quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Oportunidade para artistas

BNB lança edital de seleção de propostas para compor programação dos seus centros culturais em 2010

O Banco do Nordeste do Brasil (BNB) acaba de lançar o edital de seleção de propostas artísticas para participação nas programações dos Centros Culturais BNB-Fortaleza, Cariri (em Juazeiro do Norte, região sul do Ceará) e Sousa (no alto sertão paraibano), durante o ano de 2010.

Os interessados podem apresentar propostas nas áreas de artes cênicas, artes visuais, literatura, música, atividades culturais infantis, cursos de apreciação de arte e oficinas de formação artística. Todas as informações (edital e formulários) para inscrição de propostas estão disponíveis desde a última segunda-feira, 17, no portal do BNB (www.bnb.gov.br/cultura).

O BNB recebe propostas até o próximo dia 18 de setembro, e o resultado da seleção será divulgado em 20 de novembro deste ano. Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail cultura@bnb.gov.br ou pelos fones (85) 3464.3108 (Fortaleza), (88) 3512.2855 (Cariri) e (83) 3522.2980 (Sousa).

As inscrições devem ser feitas mediante entrega de formulários-proposta, específico para cada uma das atividades, devidamente preenchido com letra legível ou digitado, assinado pelo responsável pela proposta e acompanhado dos respectivos anexos.

Qualquer pessoa física ou jurídica pode apresentar projetos para as três unidades do CCBNB. A entrega do formulário-proposta pode ser feita, pessoalmente, nos seguintes locais, dias da semana e horários:

CENTRO CULTURAL BANCO DO NORDESTE-FORTALEZA
Rua Floriano Peixoto, 941 - Centro
Fortaleza-CE
Fone: (85) 3464-3108
(De terça a sábado, no horário de 10h às 20h; e domingo, de 10h às 18h)

CENTRO CULTURAL BANCO DO NORDESTE-CARIRI
Rua São Pedro, 337 - Centro
Juazeiro do Norte-CE
Fone: (88) 3512-2855
(De terça a sábado, no horário de 13h às 21h)

CENTRO CULTURAL BANCO DO NORDESTE-SOUSA
Rua Cel. José Gomes de Sá, 07 - Centro
Sousa-PB
Fone: (83) 3522-2980
(De terça a sexta-feira, no horário de 13h às 21h, e sábado, de 14h às 22h)

Pelo correio postal, os proponentes podem enviar seus projetos, como correspondência registrada com Aviso de Recebimento (AR), em envelope lacrado, devidamente identificado com o seu nome e endereço, com data de postagem não posterior a 18 de setembro de 2009, para qualquer um dos endereços citados.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Silêncio dos Tambores

Depois de sacralizar as ruas da cidade, catopês, marujos e caboclinhos recolhem instrumentos e vestimentas aos seus barracões. No próximo mês de agosto, os tambores voltam a ecoar, anunciando um novo tempo sagrado.


Durante cinco dias, de 19 a 23 de agosto, Montes Claros viveu momentos marcantes na sua história, com a realização das Festas de Agosto, que acontecem na cidade há mais de 160 anos.

Os ternos de catopês, marujos e caboclinhos, de vestes renovadas e novos integrantes – é surpreendente o número de crianças que participam dos festejos –, atraíram a atenção do público que acompanhou atento aos cortejos dos devotos que cantaram e dançaram pelas ruas do centro da cidade.

Segundo o coordenador da festa e presidente da Associação dos ternos de catopês, marujos e caboclinhos de Montes Claros, mestre João Pimenta dos Santos – o Mestre Zanza -, as Festas de Agosto em Montes Claros são diferentes de todas as cidades que já visitou.

- Em Montes Claros a festa reúne pessoas de todas as classes sociais, e todos querem ser festeiros. Tem setenta e dois anos que participo da festa e na agenda tem nome de pessoas que querem ser os patronos para os próximos quarenta anos, no mínimo – ressalta ao catopê.


