quarta-feira, 13 de maio de 2009

Cia. do Sonho

Companhia comemora dez anos com casa nova

Na caixa de mensagem, um convite especial da produtora cultural, Solange Sarmento para visitar o galpão da Cia dos Sonhos, em Montes Claros - localizado à Rua Juramento 325, Bairro Cintra, logo depois do viaduto do Roxo Verde, na avenida de fluxo de ônibus, antes de chegar ao posto de combustíveis .
Com o convite, as novidades da Cia do Sonho para 2009.

A Associação Cultural Companhia do Sonho comemora dez anos se dando um belo presente: faz adaptações no galpão-sede para melhor realizar suas atividades culturais e artísticas.

No início de 2008, a Cia do Sonho alugou um galpão na Rua Juramento 325, Bairro Cintra para ser sua sede, espaço que atenderia aos ensaios do espetáculo “Folianus Catopê” e que também seria utilizado para apresentações e oficinas. O galpão alugado parecia mesmo uma imensa garagem, já que tinha paredes em três lados apenas, ou seja, não era fechado, o que não proporcionava segurança e também restringia as atividades por não ter vedação de luz, e outros requisitos para apresentação de determinados espetáculos.

Neste ano, a Cia do Sonho decidiu fechar o galpão, construindo ali um espaço mais apropriado para receber atividades artísticas e também para dar mais segurança ao local. O espaço passa a abrigar um telecentro comunitário, doado à Associação, por verba de Gabinete do Deputado Ruy Muniz, advinda na Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, através da Secretaria de Estado para o Desenvolvimento dos Vales do Jequitinhonha, Mucuri, São Mateus e do Norte de Minas, e pelo Instituto de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas.

A Cia do Sonho também foi contemplada com o “Prêmio Cena Minas 2009” que a possibilita oferecer à comunidade Cursos de Artes Gratuitos, além de manter um intercâmbio cultural e artístico com o Grupo Teatral Pirraça em Praça, da cidade de Fruta de Leite.

Programação
Neste semestre, a Cia abre vagas para os cursos de Contação de Histórias, Flauta Doce e Artesanato em Jornal (interessados devem ir ao galpão, na Rua Juramento, no horário de 9h às 12h e de 14h às 17h30).

Além de servir de espaço para estas atividades, o novo galpão será utilizando para ensaio do espetáculo “Folianus Catopê” (foto), texto de Paulo Henrique Dias Costa, sob a Direção de Solange Sarmento e Paulo Henrique, trabalho contemplado pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais, a ser apresentado, ainda neste semestre, nas cidades de Taiobeiras e Brasília de Minas;

Ensaio do espetáculo “Andarilho do São Francisco”, texto de Amelina Chaves, sob a Direção do Joba Costa, que estréia no próximo mês de agosto e será apresentado nas cidades de Januária, São Francisco, Pirapora e Buritizeiro;

Ensaio do espetáculo de bonecos “Vila Vai quem Quer”, que trata do problema da dengue, levado às escolas públicas pelo SESC-MG de Montes Claros;

Ensaio do “Cantocia” uma intervenção musical teatralizada, com canto e teatro de cantigas de trabalho de várias regiões do país, encomendado pelo SESC-MG de Montes Claros para ser apresentado na Festa de 1º de Maio, realizada pela prefeitura de Montes Claros.

Cia. dos Sonhos
A Associação Cultural Companhia do Sonho, sociedade civil de direito privado, de caráter artístico e sócio - cultural, sem fins lucrativos criada em mil novecentos e noventa e nove, quando iniciou seu ensaio do espetáculo “A Caravana da Ilusão” e oficializada judicialmente em 2006, faz neste ano de 2009 um investimento em seu espaço físico (mesmo que este ainda seja locado), para bem atender suas atividades, e, como diz Solange, “para cada vez mais continuar investindo em sonhos. Sonhos estes que têm beneficiado, paulatinamente, uma camada da população que nem sempre tem oportunidade de receber ferramentas e produtos culturais, e que atendam a um dos direitos humanos ainda pouco usufruídos pela população em geral: o direito à Cultura”.

terça-feira, 12 de maio de 2009

João Rodrigues

Os mistérios e incógnitas de uma obra que testemunha a expressão e dimensão do humano em seu tempo e espaço

Jerúsia Arruda

Montes Claros iniciou o mês de maio com um plus a mais. A exposição individual do artista plástico João Rodrigues na galeria de artes Márcia Prates fez o povo montesclarino reviver o clima da mais pura arte típica da cidade, tão decantada em prosa e versos.

