uma instituição autônoma. Estamos estudando e temos até o dia 16 de janeiro de 2007 para apresentar os resultados. Com a Fundação vamos ter mais agilidade e autonomia para a gestão dessas políticas.

Como é o trabalho da secretaria hoje?
- Nós temos conseguido fazer projetos que antes não aconteciam. Hoje, por exemplo, são 3017 crianças da periferia que participam de projetos de arte e educação, mais 400 e poucas que participam do projeto em parceria com a empresa de telefonia Tim. Temos as políticas de defesa do patrimônio histórico, de relacionamento com o que é mais importante nas tradições culturais de Montes Claros, que são os Catopés, Marujos e Caboclinhos, somos todos parceiros. Quando falamos em sair de uma política que prioriza evento, para um outro modelo não quer dizer que promover evento não seja importante, claro que é, mas precisamos pensar no arquivo, na memória, nos museus, na preservação da identidade, fortalecer as associações. Quando se fala em cultura, é preciso identificar os dois aspectos, o conceito antropológico, os cantares, pensares, fazeres, e o conceito sociológico, que é a formatação dessa cultura para difusão, que exige um palco, gravação de um CD. É preciso ter esse entendimento para que as coisas não se percam na efemeridade.

No seu trabalho, além dos aspectos culturais que mobilizam toda uma opinião pública, também tem a questão do ego do artista, e certo fascínio da imprensa em priorizar aspectos negativos. É claro que a crítica e a cobrança são fundamentais para o desenvolvimento, por isso eu pergunto: como você lida com isso?
- Com atenção. Muitos artistas chegam, sentam, colocam suas idéias e reivindicações e, às vezes, naquele momento não recebem exatamente o que foram buscar, mas foram ouvidos e nós temos a oportunidade de entender a necessidade da demanda e criar uma consciência nova. E a Lei Municipal de Cultura vai ajudar muito nesse aspecto, pois o artista será melhor atendido, é direito dele. Parece discurso, fácil de falar, mas não é. Nós temos que buscar isso.
Correu um boato de que as secretarias de Educação e de Cultura iriam se fundir em uma.- Isso não faz sentido. É verdade que a grande revolução da cultura só é possível através da educação, da escola, mas uma secretaria não elimina a outra. Todos os projetos da secretaria de Cultura envolvem educadores, porque não faz sentido fazer aquela profusão, aquele evento todo e não repercutir nas bases. A participação dos professores é fundamental para que entendam o sentido das manifestações e levem para a sala de aula. Mas cada secretaria tem seu segmento e compartilhar as atividades potencializa os resultados das duas.

Você tem uma epígrafe que o acompanhe, um mote que o definiria?
- Carpediem, agarre seu dia, aproveite seu dia.


quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Ana Cristina Amorim

Educação continuada com qualidadeEm entrevista à jornalista Jerúsia Arruda, a professora Ana Cristina Couto Amorim, coordenadora da Pós-Graduação lato sensu da Soebras – Núcleo Montes Claros, fala da importância da educação continuada para o desenvolvimento, crescimento e sucesso profissional e as novidades do Núcleo para esse ano



POR JERÚSIA ARRUDA


Nos últimos anos, Montes Claros vem se tornando um pólo educacional em virtude do aumento da oferta de cursos superiores e da grande quantidade de estudantes de outros municípios que vem para a cidade para concluir seus estudos.


Também há um grande número de profissionais recém-formados que necessitam de educação continuada para ampliar conhecimentos, enriquecer seus currículos e se preparar para prestar concursos públicos.


Com a proposta de oferecer educação e formação continuada na capacitação de profissionais das diversas áreas do conhecimento, em 2002, a Soebras criou o Núcleo de Pós-graduação de Montes Claros.


Em entrevista, a professora Ana Cristina Couto Amorim fala da importância da educação continuada para o desenvolvimento, crescimento e sucesso profissional e as novidades do Núcleo para esse ano.


Psicóloga de formação há mais de 20 anos, especialista em Psicologia Clínica e Organizacional / Empresarial e licenciada em Psicologia pela Universidade FUMEC, e especialista em Planejamento e Administração de Sistemas de Saúde e Saúde Pública/Saúde da Família, Ana Cristina é funcionária da Secretaria de Estado da Saúde/MG, atuando na Saúde Pública em Montes Claros e região há cerca de 21 anos.