Mesmo tendo passado por uma angioplastia preventiva recentemente, Mestre Zanza conduziu os cortejos durante os cinco dias de festa e disse que está preparado para continuar seu trabalho até quando Deus lhe permitir.

- Essa promessa foi feita pelos meus antepassados e, enquanto Deus me der vida e saúde, vou cumprir – completa Mestre Zanza, que no dia 16 de agosto comemorou 74 anos de idade.

31º Festival
Paralelamente à programação religiosa, o 31º Festival Folclórico de Montes Claros reuniu um grande público em torno da Igrejinha do Rosário, que assistiu a shows musicais, apresentação de grupos folclóricos, além de apreciar comidas, bebidas e artesanato em vários estilos, vendidos nas barraquinhas montadas ao longo da avenida Coronel Prates.

Em parceria com o conservatório estadual de Música Lorenzo Fernandez, o festival também promoveu oficinas de musicalização, com participação gratuita da comunidade.

Entre as atrações do Festival, estiveram Jackson Antunes, Téo Azevedo, Marimbondo Chapéu, Pedro Boi, Carlos Maia e Charles Boavista, Xangai, Bruno e Fabiana, Déborah Rosa, Banda Cabal, dentre outros , que se apresentaram no palco principal, além de dezenas de grupos folclóricos, que se apresentaram em um palco montado em local estratégico, paralelo à avenida.

Encerramento
Além dos ternos de congado de Montes Claros, a festa contou com vários grupos de outras cidades mineiras, que participaram do Encontro de Ternos de Congado de Minas Gerais, que acontece na cidade desde 1991. Após a procissão de encerramento, que aconteceu na tarde do domingo, 23, os grupos se reuniram na Igrejinha do Rosário, onde assistiram à missa celebrada pelo padre João, coroaram reis, rainhas e imperadores e escolheram os mordomos da próxima festa. Os mastros em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Divino Espírito Santo foram descerrados e os devotos reiteram a promessa de voltar no ano seguinte para cumprir nova missão.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Montes Claros vive um tempo sagrado

Começam hoje os festejos religiosos, motivo maior da realização das Festas de Agosto. Depois de hasteada a bandeira em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, Montes Claros se transforma em um templo sagrado


Ora viva e reviva viva São Gonçalo, viva
Viva Mestre Zanza, viva
Viva os Caboclinhos e os Marujos, viva
Viva os catopês, viva




Quarta-feira, 19 de agosto de 2007. Pelas ruas de Montes Claros, catopês, marujos e caboclinhos cantam a própria fé.

Popularmente conhecida como Festa dos Catopês, as festas de agosto, que remontam a própria história de Montes Claros, volta a inebriar os sentidos com o ritmar dos tambores, a alegria dos cantos e bailados e as cores vibrantes que deixam a cidade em euforia.

Na noite de hoje, os ternos de Catopês se reúnem na sede da Associação dos ternos de catopês, marujos e caboclinhos de Montes Claros, no bairro Morrinhos, de onde saem em cortejo até a Igrejinha do Rosário, no centro da cidade, onde será erguido o mastro com bandeira em homenagem a Nossa Senhora do Rosário.

Participante da festa há 70 anos e completando 74 anos de idade nesta quinta-feira, 16 agosto, João Pimenta dos Santos, o Mestre Zanza, acompanhado de seus familiares e catopês, devotos de Nossa Senhora e Divino Espírito Santo, ergue a bandeira em homenagem à rainha da festa.

Entre cantos e vivório, enquanto o mastro é erguido, os devotos saúdam os catopês ausentes (todos os Catopês que já morreram) e os presentes (os vivos e os mortos que ainda não saíram deste mundo).

Tradicionalmente, neste dia, os catopês não usam seus trajes de festa. Segundo o coordenador da festa e presidente da Associação, Mestre Zanza, é necessário um rito de passagem, que faça a conexão entre os três planos do mundo dos catopês para que o eixo do mundo se concretize e sacralize o tempo festivo. Por isso catopês vestem trajes comuns no primeiro dia da festa.