Como ninguém é melhor para falar da obra que seu próprio criador, reeditamos uma entrevista exclusiva feita com o artista, em 2006, quando este ainda era secretário de Cultura de Montes Claros. Na entrevista, João Carlos Rodrigues Oliveira fala sobre suas inquietações, suas experiências como engenheiro e arquiteto e a coragem e ousadia que teve ao abrir mão da segurança financeira que a profissão lhe proporcionava em troca da realização do sonho e sedimentação da vocação natural para as artes plásticas.

A história nos mostra que a mudança foi acertada e hoje João Rodrigues é um dos mais importantes e emblemáticos artistas plásticos do país, que em 20 anos produziu mais de 1000 telas, sempre com uma linguagem contemporânea, expressiva, sincera, intimista, sensual e extremamente emocionante.

Casado com Cláudia, pai de Clarissa e dos gêmeos, Felipe e Renato - campeões brasileiros de tênis (participaram do campeonato brasileiro em 2006 disputando a final, um com o outro) -, João Rodrigues, 53 anos, nasceu em Montes Claros, onde viveu a infância e juventude, se mudando em seguida para Belo Horizonte para estudar.

A constante busca pelo novo o trouxe à administração pública e, como secretário, tentou mudar o tradicional modelo de política governamental de cultura, que privilegia governantes, para uma gestão de políticas públicas culturais que priorize projetos e busque a descentralização e democratização do acesso aos recursos pelos artistas e associações de classe.

Com uma obra claramente produzida e configurada a partir si próprio, de caráter intimista confesso, o artista já esteve em exposição individual em Paris-França (Galerie Expression Libre), Madrid – Espanha (Casa do Brasil), Londres-Inglaterra (Canning House Gallery), Rio de Janeiro-Brasil (Museu Nacional de Belas Artes), coletiva em Belo Horizonte-Brasil (Palácio das Artes), entre outras.
Em entrevista, ele revela sua tenacidade, seu desejo de estar em constante movimento e do
banho de gente que tomou como secretário.

João Rodrigues por João Rodrigues
Nasci em Montes Claros em 11 de julho de 1954, onde passei minha infância e juventude. Aos dezessete anos me mudei para Belo Horizonte para estudar Engenharia Mecânica e foi lá que comecei minha vida profissional, me casei e tive meus três filhos. Minha vida em Belo Horizonte foi mais em função da Engenharia

Você também é arquiteto?
- Chegou um momento que eu descobri que a Engenharia não era o que eu realmente queria, mas já estava trabalhando em uma empresa há quase dez anos, na Mendes Júnior, fazia parte do organograma, tinha minha vida pronta. Eu devia ter uns 28 anos e descobri que não estava feliz. Comecei fazer Arquitetura também e descobri que era meio de caminho. Na verdade, o que sempre gostei foi de desenhar, de pintura, das artes plásticas, então fiz o exame de seleção na Escola Guignard - na época ainda não se chamava vestibular - e passei a estudar Artes Plásticas à noite. Quer dizer, eu era engenheiro todo bacana, aquele engenheirão, já tinha minha casa, meu clube, meus três filhos já tinham nascido, e, à noite, estudava artes. Isso durante três anos – não cheguei a fazer o último ano.

Quando começou sua relação com a pintura?
- Desde criança. Tem coisas que minha mãe guarda que fiz quando era menino. Lembro que quando eu tinha dez, onze anos, havia uns gibis que traziam sempre um apelo para um curso por correspondência, da Escola Pan-americana de Artes. Fiz o teste, passei e me inscrevi no curso de desenho.