Também integra a equipe técnica da ACCA Consultoria & Assessoria prestando serviços na elaboração de projetos e operacionalização de cursos de extensão e especialização nas diversas áreas do conhecimento.
E, enquanto diretora do Centro Regional de Estudos em Ciências Humanas (CRECIH) e do Instituto Superior de Educação de Montes Claros (ISEMOC), faculdades do Sistema Soebras, há três anos, e coordenadora da Pós-Graduação lato sensu da Soebras Núcleo Montes Claros há quatro anos, Ana Cristina fala com exclusividade à jornalista Jerúsia Arruda.


Quais as vantagens de se fazer um curso de especialização lato sensu?
Primeiro, o curso possibilita a reciclagem e o aperfeiçoamento dos conhecimentos necessários para um desempenho eficaz nas atividades profissionais; segundo, coloca o profissional em contato com destacados especialistas de outras regiões e colegas da área, permitindo o oportuno intercâmbio de idéias e de experiências; terceiro, amplia as oportunidades aos recém formados, além de promover de forma funcional o acesso a cargos de chefia e de direção de instituições de saúde e educação do setor público ou privado.
No aspecto financeiro, o título de especialista atende à política dos Ministérios da Saúde e da Educação e dos diversos organismos públicos, que exigem a conclusão de Curso de Especialização para o preenchimento de cargos.
Para os profissionais graduados, há a possibilidade de realizar o curso na própria cidade ou região, evitando-se as desgastantes viagens a outras localidades, os gastos com deslocamentos, alimentação e estadia, faltas ao trabalho e afastamento da família, etc.

Por que Montes Claros foi escolhida como sede para o núcleo de pós-graduação da Soebras?O lançamento dos cursos em Montes Claros é resultado de um estudo de viabilidade, considerando-se a densidade populacional da região, a quantidade de instituições de educação, de saúde e hospitalares públicas ou privadas e o número de profissionais existentes.
Em virtude das muitas instituições de ensino superior da cidade, há um grande número de profissionais recém-formados que necessitam de educação continuada para ampliar conhecimentos, enriquecer seus currículos e se preparar para prestar concursos públicos.

Há quanto tempo a Soebras oferece, em Montes Claros, cursos de especialização/ pós-graduação lato sensu e quais as áreas contempladas?
Desde 2003, com destaque para duas instituições mantidas pela Soebras: o Instituto de Ciências da Saúde (ICS) e o Instituto Superior de Educação de Montes Claros (ISEMOC), que oferecem cursos na área da saúde e educação. A missão da Soebras é proporcionar educação e formação continuada na capacitação de profissionais das diversas áreas do conhecimento, atualizando e aperfeiçoando atitudes e habilidades necessárias para o desenvolvimento, crescimento e sucesso profissional dos seus participantes. Atualmente, são mantidos 11 títulos nas áreas de Ciências da Saúde, Ciências Humanas e Lingüística, Letras e Artes. Todos os cursos são ministrados por doutores, mestres e especialistas inseridos com destaque no mercado de trabalho local, regional e do país.

Alguma novidade para esse ano?Continuaremos ministrando cursos em cidades da região, principalmente na área da educação, e abrindo novos espaços em cidades da Bahia com novos cursos em 2008. Ainda em 2008, terminaremos de estruturar o setor de certificação para as Instituições de Ensino Superior da Soebras/Montes Claros, inclusive para os cursos de Extensão Acadêmica, o que sem dúvida nos garante a continuidade e credibilidade dos cursos. E para 2009, planejamos oferecer cursos de especialização na área do direito e das engenharias, consolidando assim o núcleo em Montes Claros.

Todos os cursos são reconhecidos pelo MEC?
Os cursos atendem às exigências da legislação educacional pertinente, especialmente a Resolução nº 1, de 8 de junho de 2007 do Conselho Nacional de Educação (CNE) e Câmara de Educação Superior (CES) do Ministério da Educação. A oferta de cursos de pós-graduação lato sensu independe de autorização, reconhecimento e renovação de reconhecimento por parte da Coordenadoria de Apoio de Pessoal de Nível Superior (CAPES), porém deve atender os critérios e exigências da Resolução CNE/CES, principalmente quanto ao credenciamento junto ao MEC da instituição de ensino superior que oferece os cursos.