A partir desse ritual, reis, rainhas, imperador e imperatriz reinam durante três dias em Montes Claros, protegidos pelos respectivos santos padroeiros.

Nas manhãs de quinta-feira, de sexta-feira e de sábado os ternos saem do Automóvel Clube de Montes Claros, percorrem as principais ruas do centro da cidade até chegarem à igrejinha do Rosário, na avenida Coronel Prates, onde é celebrada missa.

O reinado desfila sob um pálio, uma espécie de manto ou capa, precedido por príncipes e princesas representando a corte. A banda de música do 10º Batalhão de Polícia Militar completa o cortejo alternando dobrados com os cantos dos dançantes.

A cada dia, após o ritual, os mordomos oferecem almoço aos participantes de seus respectivos grupos. Na hora da refeição os catopês cantam: Viva o rei, viva a rainha, vamos comer arroz com galinha.


Após o cortejo da manhã de sábado, os ternos recebem os grupos de congado visitantes que vêm participar do Encontro de Ternos de Congado de Minas Gerais. Até domingo os grupos se reúnem, fazem visitas às famílias da comunidade que pedem oração, e somente no final da tarde de domingo voltam a desfilar pelas ruas.

Nesse dia, é realizada a procissão de encerramento, com participação de todos os ternos de Montes Claros e grupos visitantes, que colocam suas vestimentas bem lavadas, dançam e cantam ao som de tambores, em homenagem aos santos devotos. Após a celebração da última missa na igrejinha do Rosário, reis, rainhas e imperadores são coroados; são escolhidos os mordomos da próxima festa; os mastros são descerrados e os devotos reiteram a promessa de voltar no ano seguinte para cumprir nova missão.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Festas de Agosto

Unidade Identitária
Com características próprias e estilo único, as Festas de Agosto de Montes Claros deixaram de pertencer a um segmento local para se tornar um ritual de representação da identidade do povo montes-clarense

Jerúsia Arruda

As Festas de Agosto começam na próxima quarta-feira, dia 19. A Associação dos Ternos de Catopês, Marujos e Caboclinhos se prepara para os cortejos de sacralização, que acontecem de 20 a 23 de agosto. Sob a coordenação de Mestre Zanza, os seis grupos de congado de Montes Claros - um de Caboclinhos, dois de Marujos e três de Catopês -, saem em cortejo pelas ruas da cidade, expressando sua fé, devoção, religiosidade e alegria, numa manifestação que sintetiza dimensões estéticas e valores simbólicos que dão vida e forma às suas tradições.

As Festas de Agosto se confundem com a própria historia de Montes Claros, e acontecem desde que essa ainda era uma fazenda, no início do século XVIII.

Cada vez mais presente na vida do povo montes-clarense e norte-mineiro, a festa se tornou a maior expressão cultural da região e é tema de estudo para as escolas e academias, que buscam pelo entendimento dos significados de seus símbolos e rituais.

Um questionamento recorrente durante a festa é o porquê de os congadeiros demorarem tanto tempo para percorrer o trajeto do cortejo, que sai do Automóvel Clube, na Praça Gonçalves Chaves, até a Igrejinha do Rosário, na Avenida Coronel Prates.

Mestre Zanza explica que, quando os catopês, marujos e caboclinhos saem em cortejo pelas ruas de Montes Claros, com suas bandeiras e mastros em homenagem aos santos devotos, a proposta é cumprir o ritual de sacralizar os espaços para a passagem dos reis, rainhas e imperador. Segundo o Mestre, é necessário retirar das ruas as energias que não condizem com a sacralidade que se instaura na cidade durante os festejos, e o cortejo dos ternos representa uma limpeza para unificar as partes fragmentadas pela profanidade.

Como a cidade continua sua rotina, com o ir e vir de pessoas e carros, se uma rua for sacralizada e alguém passar - a pé, de carro, de moto, até mesmo um cachorro -, antes que o reinado passe pelo espaço, o ritual é quebrado e tem que ser refeito.