Quem era seu professor?
- Você não vai acreditar, mas meu professor era o Ziraldo. Até hoje eu tenho os desenhos que eu mandava para lá e vinham todos corrigidos e anotados, sempre com o Z de Ziraldo.

Você entendia de Artes Plásticas, se interessava pelas obras de outros artistas?
- Me interessava, mas naquela época a informação que a gente tinha era muito limitada, eu visitava os museus através do Tesouro da Juventude (de Glauber), as pinturas de Goya, Portinari, mas realmente não tinha muito acesso.

Como que você aprendeu a gostar, a apreciar a arte?
- Tinha uma pessoa muito interessante que morou em minha casa que desenhava muito bem e me incentivou de alguma forma a também buscar esse desenho. Foi quando eu fiz o curso. Aí terminei o científico e descobri que tinha que fazer o vestibular. Naquela época havia apenas dois caminhos: Engenharia ou Medicina. Por exclusão escolhi Engenharia e montei minha vida em função dela. Consegui um cargo importante, tinha apartamento, cuidava da família, mas me bateu aquela coisa, olhei ao redor e decidi mudar. Fiz Arquitetura, mas descobri que tinha a mesma coisa técnica da Engenharia. Desisti e fui estudar na Guignard. Passados três anos, pedi demissão da empresa, numa sexta-feira, e na segunda-feira já estava com caminhão de mudança para Montes Claros. Foi uma coisa rápida, mas se fosse pensar, ficaria mais difícil tomar a decisão. Claro que não foi de qualquer jeito. Eu tinha um amigo que tinha uma construtora que me arrumou um trabalho de meio expediente para garantir o sustento de minha família. Trabalhava como arquiteto de manhã, e à tarde me enfiava no atelier. Tinha uns 33 anos na época.

Aí começou a produção do artista.
- É, eu pintava, pintava, depois juntava tudo no carro e saía fazendo praça pelo país. Ficava uns três ou quatro dias, e sempre voltava com um presentinho. Até hoje me lembro que meu filho Felipe, então com três anos, ficava reparando, sabia que eu saía para vender os quadros, e uma vez e me perguntou como que eu fazia, se eu ficava gritando na rua “olha os quadros, olha os quadros!” (risos). Você quer saber? Era uma coisa parecida porque eu chegava, por exemplo, em uma galeria em Goiânia e a dona me recebia com aquela empáfia, eu tirava tudo do carro ela olhava, olhava e escolhia um e pedia para deixar consignado. Aí eu arrumava tudo e colocava no carro de novo e ia para outra cidade.

E o resultado?
- Esse trabalho deu certo porque a pessoa que tinha ficado com o quadro consignado, vendia e pedia para mandar outro. Mandava. Depois já não era mais consignado, já comprava porque podia fazer um negócio melhor, vender pelo preço que quisesse. E aí a coisa começou a andar e já não dependia mais do trabalho como arquiteto.

Como você avalia seu trabalho?
- A gente sempre tem as influências das pessoas gosta, não com a intenção de copiar, de reproduzir, mas o traço é influenciado para um determinado lado. Vou te dizer uma coisa e é algo que afirmo, qualquer crítico pode dizer que meu trabalho não vale nada, mas nenhum deles vai dizer que não é verdadeiro, sincero. Se você olhar para meu trabalho vai perceber que existem informações que são minhas, do meu tempo. Se é bom, importante ou não, isso não discuto, mas que é sincero, eu te garanto.

Desde o começo você já sabia o estilo que queria seguir ou foi descobrindo aos poucos?
Minhas telas têm elementos como textos, palavras que eram importantes que fossem externadas, que eu escrevi e depois pintei por cima, e que nem sempre dá para decifrar num primeiro olhar. É como cartas que você escreve para si mesmo e depois meio que apaga. Mas você vai ver que as figuras sempre têm essa carga de dramaticidade que, de repente, se você buscar em alguns artistas do passado, vai perceber que eles também tiveram essa orientação. Não é um trabalho feito para enfeitar um ambiente, porque pode inquietar.

Aquela coisa do quadro combinar com o sofá.
- É, o dia que jogar o sofá fora, joga a tela também. (risos).