Qual o público alvo dos cursos?A exigência para o ingresso nos cursos é que o interessado tenha diploma de nível superior nas diversas áreas do conhecimento.
Os cursos de pós-graduação lato sensu são voltados para o nível de especialização, mais direcionados à área profissional, de mercado, e com caráter de educação continuada.

Todos os cursos têm a mesma duração?
Os cursos têm carga horária mínima de 360 horas, com duração máxima de dois anos, não computando o tempo de estudo individual ou em grupo sem assistência docente e aquele destinado à elaboração de monografia ou trabalho de conclusão de curso (TCC).

A abordagem de cada curso é firmada na especialização específica ou também aborda temas gerais?
Os cursos têm finalidades variadas, que podem incluir desde o aprofundamento da formação da graduação em determinada área, como as especializações dos profissionais da área da saúde, ou temas mais gerais que proporcionam um diferencial na formação acadêmica e profissional.

Como é o formato?
O formato dos cursos é semelhante ao dos cursos da graduação, com aulas presenciais, seminários, ao lado de trabalhos de pesquisa, práticas supervisionadas e visitas técnicas sobre os temas concernentes ao curso.
O aluno tem que freqüentar no mínimo 75% das aulas, que acontecem às 6ª feiras e sábados, e apresentar um trabalho de conclusão de curso (TCC), que pode ser monografia, artigo científico, projeto de intervenção, ou outros. Ao término do curso, após cumprir com todas as exigências regulamentares, será emitido o certificado de conclusão pela Soebras/ Instituto de Ciências da Saúde (ICS), credenciado pela Portaria 2.179 publicada em 28/12/2000, e pelo Soebras/ISEMOC, também credenciado pela Portaria 3.918 publicada em 23/12/2003 pelo D.O.U.

Nos cursos de graduação, o Mec exige que pelo menos 1/3 do corpo docente tenha título de mestre ou doutor. No caso da pós-graduação-lato sensu, qual é a exigência nesse item?
O corpo docente de cursos de pós-graduação lato sensu, em nível de especialização, deverá ser constituído por professores especialistas ou de reconhecida capacidade técnico-profissional, sendo que pelo menos 50% destes deverão apresentar titulação de mestre ou de doutor obtida em programa de pós-graduação stricto sensu reconhecido pelo Ministério da Educação.

Porque várias edições do mesmo curso?
Atualmente, há uma necessidade de educação continuada e aprofundamento de temas que na graduação são vistos de forma rápida e generalizada, principalmente nas áreas da Saúde e Educação. Pensando nisso, criamos uma boa estrutura para atender à procura pelos cursos, como equipe de trabalho motivada, estrutura física adequada, empenho do corpo docente e dos coordenadores técnicos, viabilidade dos cursos para o mercado de trabalho, avaliação continuada junto aos alunos e egressos e, principalmente, o planejamento para a divulgação dos títulos dos cursos, contribuindo para a democratização das oportunidades de acesso à educação em nível mais avançado. A certeza da certificação é outro item que assegura as várias edições do mesmo curso. O certificado recebido pelo nosso aluno é valorizado regionalmente e nacionalmente em concursos públicos e na reclassificação da área da saúde e educação. Os resultados são cada vez mais positivos e as turmas têm se renovado facilmente.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Arthur Moreira Lima

MÃOS NO TECLADO E PÉS NO CHÃO
Com a humildade e sabedoria dos grandes visionários, o internacional pianista Arthur Moreira Lima trouxe a Montes Claros a harmonia e encantamento dos clássicos universais e da música popular brasileira.


POR JERÚSIA ARRUDA

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Intuitivo, irreverente e bem-humorado. Assim é o cidadão Arthur Moreira Lima. Virtuoso, popular, versátil, completo. Assim é o pianista clássico Arthur Moreira Lima, reconhecido internacionalmente como uma das mais importantes personalidades da cultura brasileira.

- Mas não sou um gênio. Sou um prestador de serviços. Altamente categorizado, mas um prestador de serviços – afirma o músico.