Segundo Mestre Zanza, durante o cortejo, no ir e vir, os catopês estão fazendo uma limpeza energética pelas ruas.
- Os reis não podem andar por um espaço fragmentado, é preciso que ele seja transformado em espaço sagrado. Os meninos vestidos de rei são a prefiguração do rei nagô, que faz a conexão com o sagrado. Se a noite é a bandeira que faz a conexão com o sagrado, durante o dia são os reis. Qualquer coisa que passar por esse espaço quebra o ritual, então os catopês têm que voltar até o rei para se potencializar com sua energia - porque ele representa um canal de energia sagrada para os catopês -, e, então começar todo o ritual outra vez – explica Mestre Zanza.

Isso explica o motivo da demora. O ideal seria que, diante do cortejo, as pessoas esperem na calçada até que este se complete, para, então, atravessar a rua.

Encontro de Ternos

Em 1991 foi instituído em Montes Claros o Encontro de Ternos de Congado de Minas Gerais, e, após o cortejo da manhã de sábado, a Associação dos Ternos de Montes Claros recebe os grupos visitantes de todo estado, que vêm participar da festa. Neste ano, o Encontro acontece no dia 23 de agosto, às 9 horas, na sede da associação. Os grupos visitantes também participam da procissão de encerramento e, junto com os grupos locais, com suas vestimentas bem lavadas, dançam e cantam ao som de tambores em homenagem aos santos devotos. Após a celebração da última missa na igrejinha do Rosário, reis, rainhas e imperadores são coroados; são escolhidos os mordomos da próxima festa; os mastros são descerrados e os devotos reiteram a promessa de voltar no ano seguinte para cumprir nova missão.

Festival
Enquanto os catopês, marujos e caboclinhos se preparam para cumprir sua missão de instaurar um tempo sagrado, paralelamente, a secretaria municipal de Cultura acerta os últimos detalhes para a realização 31º Festival Folclórico.

Criado na década de 1960, como um apoio às tradicionais Festas de Agosto, o Festival Folclórico é realizado na praça Dr. Chaves – Praça da Matriz -, em frente à igreja da Matriz de Nossa Senhora e São José, com shows musicais, barraquinhas de comidas, bebidas e de artesanato, oficinas, palestras, apresentação de grupos folclóricos, reunindo um público ainda maior.

Folclore e cultura Popular
A partir de uma posição consensual dos folcloristas brasileiros, a Carta do Folclore Brasileiro, publicada em 1951, define folclore como a maneira de pensar, sentir e agir de um povo, preservada pela tradição popular e pela imitação, e que não seja diretamente influenciada pelos círculos eruditos e instituições que se dedicam, ou à renovação e conservação do patrimônio científico humano, ou à fixação de uma orientação religiosa e filosófica.

Durante o Congresso Brasileiro de Folclore, ocorrido em Salvador de 12 a 16 de dezembro de 1995, a Carta de 1991 foi reelaborada, considerando as mudanças da contemporaneidade, e folclore é definido como o conjunto das criações culturais de uma comunidade, baseado nas suas tradições expressas individual ou coletivamente, representativo de sua identidade social. A carta também ressalta que o folclore e cultura popular podem ser entendidos como expressões equivalentes.

Todas essas ocorrências em torno do folclore/cultura popular parecem nos revelar a existência de um objeto em movimento permanente, cujo conceito é conseqüência do surgimento da idéia de progresso, e estimula reflexões, debates, encontros e desencontros, configurando um campo de altercação polêmico e instigante e o Festival representa um bom momento para jogar luz sobre essas discussões.

Por exemplo, antes, os marujos usavam o pandeiro quadrado, feito à base de couro, antes de veado e, mais recentemente, de bode. Atualmente, muitos utilizam o pandeiro de plástico ou de fibra, usado nas rodas de pagode, e isso, além de mudar a sonoridade, descaracteriza o grupo. Também se perdeu muito a teatralização dos grupos. Os marujos já não fazem, como antes, a morte do patrão, devido ao trânsito que impede que os devotos permaneçam por muito tempo parados na rua; os caboclinhos não fazem mais a trança do cipó e os catopês não dançam o sarambê. Além disso, muitas das canções se perderam da memória dos grupos.