Para quem você pinta?
- As pessoas que compram minhas telas sentem a força de uma informação. Somos meio parecidos um com o outro e talvez o que expresso, mesmo que a pessoa não consiga explicar, tem a ver com a representação daquilo que ela também é.

Quem você citaria como inspiração?
- Francis Bacon, por quem sempre tive uma atenção. Portinari. É difícil falar porque são tantos. Mas é o seguinte, aquilo te move num momento, você sente, mas depois se esquece, porque na verdade o que busco é representar meu tempo.
Não existe ninguém mais contemporâneo do que nós que estamos vivendo hoje, agora. Quando você vê a produção de um artista, é capaz de entender o tempo em que ele viveu pela obra que criou.

Você expressa o sentimento humano de uma forma ora realista, ora abstrata, mas sempre com uma linguagem muito forte, tendo o elemento masculino como personagem. Como conseguiu sintetizar esse estilo?
- Talvez tenha sido a necessidade de me colocar ou de colocar meu pensamento ali. Minhas telas são sempre povoadas por elementos masculinos. Meu mundo é masculino. Eu não conheço a cabeça feminina.

Nem tente.
- (risos) Como minha pintura carrega meus dramas e eles são masculinos, é natural que essas paisagens humanas se apresentem na minha forma. Teve uns momentos em que pintei uma natureza morta...

Sério? Não imagino você pintando natureza morta.
- (risos) Mas acho que fiz para agradar uma pessoa ou outra, porque sempre tem isso, de alguém encomendar, dizer que quer uma tela de um jeito assim ou assado.

Dá para fazer isso?
- Dá, mas não tem importância. Quando faço uma tela para agradar outra pessoa é até divertido. Às vezes chega uma madame que ouviu alguém falar do meu nome. Quando chega no atelier toma um susto, mas percebia que não queria retroceder. Nessa hora é preciso ter um discurso para não vender ao invés de vender, porque você percebe que a expectativa dela era outra.

Tecnicamente falando, como sintetizou esse estilo?
Quando cheguei a Guignard já desenhava muito bem e, pela minha formação de engenheiro, achei que fosse encontrar lá fórmulas de composição de telas, proporções, enfim. Mas passou um mês e nada, e aquilo foi me dando uma agonia. Eu tinha um mestre que tinha acabado de chegar depois de oito anos na Alemanha e eu sentia que não estava aprendendo nada. Comecei até a insurgir outros colegas. Um dia tive uma discussão com esse professor - eu estava exigindo pedagogia para a arte, e isso não existe. Então ele falou que enquanto não destruísse com meu desenho não estaria satisfeito, esse era o seu papel, e que se não me desse a esse propósito que saísse da escola naquele dia e fosse fazer um curso de desenho técnico. Tive que destruir toda a formação que já tinha e, a partir do vazio, como diria o Guimarães Rosa, é que eu tive a possibilidade de uma coisa nova, sem resquícios de influências que pudessem travar minha expressão. Foi lá que aprendi isso. Será que você tem o que ensinar para um artista? Será que um artista tem o que aprender? Eu diria até que sim, que técnicas facilitam a expressão.
Tem um amigo meu – eu acho que esse amigo sou eu mesmo – que diz que o mundo está dividido em dois: o artista e o modelo. Na verdade você tem que desaprender, zerar tudo para que seja pertinente o real sentido da arte.

Tomando como referência essa coisa do externar o interior, seu trabalho então é meio, vamos dizer, biográfico, auto-retrato?
- Não sei bem, mas os signos que estão neles são das minhas questões, do meu humano, das minhas inquietações, dos meus dramas, tá tudo ali.

Nesses vinte anos você tem idéia de quantas telas já produziu?
- Mais de mil.

E onde elas estão?
- Espalhadas pelo mundo. Não tenho nenhuma comigo, termino de pintar e já tem destino certo.