Pela quarta vez em Montes Claros, a segunda com o projeto itinerante, nesta edição com o título Um Piano Pela Estrada, Arthur se diz feliz em voltar a se apresentar na cidade do amigo Darcy Ribeiro, e de um povo sempre receptivo e caloroso.

Há cinco anos trilhando as estradas brasileiras, levando a grandes e pequenas cidades, inclusive nos municípios mais distantes, a música clássica, que é apresentada em praças públicas para a comunidade de todas as classes sociais, gratuitamente, Arthur diz estar vivendo um importante momento de sua vida pessoal e profissional.


- É preciso ter coragem para fazer um projeto como esse. A idéia surgiu quando trabalhava junto à secretaria de Cultura do Rio de Janeiro e vi o quanto custava financiar um espetáculo para o grande público. Comecei devagar. Montamos o caminhão-teatro e, desde 2003, à medida que as apresentações foram acontecendo, as adaptações foram sendo feitas de forma a atender às necessidades que surgiam a cada apresentação. Hoje temos uma estrutura que se adapta em qualquer local, levamos cadeiras, em algumas cidades as pessoas também levam sua própria cadeira, e o mais surpreendente é que todos os espetáculos contam com uma grande platéia. Se a cidade é muito pequena a platéia não é tão grande assim, mas sabemos que a maior parte da população está lá para nos assistir – diz o pianista, que apresentou na noite de ontem o espetáculo número 159 realizado pelo projeto, na Praça da Matriz de Montes Claros, e espera chegar a 200 até o final do ano.


- Estamos vivendo o século da interação e não dá mais para viver somente daqueles concertos formais: terno, gravata, a música e, ao final, os aplausos de um público que nem sempre entendeu o que ouviu. O concerto é muito mais do que isso. Gosto de conversar e aprendo muito com as pessoas humildes, de idéias simples e sinceras. Mais do que as pretensamente intelectualizadas. Antes de ser pianista, sou brasileiro e tenho que perceber que essa é a realidade do meu país – ressalta o pianista.


Ao idealizar o projeto, Arthur diz que a principio pensava que o público seria de uma faixa etária mais elevada.
- Os jovens comparecem, entendem e gostam, porque muitos chegam antes de começar o concerto e só vão embora depois que acaba. Sempre valorizei minha intuição e quando pensei em fazer esse projeto minha idéia era contribuir para o fortalecimento da identidade, nossa dignidade de nosso povo, e a forma que tenho para fazer isso é levar a música universal para a população que dificilmente teria acesso. E deu certo. Um público de todas as idades, atento, receptivo e sempre caloroso comparece para nos dar a certeza de ter feito a escolha certa – comemora o pianista, que checa pessoalmente todos os detalhes, desde o material de divulgação, passando pelo cenário, até os arranjos e apresentação do concerto.


Sobre a música produzida atualmente no Brasil, Arthur diz que há muito que fazer.

- Sou de uma geração muito boa, brilhante em várias áreas, e a nova geração vive da música dos sessentões como Chico Buarque e Gilberto Gil. Alguns nomes novos se destacam, como Lenine, Marisa Monte e Zeca Pagodinho, mas é em pequeno número e com pouca variedade – ressalta o músico, que diz ter vivido uma das maiores emoções de sua carreira ao gravar a música do inominável Astor Piazzolla.


Arthur Moreira Lima se apresentou em Montes Claros no projeto Janelas da Matriz, em homenagem ao sesquicentenário da cidade. A próxima apresentação do projeto será em Diamantina-Minas Gerais.

domingo, 5 de outubro de 2008

Dagmá Brandão Silva

PARTICIPAÇÃO E AUTONOMIA: OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO

Em entrevista exclusiva à jornalista Jerúsia Arruda, a secretária municipal de Educação, Dagmá Brandão Silva fala sobre o panorama da educação nas escolas municipais de Montes Claros e projetos para diminuir as desigualdades e melhorar a aprendizagem

 


POR JERÚSIA ARRUDA

A educação no Brasil vive um momento em que os baixos índices de aprendizagem dos alunos e as diferenças regionais de desempenho escolar tornam axial a discussão sobre as possibilidades pedagógicas frente aos desafios vivenciados nas redes de ensino.