As Festas de Agosto de Montes Claros, por suas especificidades, são únicas, diferentes de todas as festas de congado realizadas em Minas Gerais e no Brasil. Com o resgate desses elementos tradicionais de cada grupo, que, de modo singular, compartilham do mesmo tempo e espaço para realizar seus festejos, a tendência é que esta se torne cada vez mais específica, unifique ainda mais todas as classes, crenças e credos, e se consolide como a festa de representação da identidade do povo montes-clarense.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Ópera do Malandro

Há 30 anos, era lançada a trilha sonora

Em 1979, Chico Buarque lançava o disco com a trilha sonora da "Ópera do Malandro", inspirada nos alemães Bertolt Brecht e Kurt Weill. Para relembrar, lanço mão de um texto de Felipe Tadeu, que me foi enviado pelo colega nordestino, Luciano Sá.

Quando os diretores de teatro Cláudio Botelho e Charles Moeller revelaram o principal motivo que os levou a encenar em 2003 a primeira montagem de "Ópera do Malandro" no século 21, ambos foram taxativos: "Chegamos à Ópera do Malandro pela paixão. Quem ouviu aquele famoso LP duplo lançado em 1979 ficou fissurado naquilo, nunca esqueceu", afirmavam em coro, constatando estar ali "o Chico do teatro na sua absoluta madureza".

O álbum com a trilha sonora do musical assinado por Chico Buarque está completando 30 anos de lançamento. O disco é considerado a melhor lembrança da recriação que o compositor e cantor carioca fez das peças "A Ópera dos Três Vinténs" (1928) dos alemães Bertolt Brecht e Kurt Weill, e da "Ópera dos Mendigos" (1728) do inglês John Gay, com música do alemão Johann Pepusch.

Muitas das canções compostas para a peça brasileira acabaram entrando no rol das obras-primas de Chico Buarque de Hollanda, como "O Meu Amor", "Folhetim", "Geni e o Zepelim", "Homenagem ao Malandro" e "O Malandro", a Die Moritat von Mackie Messer composta por Kurt Weill e letrada por Brecht, que Chico converteu em samba. Ou ainda "Canção Desnaturada", de grande densidade trágica.

O nascimento da ideia
A possibilidade de Chico Buarque escrever sua adaptação para a peça de Brecht e Weill surgiu numa conversa com Ruy Guerra, cineasta moçambicano radicado no Brasil. No entanto, o plano só começaria a se tornar realidade anos depois, quando o diretor teatral Luis Antônio Martinez Corrêa procurou Chico Buarque, sugerindo que os dois montassem a peça juntos. Corrêa já havia feito a tradução da ópera de John Gay, que serviu também de ponto de partida para Brecht e Weill escreverem "A Ópera dos Três Vinténs".

"A Ópera do Malandro" estreou no Teatro Ginástico no Rio de Janeiro em agosto de 1978, e do elenco faziam parte atores de grande prestígio como Ary Fontoura, Marieta Severo, Maria Alice Vergueiro e Otávio Augusto, numa montagem que foi grande sucesso de bilheteria.

Para levar o musical aos palcos, Chico Buarque e Corrêa precisaram enfrentar inúmeros desafios, que iam da pressão dos patrocinadores da peça, que apressaram o andamento dos preparativos para a estreia, até os problemas que Chico teria com a censura.

Canções inesquecíveis
A trilha sonora do musical só seria lançada um ano após a estreia por vontade do próprio Chico, que evitou que o disco saísse antes da montagem para que as músicas não ficassem banalizadas e esvaziassem o musical. O compositor chegou a pensar em gravar o disco duplo com alguns dos atores interpretando as canções, mas a Philips (hoje Universal), sua gravadora na época, preferiu optar por cantores profissionais já conhecidos do grande público.