As artes plásticas, como todas as criações artísticas, obedecem a tendências do mercado. Como você vê a bienal, o que ela tem de importante e de nocivo?
- Eu estaria muito tentado a dizer que a bienal hoje virou um espaço de experimentação demais, de coisas que não têm o menor sentido, que as pessoas colocam ali para que outras encontrem um sentido que realmente não existe. Tem obras da maior importância, claro, mas pelo menos dois terços do espaço é dado à experimentação e não tem a menor importância.

Como é sua experiência com exposições? Onde esteve?
- Já fiz individuais no Brasil, Europa e Estados. Passei quinze anos trabalhando com a galeria Visual, que tinha uma central e cinco-seis outras galerias, fazia a exposição e eu nem sabia. Quando me avisava já estava tudo pronto.

Com relação à aceitação – talvez essa palavra seja um pouco redutiva – você percebe alguma diferença do público brasileiro e do de outros países em relação ao seu trabalho?
- Não acompanhei nenhuma crítica. Às vezes as pessoas acham que é o contrário, mas o que sei é que na Europa, e até nos Estados Unidos, a pintura é muito conservadora, eles não se dão muito a experimentações como o brasileiro, que usa essa criatividade, esse sincretismo. A não ser uns ou outros, mas como um todo, não. E no Brasil todo mundo, hoje, experimenta.

Mas você acha que o mercado externo aprecia esse trabalho de experimentação feito no Brasil?
- Tem segmento no mercado que absorve, como aqui também tem segmento que absorve o trabalho mais acadêmico, mais comportamental, mais comportado, vamos dizer assim.

De um modo geral, como é o mercado para o artista plástico? Dá para viver só de arte?
- É muito difícil. Como na minha história, fiz praça. Como disse meu menino, tentando vender banana mesmo. Mas depois parece que engrena, aí você não tem mais aquela preocupação de não dar conta. A gente vive certa insegurança durante um tempo, mas depois vai dando certo. O negócio é sentar e trabalhar.

E como é sua produção hoje?
- Antes da secretaria eram de sete a nove telas por mês. Hoje são uma, duas. Até que tire a roupa de secretário, faça minhas orações, uma hora de reflexão para depois entrar na tela, aí só me resta uma ou duas horas para pintar.

O mercado está sempre propenso a absorver novos trabalhos. Para quem está ingressando nas artes plásticas agora, existe um caminho a seguir, que conselhos você daria?
- Primeiro tem que estar seguro de que é isso mesmo que quer, porque se for verdadeiro, vinga. Não estou dizendo que a pessoa vai ficar rica com isso, mas vai ter uma vida digna. Com dificuldades, mas, pelo menos, uma vida sincera.

Você fala muito em verdade, em sinceridade, e arte é uma forma de comunicação muito veemente. Qual o papel do artista na sociedade?
- Seu papel fundamental é o de registrar o tempo em que está vivendo. Ele tem o dever de expressar o que verdadeiramente sente. Talvez ele tenha sido iluminado para fazer o registro do elemento humano naquele tempo para que a evolução possa ser mensurada através do seu trabalho. O artista tem essa responsabilidade.

Na fase estudantil você era um ativista, um militante?
- Não me lembro de nada que fosse importante. Acho que minha atividade era futebol, que eu adorava. Nessa fase eu tinha mais essa perspectiva dos amigos, do namorinho. Mas sempre procurei ser muito bom no que fazia.

Como veio parar na administração pública?
- Costumo dizer que passei 20 anos enfiado em um atelier; eu e minhas questões. De repente, por uma circunstância, fui pinçado à superfície pela política e colocado meio que à deriva.

Você já tinha pensado nessa possibilidade?
Não, sou dessas pessoas que gostam muito de mudar. Mudar endereço, de casa, os móveis do lugar. Me lembro que aos 15 anos era goleiro titular do amador do Ateneu. Nessa época, o titular tinha por volta de 28 anos e eu já era goleiro. Um dia larguei com a desculpa que tinha de estudar para o vestibular, e nas peladinhas no colégio São José eu jogava na linha. Um dia me viram jogando lá e me chamaram para voltar para o Ateneu, mas para jogar como atacante. E assim, em um ano fui o goleiro menos vazando no campeonato e no outro, o artilheiro. Sou muito aberto a experiências. E ser secretário foi uma coisa de um dia para o outro. Por acaso eu entrei na campanha do Athos, coordenando a parte da televisão, estética, discurso e me dediquei porque entro numa coisa pra vencer, realmente odeio perder. De repente fui surpreendido com o convite para ser secretário de Cultura. Topei.