Em entrevista exclusiva, a secretária municipal de Educação de Montes Claros, Dagmá Brandão Silva fala sobre o panorama atual da rede municipal de ensino e os projetos para vencer os desafios vividos pelo setor, considerando as perspectivas administrativa e pedagógica.


Graduada em Pedagogia e pós-graduada em Metodologia do Ensino Superior, Dagmá foi servidora pública como professora de ensino fundamental, diretora da Escola Municipal Professor Hilton Rocha, em Belo Horizonte, e atuou em diversas esferas de gestão educacional na capital mineira, o que lhe confere experiência e maturidade para assumir a secretaria de educação de um dos maiores municípios mineiros, cujas escolas vivenciam um momento crítico, com 80% dos alunos em nível insatisfatório de aprendizagem.


Na entrevista a pedagoga fala da necessidade de compreender o que realmente é aprendizagem e os fatores conjunturais que a ela podem ser associados, o redimensionamento do papel das escolas e redes de ensino, e o que pode ser feito para que os alunos aprendam mais e melhor.


Você sempre trabalhou na educação?
Eu não gostaria ser outra coisa. Têm muitas pessoas da área da educação que dizem que, se pudessem, teriam outra profissão, mas eu sou da educação, é minha paixão e é isso que me completa. Nasci em Lontra e me mudei logo cedo para Montes Claros, me formei pela Unimontes e comecei trabalhando na secretaria municipal de Educação onde permaneci por seis anos. Primeiro como supervisora da zona rural, depois na coordenação pedagógica da secretaria. Também fui diretora das escolas municipais Afonso Salgado e Jason Caetano. Depois fui para Belo Horizonte e trabalhei na rede municipal de ensino de lá. Acho que é um pouco da característica de cada um, sempre fiquei em trabalho de gestão escolar. Logo que cheguei a Belo Horizonte fui eleita para a direção da escola municipal Vila Pinho, em uma muito complicada, que tem uma característica sócio-ambiental de muita vulnerabilidade, de muito risco. Depois fui chamada para ser gerente pedagógica da regional Barreiro, uma das maiores regionais de Belo Horizonte, com 27 escolas grandes. Logo depois fui para a direção da escola municipal professor Hilton Rocha, onde permaneci por cinco anos. Depois fui convidada para a direção do CAPE – Centro de Aperfeiçoamento de Profissionais da Educação da rede municipal de Belo Horizonte. Durante essa minha trajetória na educação pude vivenciar vários trabalhos, ora coordenando uma escola, ora uma comunidade, ora na gerência de uma região, tendo também passado pela experiência da sala de aula, porque em Montes Claros trabalhei como professora do curso de magistério e em Belo Horizonte, no ensino fundamental. Fiquei 17 anos em Belo Horizonte e voltei a Montes Claros para assumir a secretaria municipal de Educação.

Então você está bem à vontade nesse cargo?É. Essa experiência dá uma identidade muito grande porque falo de um lugar que conheço. O fato de ter vivenciado vários espaços na educação, da sala de aula a pensar a educação de uma cidade como Belo Horizonte, porque como diretora do CAPE eu estava à frente do trabalho de formação da cidade inteira, isso me deu essa experiência para saber de fato que terreno é esse, que é de grande desafio.

Qual é situação da educação no município hoje?Montes Claros não está diferente do Brasil, quiçá do mundo. Vivemos hoje um momento de mudança, um momento crítico, mas também muito fecundo, um território que muita coisa pode brotar, florescer. Se o mundo muda, a escola precisa mudar, os professores precisam mudar. E a gente vive hoje uma nova sociedade, nesse novo milênio nós temos desde as novas tecnologias, a informática, à cultura do que é muito imediato, as coisas visuais simbólicas. Então trabalhamos com um novo contexto e a sociedade testa a educação. E a escola não está desvencilhada, separada do contexto do mundo. Há muita violência no mundo? Há muita violência na escola. Há uma exacerbação da sexualidade? Há também na escola. Todo esse contexto que vivemos no mundo, vivemos também na escola e lidar com isso é novo. Lidar com a juventude precoce, que aos 14 anos já tem uma experiência que antes só se tinha aos 18. A gente lida com alunos que são líderes da gang, do tráfico...