O resultado foi um álbum com gravações de João Nogueira, Gal Costa, Moreira da Silva, Marlene, Alcione e Francis Hime. Além deles, participaram também os grupos MPB-4, A Cor do Som, e Frenéticas, bem como as cantoras Nara Leão e Zizi Possi.

Multicromática, a musicalidade de Chico estava à flor da pele, passando por diversos gêneros musicais brasileiros e latino-americanos como choro, xaxado, bolero, samba, marcha carnavalesca, mambo, tango, e chegando até o rock e o charleston norte-americanos.

Ou seja, tudo aquilo que levou o crítico musical Tárik de Souza a perceber no autor de "Apesar de Você" um habilidoso criador, que não se deixa escravizar pela estética tradicionalista: "Musicalmente liberado para incursionar em todos os ritmos e gêneros, Chico tornou-se, paradoxalmente, um incendiário tropicalista".

Arturo Gouveia, professor de Literatura Brasileira e doutor em Letras pela USP, endossa a visão de Tárik em seu ensaio "A Malandragem Estrutural", publicado no livro Chico Buarque do Brasil, da Editora Garamond e Edições Biblioteca Nacional: "A Ópera do Malandro irmana-se com muitas das ambições vanguardísticas da primeira metade do século 20. Embora Chico Buarque não se declare vanguardista ou não demonstre, em suas concepções, qualquer afinidade eletiva com esses movimentos de ruptura, há vínculos inegáveis que podem até escapar da consciência imediata da autoria".

Chico e os alemães
Pouco antes de encarar a tarefa de adaptar as peças alemã e inglesa para a realidade carioca, Chico Buarque já havia se lançado numa bem-sucedida versão de "Os Saltimbancos", original dos irmãos alemães Jacob e Wilhelm Grimm, um trabalho realizado em parceria com o italiano Sérgio Bardotti e o argentino Luis Enríquez Bacalov.

A história contada na "Ópera do Malandro" se passa durante a Segunda Guerra Mundial, quando Getúlio Vargas era presidente do Brasil. O epicentro é o bairro boêmio da Lapa. Chico optou por inserir "A Ópera dos Três Vinténs" na década de 1940 como estratégia para fugir da censura.

"Até Brecht tomou suas cautelas e localizou sua ópera no início do século. John Gay ainda colocou no palco o ministro da Justiça de sua época, 1728. Mas hoje isso não é possível. Fatalmente seriam identificados os policiais corruptos com os que todos conhecem. Os problemas que surgiriam não deixariam a peça ser encenada", afirmou Chico à imprensa na época do lançamento da peça.

Bertolt Brecht, o mito
Quando Chico Buarque escreveu a "Ópera do Malandro", ele já vinha de experiências muito intensas com o teatro. Primeiro ao compor em 1967 (um ano após o estouro com "A Banda") a trilha de "Morte e Vida Severina", sobre poema de João Cabral de Mello Neto. Depois viriam "Roda Viva", peça que provocou sua prisão e posterior autoexílio em Roma, "Calabar", que foi proibida pelos militares, e "Gota D'água" (escrita com Paulo Pontes).

Nos anos 1960, Bertolt Brecht era uma das maiores referências dos principais autores e grupos teatrais brasileiros. De Augusto Boal a Oduvaldo Vianna Filho, de José Celso Martinez Corrêa a Plínio Marcos, passando por Gianfrancesco Guarnieri e muitos outros, as peças de Brecht eram sinônimo de engajamento político e de pesquisa por novas formas de dramaturgia.

Sua teoria do distanciamento crítico, baseada na ideia de que uma peça teatral não deveria transportar o espectador para um mundo fictício, e sim despertá-lo para a realidade reflexiva, inspirou grupos como o Arena, o Oficina, o Opinião e posteriormente o Ornitorrinco a criar aquele que é para muitos o melhor momento da história do teatro brasileiro.