A classe artística de Montes Claros é muito diversificada e intensa. Como é para você representar uma classe com toda essa diversidade?
- Eu tenho entendimento como artista, de necessidades e tudo, e também de administração, porque passei parte da minha vida como chefe de departamento de uma das maiores empresas do país. Mas administrar a secretaria de Cultura não tem absolutamente nada a ver com administrar uma empresa, apesar de que, talvez, fosse importante ser orientado a buscar uma administração mais efetiva, que não fosse um organograma hierárquico. Nós arredondamos esse organograma, onde cada um tem sua responsabilidade, mas não tem ascendência sobre o outro. Tem os departamentos, mas não é aquela coisa híbrida, pasteurizada. Se a gente lança um projeto, é como se fosse uma panela, envolve todo mundo. É uma forma nova de administrar, sem imposição. Isso eu entendi depois de duas, três, quatro semanas.

E funciona?
As pessoas dizem que sim, apesar da grande dificuldade em relação a recursos temos conseguido fazer o trabalho andar.

Quando assumiu a secretaria você tinha algum projeto que gostaria que acontecesse, ou projetos que já existiam que passassem a funcionar de forma mais efetiva?
- Não tinha, mas eu tinha a certeza de que cultura deveria ser entendida como um direito do cidadão, como é hoje a saúde, a educação. Tudo que eu queria é que se desse mais atenção à cultura, que houvesse mais responsabilidade dos governantes em relação a essa pasta, e nós conseguimos chamar atenção da administração municipal. A verdade é que não existe, principalmente nessa área, uma transformação radical, da noite para o dia, mas devagar temos conseguido sair de uma política governamental de cultura que privilegia governantes, para legitimar governantes, para um modelo de políticas públicas culturais, que prioriza projetos, que busca a descentralização e democratização do acesso, o fortalecimento de associações. E nós temos conseguido.

Como é o trabalho da secretaria hoje?
- Nós temos conseguido fazer projetos que antes não aconteciam. Hoje, por exemplo, são 3017 crianças da periferia que participam de projetos de arte e educação, mais 400 e poucas que participam do projeto em parceria com a empresa de telefonia Tim. Temos as políticas de defesa do patrimônio histórico, de relacionamento com o que é mais importante nas tradições culturais de Montes Claros, que são os Catopês, Marujos e Caboclinhos, somos todos parceiros. Quando falamos em sair de uma política que prioriza evento, para um outro modelo não quer dizer que promover evento não seja importante, claro que é, mas precisamos pensar no arquivo, na memória, nos museus, na preservação da identidade, fortalecer as associações. Quando se fala em cultura, é preciso identificar os dois aspectos, o conceito antropológico, os cantares, pensares, fazeres, e o conceito sociológico, que é a formatação dessa cultura para difusão, que exige um palco, gravação de um CD. É preciso ter esse entendimento para que as coisas não se percam na efemeridade.

No seu trabalho, além dos aspectos culturais que mobilizam toda uma opinião pública, também tem a questão do ego do artista, e certo fascínio da imprensa em priorizar aspectos negativos. É claro que a crítica e a cobrança são fundamentais para o desenvolvimento, por isso eu pergunto: como você lida com isso?
- Com atenção. Muitos artistas chegam, sentam, colocam suas idéias e reivindicações e, às vezes, naquele momento não recebem exatamente o que foram buscar, mas foram ouvidos e nós temos a oportunidade de entender a necessidade da demanda e criar uma consciência nova. E a Lei Municipal de Cultura vai ajudar muito nesse aspecto, pois o artista será melhor atendido, é direito dele. Parece discurso, fácil de falar, mas não é. Nós temos que buscar isso.

Você tem uma epígrafe que o acompanhe, um mote que o definiria?
- Carpediem, agarre seu dia, aproveite seu dia.