.... da família...
É, então que referência que ele tem na escola? Ele não vai mais chegar, ouvir o professor caladinho, dizer o que pensa. E esse tempo de mudança está aqui também.

A secretaria está se adequando para enfrentar essa realidade?
Encontrei a secretaria num contexto de que muito precisa ser feito para formar os professores para lidar com esse novo quadro, para atuar de maneira que consiga mudar a realidade da educação. Nas últimas avaliações que a rede passou, que foi a Prova Brasil, realizada pelo ministério da Educação no ano passado em todas as escolas do país, Montes Claros não teve um desempenho interessante, mas que revela que precisamos trabalhar muito. Nossos alunos tiveram em torno de 47% de acerto, menos da metade. Depois passamos pela avaliação censitária feita pelo estado com alunos de 8 anos de idade, e tivemos um resultado muito crítico. O Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha tiveram os piores resultados do estado e isso dá uma preocupação, apesar de saber que não é um privilégio de Montes Claros, que inclusive teve destaques em relação a outros estados. Nós estamos com faixa de 80% dos alunos que não apresentam resultado satisfatório, 60% deles operando no nível da frase, quando deveriam estar no nível do texto, e 19% no nível da palavra, quando muito. A escola socializa, é espaço de encontro, de organização das comunidades, tudo isso é real e a gente tem que tratar. Mas ela é por excelência espaço de conhecimento, sendo assim tudo que se faz, tem que visar que na sala de aula o aluno aprenda. Estamos com uma série de programas e propostas para dar conta desse resultado.

Como é o investimento na educação em relação às outras pastas?
A Educação tem o segundo maior orçamento do município, com 25% . Primeiro é a Saúde. Hoje, junto com o Fundeb, que amplia um pouco nossos recursos, isso representa um montante em torno de 60 milhões para o ano de 2007. É um bom orçamento, só temos que ter um plano de seja coerente para investi-lo da maneira certa.

Esse plano já foi delineado?
Já delineamos e temos quatro áreas de investimento. Primeiro na formação e aprendizagem, com um programa de valorização e profissionalização da docência que envolve plano de carreira; organizar a rede como sistema, que não está organizada ainda; planejar o Conselho Municipal de Educação que existe, mas está um pouco parado; uma série de investimentos para dar conta dessa frente de formar os professores.

Tem algo de concreto já programado dentro desse plano?
Na área da alfabetização, que é nosso grande desafio, estamos com dois convênios. Um com o Ceale – Centro de Estudos em Alfabetização e Letramento da UFMG, um Centro de excelência, talvez o melhor do Brasil, onde vamos promover a preparação dos professores para o exercício em sala de aula. Nós tivemos cinco dias inteiros durante o I Congresso da rede municipal de educação, que aconteceu no mês de fevereiro e termos ainda neste ano, mais nove dias de preparação dos professores, para lidar com a alfabetização. O outro convênio é com a universidade estadual de Montes Claros, para monitorar mensalmente os resultados dos nossos alunos na alfabetização. Os acadêmicos do curso de Pedagogia da Unimontes vão aplicar um teste, tanto de leitura quanto de escrita e, assim, será possível intervir imediatamente, ao invés de esperar que isso aconteça com uma avaliação externa uma vez por ano, como vem acontecendo. Ao mesmo tempo em que monitoramos e avaliamos o aluno, o professor é preparado para fazer a intervenção. Esse é o programa em que estamos apostando para reverter esse quadro na área da alfabetização.

E para os outros níveis?
Estamos implantando os ciclos Infanto-Juvenil e da Juventude, onde será avaliada a forma como o jovem aprende e qual o currículo pertinente, de forma a acessar essa juventude e criar, através dessa avaliação, uma escola nova, não mais aquele modelo de disciplinas isoladas, fragmentadas, dos meninos um atrás do outro, sempre sentados. Queremos promover a experiência pelo fazer, e que seja múltiplo. Tem um aluno que tem grande dificuldade de produzir um texto, mas que compõe um rap maravilhosamente bem; um menino que tem muita dificuldade com matemática, mas que toca tambor muito bem, tem ritmo. Então essa linguagem precisa ser absorvida pela escola, que tem se abrir para essa discussão e valorizar essas habilidades para formar conhecimento. Estamos pensando um currículo próprio para esses ciclos.

Dentro desse plano existe algum projeto de criação de cursos profissionalizantes?
Para esse ano não, mas seria interessante. Inclusive essa é uma proposta do governo federal de criar o ensino profissionalizante nesse segundo mandato, mas isso requer uma mudança de postura, de investimento, porque até então a preocupação foi preparar o aluno para prestar o vestibular. Eu sei que a assistência social tem um programa voltado para o trabalhador, mas na educação, nesse ano, temos como foco a alfabetização, o programa 100% de Alfabetização, para cuidar da base, dessa experiência primeira. Uma outra meta é a educação integral que cuida um pouco desse novo universo que falamos. Nesse programa a educação acontece parte na escola e outra parte dentro da comunidade, e o aluno participa em tempo integral de atividades pensadas não só na área do conhecimento, mas nas artes, cultura, esporte, tudo ligado à formação, ao conhecimento.

Pela grade curricular dá para perceber que a escola se preocupa muito mais com a formação de conhecimento do que de habilidades.
Pois é. Agora tem um acordo firmado que o seguinte: o Município fica com o ensino fundamental e o Estado com o ensino médio. Então, o trato com as profissões, o ensino profissionalizante é mais um desafio para o Estado. O grande desafio do Município é formar esse aluno no início da sua vida, que a educação infantil, que hoje é de 0 a 14 anos.

Por que o aluno do ensino fundamental não está aprendendo a ler e escrever, menos ainda a ler e compreender?
Não podemos generalizar, mas a porcentagem de alunos com dificuldades é grande. Muitas vezes o aluno aprende o código lingüístico, mas não dá conta de ler um texto científico, jornalístico, ele não avança nessa discussão da língua. Acho que é porque a demanda da educação é maior do que se tinha antes. Hoje a educação não pode ser mais focada só em ensinar a ler e escrever. Exige que se trabalhem múltiplas linguagens, e é nesse momento de transição que a escola precisa rever seu papel, estabelecer a função que ela tem que é de produzir conhecimento. Ela precisa ser mais, abarcar outras áreas que antes não eram dela.

Porque a escola particular, que tem menos recursos por causa da inadimplência, forma melhor o aluno que a escola pública?Porque a escola pública acolhe a todos, indistintamente. Eu posso ilustrar com uma pesquisa feita pelo GAME - Grupo de Avaliação em Medidas Educacionais da UFMG, que mediu que escola agrega mais valores aos alunos e, curiosamente, surpreendeu, com a escola pública apresentando melhores resultados. Um outro diferencial é o público da escola particular e da pública. O aluno da escola particular chega “pronto” e os pais pagam achando que a escola é quem está de fato formando. Se a escola pública tivesse esse público, com certeza conseguiria avançar mais. A escola pública hoje é o que tem que ser: aberta a todos, indistintamente. E como ela inclui a todos, tem um exercício que nem sempre dá resultado homogêneo. Mas temos visto que a escola pública aprova muito no vestibular e não é revelado, e por isso, às vezes fica parecendo que só a escola particular que aprova.

Com o projeto de inclusão social agora todas as escolas recebem crianças com necessidades especiais, que compartilham o mesmo espaço com as outras crianças. Como a escola municipal está se adaptando a essa nova realidade?Em Montes Claros nós temos quase 300 alunos com necessidades especiais nas escolas regulares e estamos num momento de transição em relação às escolas especiais, que continuam dando apoio a esses alunos, mesmo depois que eles passam pela inclusão. Em Montes Claros são três escolas especiais – Vovó Clarice, Abdias Dias de Souza e Fernão Capelo Gaivota – que fazem o serviço itinerante, que é ir à escola onde o aluno está estudando, verificar se sua inclusão está dando certo e dar suporte, inclusive clínico. Além disso, temos na Secretaria um núcleo de inclusão que acompanha essas crianças, verifica onde elas estão, quais são as dificuldades, e há uma tendência desse trabalho se ampliar. Eu venho de uma experiência em Belo Horizonte que não tem mais entrada para aluno em escola especial.

E o que vai acontecer com essas escolas especiais e com os profissionais que estão lotados para atuar nelas?Aqui em Montes Claros elas continuam com os casos que necessitam da permanência na escola especial, e também estão passando por um momento de transição para que possam dar apoio ao trabalho das escolas regulares.

E deu para manter todo o pessoal?
Sim, todo mundo.

Qual o custo de um aluno para o município hoje?
Um valor estimado em R$ 1650 ao ano.

O I Congresso foi uma jornada extensa e teve uma participação bem expressiva. Que avaliação você faz dos resultados?
O objetivo do Congresso foi preparar os professores para o exercício da profissão e, também, criar um movimento que possa motivar, dar pulsão para a educação no município. E isso se cumpriu bem. Nós tivemos uma semana de discussão dentro das várias áreas e temáticas, oficinas, atividades práticas, teatro, dança, música, ciência, literatura afro, e isso cria um ânimo novo, um desejo novo de realizar, de produzir. O que queríamos era potenciar os saberes e, também, os fazeres, criar essa liga do professor com o fazer diário, da sala de aula, com seus alunos, de dar conta de estar inspirado e formado para aquela realidade. O professor precisa alimentar um pouco a alma para dar conta de segurar esse desafio.

Como é o salário do professor de Montes Claros em relação a outros municípios, outras regiões?
É um salário médio. Nós não temos o melhor salário do Brasil, mas de longe não é o pior. Claro que o professor reclama, que gostaria de ter um salário melhor, e dentro dessa política de valorização nós tem essa preocupação. Ano passado, em dezembro, eles tiveram um aumento que variou de 7% a 15%. Quem recebia menos teve um aumento maior. No final do ano também rateamos os resíduo do Fundef – esse ano Fundeb – e isso também é uma forma de valorizar seu trabalho.

Em relação ao Fundo, o que muda na prática com essa transformação de Fundef para Fundeb?Antes o Fundo era só para o ensino fundamental e agora financia todos os alunos da educação básica, incluindo educação infantil, ensino médio e EJA. Isso amplia os recursos, mas não quer dizer que todo município vai receber mais a partir de agora. Tem município, inclusive, que perde porque vai ter que dividir o mesmo recurso, que era para o ensino fundamental, com toda a escola básica. Outros municípios ganham e Montes Claros, que já fazia um atendimento grande na área de educação infantil, é um deles, e recebe um pouco mais.

Qual é a margem de aumento?
Não sei por porcentagem, mas para o ano de 2007 o valor será de 2 milhões de reais. Isso não quer dizer que é mais dinheiro, nós só estamos, de fato, financiando a educação infantil, que antes era financiada pelo próprio município.

Como será aplicado esse recurso?
O recurso vem para a educação e será aplicado da mesma forma que se aplicava o Fundef, ou seja, 60% para pagamento de pessoal - e não se pode tirar um centavo disso - e 40% para todo o restante de financiamento da educação, ou seja, construção, reforma, equipamento, material e formação de professores.

Como é feita hoje a escolha dos diretores das escolas municipais?
Hoje tem sido indicação, mas ano passado foi aprovada uma lei na câmara municipal e a partir desse ano será por eleição.

Quem pode votar nessa eleição?
Pais, alunos, professores e funcionários da escola. É voto universal.

Quem pode se candidatar?
Primeiro os candidatos passam por uma prova e os que forem aprovados podem participar da eleição. O diretor eleito permanece no cargo por dois anos.

Quando será a primeira eleição?Nós estamos preparando, porque que tem que licitar. Ainda não temos a data prevista, mas sabemos que vai acontecer nesse ano.

Como você está encarando o desafio de estar à frente da secretaria municipal de Educação?
Eu gosto muito de desafios e para mim tem sido uma oportunidade de aprender, de vivenciar uma atividade nova, de retorno para minha cidade. Tem sido um bom aprendizado.

Por ser sua cidade o desafio é maior ou, ao contrário, ameniza um pouco?
Eu me sinto em casa. Estou me sentindo à vontade, fui muito bem recebida, acolhida pela categoria, talvez pela própria identidade. Comecei aqui, fui e sou uma colega do grupo e tenho percebido que o fato de ser daqui e pertencer à educação tem me ajudado muito.